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v2a4| O mosquito-oráculo e outras tecnologias: novas inteligências epidêmicas e antropologia*

Atualizado: Jul 29

Por Jean Segata. Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS, onde coordena o NEAAT - Núcleo de Estudos Animais, Ambientes e Tecnologias.


Era 2016 e eu estava com o pessoal do mosquito em Natal pesquisando a política pública de saúde para dengue. O momento era confuso. Havia mais do que dengue. Era também o tempo da zika e da chikungunya. E naquele início do outono, fotos de macacos mortos também eram partilhadas nos grupos de WhatsApp e no Facebook. Notícias sobre as mortes espalhavam-se como vírus e muitos também começavam a falar em febre amarela. Nas conversas, as informações sobre todas essas doenças eram misturadas e uma atmosfera de incertezas se formava.

Os macacos que morriam eram aqueles saguis que vivem nos parques pousando para selfies com turistas enquanto roubam a sua comida. Não havia um número preciso de mortes e mesmo o pessoal do mosquito não chegava a um consenso. Nas redes sociais da internet as pessoas falavam em mais de cem. Lucas, um dos agentes de endemia, falou em quarenta. Mas Carlos, mais conservador, disse que era apenas meia dúzia. Mesmo em desacordo sobre a quantidade, Lucas advertia que a causa mortis dos macacos era, provavelmente, a febre amarela. Mas Carlos foi cauteloso. Ele discordou e disse que preferiria aguardar novos exames feitos pelo Instituto Evandro Chagas, em Belém do Pará - um importante centro de pesquisa em doenças tropicais desde a época da Rockefeller no Brasil. As políticas públicas locais tinham tecnologias para monitorar mosquitos e as pessoas doentes, mas não tinham meios para mapear a natureza e a distribuição dos vírus. Então, em meio às incertezas, perguntei se realmente havia febre amarela na cidade. Os dois entreolharam-se e Carlos respondeu: “A gente tá sem orçamento pra ter febre amarela. E eu nem sei se uma nova epidemia dá certo agora. Já temos problemas com a dengue, a zika e a chikungunya. E agora isso aí também? Temos que ajustar os números. Tem o turismo, as vacinas, e tem a campanha - temos que pensar em tudo, sabe? Deixa eu te explicar: vamos fazer um projeto para solicitar recurso do Ministério (da Saúde) para fazer a epidemia. No relatório, a gente coloca algumas fotos dos macacos, os exames, e vamos fundamentar com todos os problemas que temos com mosquitos. A gente espera que eles aprovem. Então, vamos instalar a epidemia, sabe? Se rolar a grana, vamos ter febre amarela, e tudo o que tu quiser... Mas, eu não sei. A chuva acabou e os mosquitos não querem ajudar. Eu só vi alguns. E agora, com toda essa encrenca lá em Brasília, eu não sei. Acho que essa epidemia não sai tão cedo. Talvez só no ano que vem… ou nunca… Ninguém sabe” (Carlos, agente de endemias. Natal, março de 2016). Eu não soube o que dizer quando ouvi sua resposta. Carlos sabia o que me dizia. Ele fez a sua carreira com os mosquitos. Em Natal a dengue já se tornou uma urgência crônica. Não é por menos que Carlos se aposentou naquele mesmo ano, depois de trabalhar trinta anos com ela.

Os jornais locais negavam as suspeitas sobre a febre amarela. A crítica dizia que eram fake news. Mas alguns meses depois, outras notícias sobre macacos mortos apareceram em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. As incertezas aumentavam, e autoridades tentando explicar o problema diziam que era apenas febre amarela silvestre. Mas em 2017 pessoas começaram a morrer perto dos centros urbanos, e muita gente se perguntava se ela estava mesmo voltando.

Faz mais de um século que o mosquito Aedes aegypti foi promulgado um dos principais vetores de doenças como a febre amarela, a dengue e, mais recentemente, a zika e a chikungunya. Para além da fama de vilão e inimigo, isso faz dele uma infraestrutura global da ciência, da política e do capitalismo da saúde. Ele é a materialidade do risco epidêmico. Nas são apenas os vírus que viajam com ele, mas conhecimento, tecnologia e oportunidades. Experiências particulares têm sido ajustadas aos parâmetros internacionais definidos pelos especialistas da Organização Mundial da Saúde, mas também aos entendimentos dos avaliadores da Nature, aos interesses dos acionistas das corporações da indústria química ou os credores do Banco Mundial. Com isso, programas locais para seu controle têm sido alinhados aos interesses da Global Health e sua recente tendência de transformar a saúde em um assunto de segurança.

Eu segui os mosquitos e outras tecnologias a partir de uma investigação etnográfica com trabalho de campo em três lugares diferentes: Natal, Porto Alegre e Buenos Aires. Nessas três cidades, eu pesquisei programas para a sua vigilância e controle que fazem parte de políticas públicas de saúde. Existem diferenças geográficas, culturais e socioeconômicas que impactam a vida das pessoas, dos mosquitos e das políticas. No entanto, em maior ou menor grau, essas três cidades começaram a usar tecnologias digitais e tecnologias da vida para monitorar a presença dos mosquitos e mapear os vírus que eles carregam. Tratam-se de softwares de modelagem, sistemas de mineração de dados, as técnicas de expansão do DNA e a modificação genética, que, sozinhas ou combinadas, formam o que tem sido chamado de novas inteligências epidêmicas (Caduff, 2015; Lakoff, 2017; MacPhail, 2010, 2014; Reis-Castro & Heidrickx, 2013).

