• antropoLÓGICAS

O pasteleiro e a pandemia – uma história essencial sobre o fim de um trabalho

Por Raquel Guilherme de Lima. Professora do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da UFF e, às vezes, a gêmea má. Colabora com a Escuta - Revista de Política e Cultura.


Foto retirada do texto original. Disponível em: https://revistaescuta.wordpress.com/2020/04/26/o-pasteleiro-e-a-pandemia-uma-historia-essencial-sobre-o-fim-de-um-trabalho/#more-5111



20h30m – hora de bater palmas para os trabalhadores essenciais da enferma sociedade, enquanto os demais tentam dar conta das suas existências confinadas.


O pasteleiro assiste o JN, admira os médicos, gente estudada que tem um ofício bonito. Não, ele não irá até as janelas bater palmas para os bacharéis transformados em doutores, não tem humor para isso, lhes presta sincera homenagem com um gesto de consentimento.


Naquele mesmo dia, vejam só, ele também tinha celebrado a sua história de trabalho. Ironicamente em casa, numa quarta-feira que deveria ser de lida como as tantas outras, ele completava 50 anos de carteira assinada na mesma firma. Se desdobrava entre descontentamento e agradecimento, pensados e repisados. Aguentara tudo, confiara o seu destino a base de promessas, a maioria devidamente pagas e, justo naquela data, ele estava inoperante em razão de um atestado de saúde global.


Do infindável universo de frustrações, talvez uma das mais sofridas seja aquela sentida quando o gozo acaba, justo na sua vez. Trilhão[1] de pastéis fritos depois, para não sair nenhunzinho clássico de recheio de vento bem no dia do seu quinquagésimo aniversário. Não que o nosso personagem seja afeito a narrativa orgulhosa sobre si mesmo, apenas queria realizar naquele 15 de abril a sua rotina. Dessa vez, com um sabor de conquista, pois, afinal de contas, quem é capaz de anotar 50 anos de carteira assinada?


Silêncio no home office.


Já tinha planejado o jubileu de ouro, observaria exatamente o mesmo de sempre. Cruzaria a Avenida Amazonas, passaria a Rua São Paulo onde subiria as escadarias da Galeria Ouvidor. Os mais jovens a desprezam, mas esse simpático conjunto de lojas, referência para a aquisição de insumos para artesanato barato – vigoroso mercado – já foi mais bem reputado na discreta capital mineira.


Logo de partida, começaria o preparo da massa, sovaria os ingredientes, assistiria a massadeira rebolar, movimento que já fora dos seus braços, para depois abrir a mistura em um bom cilindro, peça chave do maquinário. Máquina ajuda, mas não resolve tudo. Testemunhou muitos conhecidos perderem o emprego por conta delas, empregos muito melhores que o seu, inclusive. No ramo dos pastéis, entretanto, nenhuma engenhosa maquinaria substitui aquele que conheça os caprichos da aparente combinação simplória de farinha, água, sal e outros penduricalhos mantidos sob sigilo do negócio.


A massa, insubmissa, não se dobra ao ritmo do comércio se não lhe garantirem o ponto certo, o tempo de descanso e a temperatura ideal da fritura. Sem ela, na sua melhor