Nas últimas décadas , epidemias têm tensionado orientações da saúde global, que passaram cada vez mais a investir em tecnologias de predição ao invés da prevenção, num conjunto mais amplo das chamadas políticas de preparação e resposta. A máxima desse entendimento pode ser reunido em uma expressão bastante ouvida nestes tempos de novo Coronavírus: não se trata mais de saber se uma pandemia vai ou não acontecer. Predizem os especialistas que elas acontecerão - a questão é só a de saber “quando” e se estaremos preparados para elas. Mas, também é preciso perceber que a tônica dessas políticas não é nova, sobretudo no contexto das epidemias provocadas pelos mosquitos, objeto da pesquisa que me orienta. Por isso, no eu tenho cruzado situações etnográficas com pontos de vista históricos para mostrar como certos mecanismos de “preparação e resposta” operam a partir de uma militarização recalcitrante, do mosquitocentrismo e da manutenção dos círculos de exclusão nas cidades (Segata, 2017). Desde a época colonial, prospectar e reprimir epidemias têm constituído uma ampla e pervasiva tecnologia de governo. É como uma espécie de inconsciente tropical: de tempos em tempos, riscos e incertezas são performados e novos discursos, instituições e tecnologias são produzidos na tentativa de contê-los. É certo que epidemias tiram vidas e trazem sofrimento. De toda forma, o que eu quero mostrar é que as pessoas e os mosquitos resistem a essas maquinações políticas, e a insubordinação atrapalha esse mercado do “estar pronto e seguro” [1].

Mosquitos digitais, oráculos e assassinos “Agora, tudo aqui é digital, até o mosquito”, foi o que afirmou Lucas quando apresentou o projeto da nova metodologia para a vigilância da dengue em Natal. Batizado como Vigi@dengue, o programa usava o sinal de “arroba” na composição de seu nome, trazendo a promessa de uma atualização high-tec para política local de saúde (Secretaria Municipal de Saúde, 2015).

A base da operação são as armadilhas geolocalizadas que estão distribuídas no território do município. Elas capturam os ovos do Aedes aegypti e o número de capturas é convertido em um dado entomológico, que indica o volume de presença de mosquitos. Esse dado é combinado com a informação do endereço residencial de pessoas doentes ou suspeitas de dengue. Trata-se do dado epidemiológico do município, produzido pelo sistema de saúde. O algoritmo do software que opera o Vigi@dengue é programado para cruzar o dado entomológico com o epidemiológico - ou seja, os endereços residenciais das pessoas, com a geolocalização das armadilhas com o maior número de ovos capturados. É assim que ele performa as chamadas “zonas de risco”. O risco é uma imaginação atuada através da presença de mosquitos e de humanos doentes em um mesmo espaço. Círculos coloridos no mapa do município indicam territórios “perigosos”. Os vermelhos são os mais críticos e, portanto, precisam ser convertidos em “zonas de combate”. Neles, o pessoal do mosquito, como são conhecidos os agentes de controle de endemias, devem “fazer a casa” - um termo local que resume as ações exigidas pelo Ministério da Saúde (Ministério da Saúde, 2005, 2009). Combater a dengue em Natal significa matar mosquitos dentro de casas ou em outras propriedades particulares (Segata, 2016, 2017). Os mosquitos são inimigos e é por isso que os agentes devem visitar todos os domicílios da área de combate, procurar os criadouros e eliminar ovos e larvas com o uso de veneno. E os círculos vermelhos sempre estavam por toda a parte na tela do computador.

Os gerentes da política pública local costumavam dizer que nada poderia se esconder da tecnologia. É que digital produz a crença na identificação e no controle preciso. Assim, o Vigi@dengue oferecia a eles um senso de onipresença e eficácia que ressoava as fantasias tecnocráticas da ubiquidade que se tornaram uma tendência recente nos sistemas de vigilância (Caduff, 2014a, 2014b, 2015; Lakoff, 2015, 2017; MacPhail, 2014). Biopolítica em tempo real, como sugeriu o antropólogo Andrew Lakoff (2017). Acontece que mesmo que a digitalização e a molecularização sejam meios de produzir um achatamento intencionado da vida, pessoas e mosquitos não se comportam como os códigos binários e genéticos [2].

O Vigi@dengue foi implementado no fim de 2015. O programa recebeu elogios em jornais locais, que diziam que a cidade estava armada contra o mosquito, e que os seus gestores já estavam conversando sobre missões de políticos profissionais de outros lugares, interessados em conhecê-lo. Mas para alguns dos agentes de controle de endemias as coisas não eram bem assim. Como alguém me disse uma vez: “Você pode inventar o que quiser, mas não adianta. Trabalhar com um mosquito é um inferno”. E de fato, o projeto tinha alguns problemas.

Para começar, o algoritmo do Vigi@dengue trabalhava com dados incoerentes. Primeiro, porque havia uma alta taxa de subnotificação de casos. Quando eu acompanhava o pessoal do mosquito para fazer as casas, era muito comum encontrar pessoas - até famílias inteiras - que adoeceram, mas que decidiram não ir aos serviços de saúde. Eles reclamavam da longa espera nas filas e da falta de tratamento [3]. Assim, eles economizavam tempo e sofrimento indo diretamente às farmácias para se automedicar. Quando alguém contraía dengue, zika ou chikungunya, tomavam bastante água e tratavam sintomas como febre e dor com algum analgésico apropriado. Se as pessoas não vão ao médico, elas não se tornam dados epidemiológicos. Então, não havia simetria. A maioria das informações que operavam o sistema do Vigi@dengue vinha da entomologia e distorcia o círculo do mapa para o lado dos mosquitos. Além disso, os poucos dados epidemiológicos existentes consideravam apenas o endereço residencial de doentes ou suspeitos para alimentar o software. Mas, as pessoas podem ser picadas por mosquito no local trabalho ou nos deslocamentos diários pela cidade. O inimigo nem sempre vive dentro do seu quintal, como sugere a recalcitrante individualização da culpa, presente nos guias de controle dos mosquitos e nas explicações sobre os problemas de saúde pública (Segata, 2017).

Além disso, o número de mosquitos era estimado à partir da quantidade de ovos capturados nas armadilhas. Por sua vez, a quantidade de ovos era presumida à partir da superfície que eles ocupavam na armadilha. Ovos de Aedes aegypti são pequenos demais para serem contados na correria do trabalho do pessoal do mosquito. Como Lucas me dizia, “você tem que pegar a manha”. Manha é uma expressão que poderia ser traduzida como um jeitinho brasileiro para a educação da atenção amplamente requerida por Tim Ingold. Significa desenvolver habilidade experiencial e sensível com a vida, no mundo, mas com uma certa dose de astúcia. “Os ovos do mosquito são como borra de café”, continuava me explicando. “Você bate o olho e chuta um número”. Mesmo assim, nos relatórios oficiais, era afirmado que 90% dos ovos capturados nas armadilhas eram de Aedes aegypti. Séries históricas produziam os 10% de quebra. Além disso, aqueles ovos não eram testados, o que significa que, mesmo que fossem de Aedes, poderiam ser de populações saudáveis. E isso colocava em jogo a pressuposição de que a presença de mosquitos em certos territórios fosse suficiente para explicar a incidência de doença - mosquito sem vírus não pode ser automaticamente convertido em vetor.

A palavra-chave nesse jogo era probabilidade. Como escreveu o filósofo Ian Hacking (2002), ela é uma espécie de “guia da vida” que nunca se libertou das funções subjetivas da interpretação e da crença. Portanto, a probabilidade não é um método, mas uma meta, sustentada pelo empoderamento dos números. Dessa forma, os dados entomológicos que faziam o software do Vigi@dengue atuar vinham de uma mistura de prática, sensibilidade, matemática popular e pressa. Em outras palavras, o cálculo computacional que suportava a política pública de Natal precisava contar com a sorte (Segata, 2017) [4].

* * *

Era sexta-feira e tudo parecia calmo no setor de vetores e roedores da Secretaria de Saúde de Porto Alegre. Enquanto conversávamos sobre o clima instável, o baixo número de mosquitos e a incerteza sobre a renovação do contrato com a empresa que realizava os testes de DNA dos mosquitos, o telefone tocou. Ligia atendeu e, depois de um tempo em silêncio ouvindo a ligação, ela puxou a tela do computador para verificar alguns mapas. Gesticulou, falou e quando desligou o telefone explicou que as pessoas ligam para o setor preocupadas. “Elas encontram mosquitos na casa ou na sua rua e reclamam. Mas a gente sabe deles. Nós monitoramos tudo (…) hoje as coisas mudaram. Antigamente, o pessoal ia de casa em casa e passava veneno e matava o mosquito, mas agora a gente procura saber se eles são perigosos ou não. (…) Então não tem que se preocupar se eles não têm vírus, não têm doença. A maioria deles é saudável. A gente tem que aprender a viver com “Criar uma nova consciência é parte do trabalho”, ela dizia, e arrematou a conversa reclamando de que “não é fácil trabalhar com gente”. É que para o interlocutor daquela ligação, como para muitos que demandavam atenção da secretaria, era difícil acreditar que os mosquitos eram monitorados e que a prefeitura sabia quais tinham vírus e quais não. Para a maioria, a impressão era a de descaso com a denúncia.

Em Porto Alegre, a política pública de controle vetorial também trabalha com novas tecnologias, contudo a novidade é o mapeamento da presença de vírus (Vargas, 2018; Segata, 2018a). Como em Natal, são usadas armadilhas, mas ao invés de ovos, elas capturam mosquitos adultos para que o seu DNA seja examinado. Cada uma das mais de 1400 armadilhas está geolocalizada e identificada com um QRCode. Semanalmente, todos os mosquitos capturados nessas armadilhas são levados para Belo Horizonte, onde são analisados por meio da tecnologia de PCR, nos laboratórios da Ecovec. Trata- se de uma empresa de competências em biologia, epidemiologia e tecnologia da informação, que foi incubada na UFMG e que hoje vende seus pacotes de serviços de inteligência para políticas públicas. Quando um vírus é detectado em uma amostra de uma armadilha, o laboratório notifica o setor de vetores e roedores de Porto Alegre, que passa a seguir um protocolo de ações quer vão desde a intensificação da vigilância na área, passando pelas buscas de criadouros in loco, até chegarem ao uso de químicos, se for o caso extremo de continuidade da presença viral com o aparecimento de casos humanos.



Além disso, esse dado sobre a presença de vírus, combinado com inúmeras variáveis, permite a performação de vários cenários epidêmicos. Parte disto pode ser acessado publicamente por meio do site “Onde está o Aedes?”, que mostra mapas dinâmicos com informações sobre a presença de mosquitos, vírus e casos de dengue, zika, chikungunya e, mais recentemente, de febre amarela. Além disso, existem tabelas e gráficos com várias informações sobre a possível origem do vírus - se é importado ou autóctone, quando ele apareceu, e se ele está contaminando seres humanos ou se está apenas circulando entre os mosquitos.

“A maioria dos nossos mosquitos, aqui em Porto Alegre, são saudáveis. Ele nos ajudam a localizar e a combater os vírus. E com os exames não tem erro: o DNA nunca mente”, dizia Ligia. Em Porto Alegre, o mosquito foi promovido a uma espécie de oráculo. A partir dele, um conjunto de índices é construído com a promessa de predizer epidemias. Alguns antropólogos como Carlo Caduff, Andrew Lakoff, Alex Nading, Thereza MacPhail, entre outros, têm escrito sobre o modo como o uso de softwares, técnicas de ampliação de DNA, e também mosquitos geneticamente modificados vem constituindo as novas inteligências epidêmicas. Elas são parte de um processo recente de reposicionamento da saúde pública como assunto de segurança. Além disso, como tem mostrado o antropólogo Frédéric Keck, parte das tecnologias empregadas nesse processo incluem animais convertidos em sentinelas (Keck, 2008, 2009, 2010, 2015; e também Lakoff, 2015, 2017). Exemplo disso são as recentes preocupações com macacos doentes, a observação de mudanças de comportamento em aves, mas também problemas com abelhas, plantas e criaturas marinhas, que passam a fornecer evidências que são convertidas em sinais de alerta sobre possíveis emergências de saúde, desastres ambientais ou mudanças climáticas.

A antropologia também têm dado mais atenção estes cenários. Crises sanitárias facilitam o entendimento das estratégias para o governo das populações humanas e animais. As epidemias de gripe aviária e suína, a doença da vaca louca, a reermergência da leishmaniose, as gripes e infecções respiratórias agudas incluindo aquela que resulta novocoronavírus ou os problemas com as chamadas espécies invasoras ajudam a tensionar o debate político, moral e epistemológico que envolve animais, humanos, saúde e suas infraestruturas e ambientes. Nesse contexto, acredito que fizemos alguns progressos importantes na antropologia das relações humano-animal. Não se tratam apenas de questões envolvendo gado e outros animais considerados produtivos nas áreas rurais ou o debate da etnologia indígena sobre os limites da natureza, da cultura e da humanidade; tampouco, a questão se resume ao emergente interesse no campo dos direitos animais e seus reflexos no universo de movimentos protecionistas urbanos, incluindo aqueles político-dietéticos. O que têm me despertado a atenção é a emergência de trabalhos inspirados na ideia de “etnografia multiespécie” e o seu projeto de colocar criaturas que antes estavam à margem do texto antropológico em um primeiro plano, junto dos humanos, na esfera do que por costume ou convenção chamamos de social. Portanto, como sugerem Eben Kirksey e Stefan Helmreich (2010, p. 545-546, grifo meu), “animais, plantas, fungos e micróbios, que geralmente estavam confinados a um inventário antropológico da vida nua (zoe), começam a aparecer junto com os seres humanos na esfera da vida (bios), com biografias legíveis e protagonismos políticos”. Dito de outra maneira, entre animais bons para pensar da natureza enciclopédica de Lévi-Strauss e aqueles bons para comer, da ecologia materialista de Marvin Harris, temos agora a oportunidade de extrair algumas consequências da provocação de Donna Haraway (2007), ao nos sugerir que os animais são bons para viver juntos. Os mosquitos de Porto Alegre foram convertidos em companheiros de trabalho e tomar isso à sério pode ser muito interessante para pensar a política que sempre visou seu combate, como também a própria antropologia.


À despeito desses avanços, vale notar que estes novos pacotes de inteligência e serviço consumidos pelo poder público para executarem suas políticas operam na mesma tradição top down que hierarquiza conhecimentos e práticas. Derivados da ciência aplicada, eles formam um tipo de experimento de laboratório espalhado pelo mundo. As decisões políticas e corporativas, mas também aquelas de especialistas, são guiadas muito mais por escolhas teóricas e metodológicas que se referem a campos tecnocientíficos do que por análises mais densas dos ambientes, conhecimentos, práticas e experiências locais. Como lugar comum nesse campo, as populações locais não fazem parte da elaboração das políticas públicas, senão como parceiros compulsórios de sua execução. É por isso que eu tenho afirmado, a partir das situações etnográficas que eu exploro, que uma infraestrutura global do digital opera - tanto em Natal quanto em Porto Alegre - um dispositivo que catalisa instituições e prescreve as relações locais entre humanos, mosquitos e seus ambientes.

Finalmente, as tecnologias viajam e distinguem pessoas, mas também outros seres, artefatos, regimes morais. Como escreveu Von Schnitzer (2013), as práticas excedem os projetos e por isso precisam ser sensíveis às formas políticas e criativas das tecnologias. A primeira vez que ouvi falar do site Onde está o Aedes? foi em 2016, quando eu vim morar em Porto Alegre. Eu procurava um apartamento para alugar e o agente imobiliário me disse que o bairro de Moinhos de Vento seria uma ótima opção. Em seu escritório, virou seu notebook para minha direção e apontou na tela: “Olhe aí no mapa, ali fica o Moinhos. Ali, tu fica livre de mosquitos; não tem nada”. Cada ponto de cor que eu via no mapa era uma armadilha. Algum tempo depois, quando iniciei a pesquisa no município, descobri que não havia nenhuma delas instalada naquele bairro. Tanto em Natal como em Porto Alegre, não há armadilhas para mosquitos nos bairros de classe média e alta. Isso não é nenhuma novidade. Todos nós aprendemos nas aulas de métodos que, curiosamente, sempre encontramos o que estamos procurando. Isso funciona também com algumas autoridades de saúde pública: elas procuram mosquitos na cidade e sabem exatamente onde querem encontrá-los * * * Um certo racismo ambiental mesclado com xenofobia é, também, um dos pontos de convergência com o caso de Argentina. Lá não se emprega tanta tecnologia. Um professor da Universidade de Buenos Aires mantém os mosquitos sob observação. Ele usa armadilhas para capturá-las para suas pesquisas. Os poucos dados disponíveis que se têm são fornecidos por ele, como uma espécie de restituição ao município de Buenos Aires. Essa cidade-capital é dividida em 15 comunas. Além dos serviços administrativos, cada uma delas possui uma espécie de associação. Elas são compostas por alguém em quem o prefeito confia e lideranças comunitárias, incluindo professores, religiosos ou aposentados considerados “sábios na vizinhança”. Eu participei de atividades das comunas 1 e 10. Há um grande contraste entre elas. A primeira refere-se à área mais central da cidade. Prédios governamentais, teatros, locais de comércio e outras atrações turísticas estão ali localizados. Ou seja, é uma região de baixa densidade residencial. Já a Comuna 10 está localizada no cruzamento de bairros residenciais e hospitalares. Mas, às suas margens, áreas emergentes de trabalho precário estão aparecendo. Eles empregam principalmente os imigrantes bolivianos e peruanos, como costureiras e recicladores.

O que acontece é que uma das estratégias para combater a dengue em Buenos Aires foi a de mobilizar “equipes de vizinhos” nas Comunas com mais risco epidêmico - aquele novamente, materializado pela captura mosquitos. O que se sabe da localização das armadilhas é fruto de especulações. Então, as equipes caçam as armadilhas concluindo que os responsáveis pelos mosquitos moram perto delas. Alguns marcos como igrejas ou parques presentes nos relatórios fornecem uma localização aproximada e esta informação é transformada em mapa nas mãos das equipes. Esses vizinhos se autodenominam multiplicadores e atribuem a si mesmos qualidades morais para cuidar do bairro. De modo similar ao que Alex Nading (2013, 2014) descreve sobre Ciudad Sandino, na Nicarágua, esses multiplicadores incorporam um sentimento de médicos comunitários encorajados por um espírito patriótico [5].


Em um papel ambíguo, eles se sentem parte do governo por fazer um trabalho que reflete os interesses da saúde pública nacional, e também usam sua confiança como vizinhos para mediar a resistência popular contra o poder do Estado. Na Argentina, os trabalhadores da saúde não podem entrar em residências ou propriedades particulares, como no Brasil. Eles levam à sério o acordo liberal da propriedade privada. Então, quem conhece melhor a vizinhança da região ajuda a produzir um tipo de “ l i s ta de suspeitos”, incluindo referências e endereços pessoais e o próprio grupo de vizinhos passa a visitar suas casas. “É que precisamos descobrir quem são os assassinos que criam mosquitos”, disse-me alguém da Comuna 10. A maior ameaça, como sempre, são os estrangeiros [6]. Recalcitrâncias, incertezas e aberturas “Você tem que encontrar o inimigo antes que ele encontre você”, disse Ligia enquanto justificava os custos com os softwares e o PCR que usam em Porto Alegre. “A gente precisa ficar preparado - tem que estar sempre alerta”, ela enfatizou. A fala da gestora reforça a emergência da biossegurança como um horizonte político internacional - ou mais especificamente, um projeto global de conversão da saúde em um assunto de segurança. Frequentemente, essa mudança de escala e de natureza que afeta e intersecta saúde e segurança tem sido justificada por uma ideia elástica de globalização. Nela cabe a expansão da produção e do comércio internacional de produtos de origem animal e vegetal, mas também a circulação de pessoas - incluindo migrantes e refugiados, e de conhecimentos e de técnicas da microbiologia. Assim, eventos descritos como ameaças em escala global têm mobilizado novas economias do risco, da prevenção e da resposta a epidemias (Segata, 2020). Para ilustrar isso com um exemplo bem recente, no dia 11 de fevereiro deste ano, quando Tedrus Ghebreyesus, diretor geral da OMS, anunciou que Covid-19 seria o nome oficial da doença que resulta do novo coronavírus, disse: “Eu era ministro das Relações Exteriores e discutia o terrorismo e assim por diante, mas um vírus pode ter consequências mais poderosas do que qualquer ação terrorista, e isso é verdade. Se o mundo não quiser acordar e considerar esse vírus inimigo como inimigo público número um, acho que não aprenderemos nossas lições. É o inimigo número um do mundo e de toda a humanidade e é por isso que temos que fazer tudo para investir em sistemas de saúde, investir em preparação e é por isso que eu sempre digo: é isso que me acorda à noite e deve acordar todos nós. (O vírus) é o pior inimigo que você pode imaginar. Pode causar estragos, política, econômica e social” [7].

Para Stephen Collier (2011), há uma tendência em transferir para o campo da saúde o estado de alerta que quase adormeceu com o fim da Guerra Fria. Isso se potencializou com a emergência das influenzas há duas décadas, em especial a gripe aviária e a suína, mas também o ebola e mais recentemente a epidemia de zika. A vulnerabilidade ao terrorismo, materializado no ataque à torres gêmeas e mais particularmente o bioterrorismo anunciado nas cartas com antraz também não ficou de fora. Esses recentes eventos têm reanimado um imaginário contaminado por discursos catastróficos que descentram às ameaças com bombas nucleares para incluir em sua gramática superbactérias mutantes e resistentes a antibióticos ou cepas mortais de algum vírus adormecido que atravessa oceanos na carona de algum voo comercial (Caduff, 2014). O quadro de Andrew Lakoff (2008) sintetiza essa tensão:

Como se pode observar, o quadro sintetiza e articula períodos-modelo (da segurança da soberania do Estado aos sistemas vitais) com seus pensamentos e práticas. Ele apresenta uma sequência que sugere deslocamentos que vão do certo para o incerto, do conhecido para o desconhecido, do concreto para o imaginado. Eu não tenho dúvidas que isso nos lança importantes pistas, que ao meu ver podem ser tencionadas com a etnografia. A primeira delas, certamente, é a localização desta segurança de sistemas vitais - ou mais diretamente, da biossegurança. Nick Bingham e Steve Hinchliffe (2008), no mesmo volume onde este quadro aparece, mostram que biossegurança tem uma variedade de significantes. Na Europa, por exemplo, o termo é frequentemente é acionado em termos de segurança alimentar em contexto de manejo de produtos da agricultura e da pecuária. Na Austrália, ela concentra esforços para reduzir os efeitos das chamadas espécies invasoras, enquanto que nos Estados Unidos, elas se direcionam ao perigo da contaminação de humanos por agentes biológicos - seja o caso das doenças antropozoonóticas e vetoriais ou o uso de patógenos em ações de bioterrorismo. Além disso, o quadro em si não deve prescrever uma linearidade. Muitas dessas políticas e práticas são sobrepostas e combinadas em contextos locais, ainda que quase sempre, importem problemas e soluções do norte para o sul global.

Nos casos aqui sumariamente descritos, eu busquei mostrar desde uma perspectiva etnográfica que há uma promessa precária em tendência: a de que as tecnologias digitais e da vida sugerem o futuro. No entanto, apesar deste empoderamento high-tech de algumas políticas, o pensamento que ainda as enquadra é bastante tradicional. Exemplo disto é a militarização da saúde e o mosquitocentrismo - para fazer um trocadilho, é uma espécie de ontologia política centrada no vetor combinada a uma cosmologia militar das práticas de vigilância e controle.

O ponto é que o Aedes aegypti é uma das mais sofisticadas tecnologias já fabricadas desde a Medicina Tropical. Ele se tornou uma infraestrutura de políticas científicas e epidêmicas (Segata, 2018a). Ele foi converteu em uma infraestrutura de políticas científicas e epidêmicas [8]. Com ele, a saúde (sua ciência e suas técnicas) pode se internacionalizar (Benchimol, 2001, 2011; Löwy, 2006). Como sugeri anteriormente, ele é aquele tipo de elemento chave que permite que um experimento pule de contexto para outro, como se fosse neutro. Onde quer que você encontre o mosquito, você pode levar até ele um saber produzido em outro lugar. Da mesma forma acontece com as doenças que ele pode transmitir - ainda que sejam são bem diferentes, é o mosquito que formata parte das ações para de saúde, servindo com alvo de combate. É por isso que a maioria das políticas públicas para febre amarela, dengue, zika e chikungunya não atua sobre elas - sobre suas singularidades. Antes disso, muitas delas se resumem na matança de mosquitos com veneno. O mosquitocentrismo é recalcitrante (Augusto, Torrez, Costa, Pontez & Novaez, 1998; Segata, 2018a).

Situação parecida é a da militarização da saúde. A descoberta do mosquito coincidiu com o início das intervenções dos Estados Unidos na América Latina, como a independência de Cuba e a construção do Canal do Panamá. Nos dois casos, a febre amarela matava pessoas, incluindo soldados e trabalhadores. Então, quando o general William Gorgas entrou em ação contra a doença, o mosquito se tornou um inimigo e começou a guerra contra ele: inimigo e guerra, e também território, campanha, mapeamento, vigilância, controle, combate e erradicação (Espinosa, 2009; Löwy, 2006, 2017; McNeill, 2010; Stepan, 2011). A semântica militar estava por toda parte e permaneceu. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando a Fundação Rockefeller realizou a grande campanha contra a febre amarela na América Latina entre os anos 20 e 50. A sua meta era matar o inimigo antes que ele nos matasse - e a grande bomba para seu extermínio foi o DDT. Além disso, os especialistas da Rockefeller estabeleceram um padrão internacional conhecido como “índice de mosquitos” com base em sua característica sinantrópica. Desde então, medir a eficácia dos programas de saúde se baseia no vínculo entre o habitat do mosquito e os hábitos humanos. Na biopolítica das epidemias, o controle eficiente dos mosquitos também deve envolver a vigilância e o controle conjunto dos humanos e dos territórios que ambos constituem e partilham (Löwy, 1990, 1996, 1999, 2006)



Alguns quadros são ainda mais antigos e se mesclam com o que Lakoff (2008) esquematizou como sendo a segurança das populações. Antes do mosquito, as teorias sobre os miasmas e sobre o contágio apoiavam políticas higienistas na América Latina e no Caribe. No Rio de Janeiro, por exemplo, as políticas de saúde levaram à destruição de edifícios residenciais. Os pobres e os negros foram perseguidos e expulsos do centro das cidades sob a acusação de que eram sujos e perigosos. As teorias pasteurianas levaram Oswaldo Cruz e suas campanhas a vacinar coercivamente a população e invadir suas casas para aplicar enxofre (Benchimol, 1992, 1999 2003; Chalhoub, 1993, 2013). Como a antropóloga Heather Paxson (2008) escreveu, biopolítica e microbiopolítica sempre andaram de mãos dadas. Se os humanos, seus corpos, sua reprodução e seus territórios se tornaram controlados pelo Estado a partir dos meados do século XIX, os micróbios revelados por Louis Pasteur assim também o foram. Higienistas e funcionários do governo lançaram as bases para o que eles acreditavam ser as relações sociais “puras”, isto é, relações que não seriam prejudicadas por irrupções microbianas, relações que poderiam ser previstas e, portanto, ordenadas racionalmente.


A tensão em pauta é a de que apesar do DNA e das novas tecnologias digitais, as políticas atuam nos mesmos círculos de exclusão conhecidos há mais de um século e meio. A geolocalização de áreas de risco imaginado atuam na manutenção e na produção de periferias morais e estruturas de desigualdade. Em Natal, por exemplo, as comunidades mais periféricas vivem sob um problema constante de suprimento de água potável. É comum as pessoas fazerem reservas em baldes. Por viverem em “zonas de risco”, marcadas pelos círculos vermelhos, os agentes os acusam de facilitar o aparecimento de criadouros com seus baldes de água. Focada no mosquito, a representação elaborada pelo software oblitera os problemas estruturais do município e transfere para as pessoas a culpa pela epidemia (Segata, 2016a, 2016b). A representação visual destes mapas faz com que s pessoas se vejam em círculos vermelhos e os conflitos se tornam f requentes. Existem situações violentas por conta da responsabilidade dos mosquitos. Expressões como “os mosquitos do vizinho” ou “pessoas da mancha vermelha” são algumas das categorias acusatórias que conheci no campo. Estar em um círculo vermelho significa ser acusado de ser sujo - significa ter sua propriedade desvalorizada, porque com a marcação em cor, o mosquito e o risco passam a ter dono, causa, custo e endereço. A tecnologia não mente, já ouvi muitas vezes. E quem tem seu território marcado pelo algoritmo tem seu futuro desgraçado na comunidade. Como Lucas costumava contar,

“você tem que ir de casa em casa e caçar o mosquito. Mas as pessoas não gostam disso. Eles querem saber quem fala das suas vidas. Eles ficam furiosos porque pensam que os estamos acusando de serem “donos de mosquitos”. Eles simplesmente vivem suas vidas, mas nós temos que cumprir nossa missão. Só que eles acham que as estamos perseguindo por causa da pobreza ou da sua cor. E não é verdade, mas não me envolvo na briga. Não quero levar uma bala como já aconteceu por aí” (Lucas, agente de endemias. Natal, novembro de 2015).

Porto Alegre, por sua vez possui uma das tecnologias mais inovadoras para produção de informações sobre cenários de epidemia. É realmente espetacular. Mas outras responsabilidades do poder público do município não dialogam com ela. Isso porque, 44% da população não tem saneamento básico. Ou seja, a saúde, centrada na saúde faz com que haja PCR para mosquitos, mas desarticulada com outros setores, faz com que não haja uma das tecnologias urbanas mais básicas, que consiste em dois canos - um que traga água potável e outro que destine adequadamente os resíduos. Além disso, embora até então a maioria das armadilhas esteja apenas instaladas em áreas sobremaneira mais pobres, algumas pessoas que adoeceram em Porto Alegre vivem em bairros ricos. Mas eles geralmente escondem que tiveram dengue devido à vergonha. É uma doença dos pobres. Além disso, segundo Ligia, tudo indica que existem pessoas que viajam para as praias de Pernambuco ou Bahia e contraem o vírus por lá. Para um dos gestores da política, “essas pessoas são muito perigosa s porque podem contaminar nossos mosquitos”. O nordeste do Brasil é frequentemente responsabilizado pelos problemas do país, e essa é mais uma recalcitrância.

A presença do pessoal do mosquito também causa desconfortos morais. Em Natal, receber uma visita faz de você um “poluidor”. A partir de então, pode ser por sua causa que as pessoas ficam doentes. Como eu já mostrei, conflitos se tornam comuns - incluindo a hostilidade contra os agentes. Voltar para casa, fisicamente e psicologicamente seguro, é uma incerteza (Segata, 2017). Além disso, o software torna invisível o sofrimento cotidiano dos trabalhadores. A melhor proteção que recebem é a de ficarem contaminados, pois o seu EPI (Equipamento de Proteção Individual) é adoecer, pois em tese se tornam imunes. Todos os trabalhadores com quem eu convivi em Natal já haviam adoecido. Eles tiverem dengue, zika ou chikungunya. Eles não recebiam repelente, roupas apropriadas, sequer protetor solar, e o veneno também era manipulado sem luvas. A saúde dos trabalhadores humanos é outra incerteza (Segata, 2018b). E eu nem vou falar muito dos outros trabalhadores - os mosquitos de Porto Alegre. O seu altruísmo agonístico de se tornarem parceiros não me parecia vantajoso para eles: afinal, a maioria morria grudado no adesivo da armadilha (Vargas, 2017). Os que ainda estavam vivos eram “esmagadinhos” com a ponta de um palito de dentes e depois disso eram entubados, centrifugados em um laboratório, terminando suas carreiras como “material genético” em uma lâmina microscópica. Ainda que sua condição de sentinela tensione sua biografia de vilão, o seu destino ainda tem sido a morte. Os mosquitos são uma alteridade facilmente matável. Eles não habitam, por exemplo, a mesma encruzilhada conflituosa dos cães com Leishmaniose, onde convívio e contágio mobilizam amplas frentes de debates de ordem sanitária, mas sobretudo, moral. É que mosquito não é gente como cachorro. Eles nem têm rosto, talvez dissesse Levinas e por isso, não são pessoas.


Mas, como eu disse, existem resistências e eu gosto dos mosquitos justamente porque eles resistem. Eles são como os cogumelos da Anna Tsing: insubordináveis (Tsing, 2005, 2012). Eles nos alertam que nem sempre estamos no controle. Sendo otimistas, pensando na febre amarela matando os europeus que chegavam às areias quentes da América Latina e do Caribe, os mosquitos foram antes de nós os primeiros anticolonialistas. Eles resistiram ao embranquecimento da América, como também resistem à indústria de pesticidas e ao imperialismo da Saúde Global, nem o lobby do glifosato é mais forte do que eles. Eles sempre voltam - a questão é que às vezes eles demoram, e deixam os gestores das políticas um pouco preocupados. Existem várias razões para isso. Se chover demais os seus ovos são destruídos. Se não chove, eles não eclodem. Carlos reclamou disso quando perguntei a ele e ao Lucas sobre febre amarela em Natal - “os mosquitos não estavam colaborando naquele ano” e o projeto de epidemia poderia falhar. A falta de mosquitos parece boa, mas para os trabalhadores e políticos profissionais à frente de programas de controle isso não é verdade. Eles precisam do “salário do mosquito” para viver. Sem mosquitos os orçamentos não são renovados. Portanto, as autoridades devem convencer o governo federal de que eles ainda existem para oferecer perigo e serem combatidos. É por isso que os modelos de computador usam informações do passado e do presente para profetizar cenários de futuro. É que a catástrofe virtual do amanhã incerto justifica os custos e as estruturas do presente. Não se trata de prevenção, mas da produção e da ação sobre o que é incerto, tão logo, sempre fugindo do controle. Essa subjetivação da incerteza tem se tornado uma política global de saúde. “Estar alerta e preparado” é uma condição de suspensão do presente que forma e age o que Hannah Appel, Nikhil Anand y Akhil Gupta (2018) chamaram de promessa de infraestrutura. Infraestruturas criam expectativas, distribuem e governam a vida, e para mim a principal delas é a ambivalente intersecção de tantas incertezas convivendo com a precisão dos códigos binários e genéticos. Essas tecnologias prometem precisão mas potencializam a suspensão da certeza.

Enfim, as experiências que eu tentei descrever aqui de certa forma ecoam um pouco do encontro sobre o qual Arturo Escobar (2016) escreveu há 25 anos em Welcome to Cyberia - o da tecnossocialidade com a biossocialidade. Ele expressa um processo generalizado e onipresente de perturbação sociocultural e produção de vida e natureza por meio de tecnologias digitais. O que eu busquei mostrar é que DNA e algoritmos funcionam sob o mesmo princípio matemático - e ele tem tornado o digital um meio expressivo saliente. O mundo não é digital, mas nosso modo de apreendê-lo tem sido. Acontece que não podemos confundir modelagem genética e computacional com a própria vida. Softwares ou combinações de ácidos e proteína inscrevem realidades sustentadas pela confiança no cálculo computacional e na materialidade universalizável da biologia. Não é por menos que as tecnologias digitais e da vida formam novas infraestruturas globais para o capitalismo da saúde - contidas nesses pacotes de inteligência, como aqueles de Natal e Porto Alegre. Se no início do século a internacionalização da saúde se baseou em tecnologias contra micróbios, e depois seguiu o rumo ao império mundial dos medicamentos no Pós-Guerra, chegamos ao momento de vender poderosos programas globais para o gerenciamento de políticas públicas locais. Eles ainda operam o mesmo elemento central para as políticas de saúde coletiva - a vigilância e o controle de populações e territórios, mas acrescenta agora uma mudança de interesse que se desloca da prevenção do risco generalizado para a “predição da ameaça performada”. Essas novas inteligências não impedem que epidemias aconteçam - o que elas fazem é nos oferecer um futuro para o qual devemos nos preparar. Assim, grande parte do trabalho dos trabalhadores de saúde é produzir dados para alimentar essas tecnologias de predição, em vez de agir sobre problemas concretos do presente.


Como escreveu Gerda Reith (2004), o risco nos ajuda a colonizar o futuro - e a continuidade dessas políticas depende justamente disto. O problema é que para que tudo isso funcione, “todos devem fazer a sua parte”, incluindo, é claro, as pessoas, mas também os mosquitos, a epidemiologia, a entomologia, os algoritmos e os vírus. Como Carlos concluiu certa vez, “a verdade é que os mosquitos são uma mina de ouro e cada epidemia é um cheque em branco. Mas eles têm que ser mais discretos e colaborar com a gente: se aparecem demais a gente mata; se somem o dinheiro não chega”.

Enfim, tudo isso foi para dizer que muita informação tem sido produzida com essas novas inteligências epidêmicas - vários mapas, índices, séries históricas e frequência de dados que prometem antecipação e resposta. Mas quando os macacos começaram a morrer em Natal, o pessoal do mosquito não sabia se a febre amarela estava voltando. É que o tempo da doença não coincide, com o tempo da informação, muito menos com o da burocracia. Resta a conclusão de que o oráculo nem sempre consegue predizer epidemias, mas pelo menos ele ajuda a prever os orçamentos e a continuidade das poucas políticas que temos. Em um país que, a despeito de muitos projetos e iniciativas fantásticas, como o da própria universalização do acesso a saúde por meio do SUS, ainda vivemos os prejuízos de operarmos muitas das nossas políticas de saúde sob a força de demandas instaladas. Se não há problema evidente ou iminente, não há investimento. O mosquito, assim, é uma das principais infraestruturas para a manutenção das poucas políticas epidêmicas que hoje temos disponíveis. Em outros termos, o mosquito-oráculo ainda é a nossa sorte grande.

Notas


[1] A ideia de “performação" que assombra e inspira todo este texto e meus trabalhos recentes vem de Mol (1999).

[2] Faço uma referência frouxa intersectando as ideias de molecularização (Rose, 2013), de formas emergente de vida (Fischer, 2003, 2011), de biossocialidade (Rabinow, 1996, 1999, 2011) e suas articulações com estudos sobre tecnologias digitais (Segata, 2018a).

[3] Sobre a dificuldade de acesso a tratamentos médicos e a judicialização da saúde veja Biehl, Amon, Socal & Petrina, 2012; Biehl 2013.

[4] Nessa linha, tendo em mente Latour e Woolgar (1997, p. 274, 278), “se a força da convicção é suficiente o outro deixará de colocar objeções e a declaração alcançará o estatuto de fato. No lugar de ser mero produto da imaginação (subjetiva), ele se converte em ‘algo objetivo, real’, cuja existência já não pode ser questionada”

[5] Ver, também, o trabalho de Fiqueperon (2017) sobre a comissões de vizinhos, centrado particularmente nas epidemias de cólera de 1867, 1868 e 1873, e nas epidemias defere amarela de 1871 e 1886.

[6] Ver Mason (2016) e a sua crítica sobre a racialização dos vírus a partir da experiência da SARS e a ideia de que ela era uma “doença da China”.

[7] Ver “Coronavirus press conference 11 February, 2020” em <https://www.who.int/ docs/default-source/coronaviruse/transcripts/who-audio-emergencies-coronavirus- full-press-conference-11feb2020-final.pdf?sfvrsn=e2019136_2>, acesso em 15/02/2020. Todas as transcrições dos pronunciamentos oficiais da OMS estão disponíveis no seu website.

[8] Eu tenho em mente que a ideia de infra-estrutura, como no trabalho de Susan Star (1999) e Bryan Larkin (2013), refere-se a um dispositivo útil de governança que inclui artefatos, instituições, discursos e ações. Os elementos que formam este aparato não podem ser reduzidos a algo neutro por onde passa a ciência e a política; antes que isso, uma infraestrutura também é (e faz) política.

* Palestra apresentada no dia 11 de março de 2020 no IFCH-UFRGS, na abertura dos Encontros com a Antropologia. Esta atividade é promovida pelo promovido pelo Departamento de Antropologia da UFRGS e visa apresentar temas emergentes e promover trocas de experiência em pesquisa antropológica entre docentes, estudantes de graduação, pesquisadoras e pesquisadores de mestrado, doutorado e pós-doutorado e docentes. Versões anteriores deste material foram apresentadas em dezembro de 2018 no Program in Latin American Studies e no Brazil Lab na Universidade de Princeton University, nos Estados Unidos e no VI Seminário Mapeando Controvérsias Contemporâneas: Vida, na UFSC, em novembro de 2019. Agradeço a João Biehl e a Theophilos Rifiotis pelos respectivos convites e a Alex Nading e Amy Moran-Thomas por seus valorosos comentários durante a preparação do texto. Agradeço a Brown University, em particular a Jessica Leinaweaver, pelo suporte e ambiente favorável para o ensino e a pesquisa durante o período em que fui Craig M. Cogut Visiting Professor no Center for Latin American and Caribbean Studies. Também agradeço a Andrea Mastrangelo do CeNDIE - Centro Nacional de Diagnóstico e Investigación en Endemoepidemias do Ministerio de Salud e ao CONICET - Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, Argentina pela bolsa que me permitiu realizar trabalho de campo em Buenos Aires no contexto do Programa Salud, Ambiente y Trabajo —211— dos Proyectos de Desarrollo Tecnológico y Social —PDTS — (2017-2019). Por fim, o trabalho de campo em Natal e em Porto Alegre não seria possível sem o suporte do CNPq e os recursos do Edital Universal Chamada MCTIC/CNPq No 28/2018 (Processo: 404715/2018-4) e da Chamada CNPq No 09/2018 - Bolsas de Produtividade em Pesquisa - PQ (Processo 404715/2018-4). O projeto foi aprovado nos Comitês de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre ( CAAE: 64955317.2.0000.5347). Versões prévias da discussão sobre o emprego de tecnologias digitais no controle da dengue em Natal já aparecerem em Segata (2016a, 2017a). Uma versão em espanhol com poucas modificações em relação ao presente trabalho foi publicada na revista Tabula Rasa 32 (10.25058/20112742.n32.06), com o título El mosquito-oráculo y outras tecnologías. A tradução do original em inglês para o português é minha.

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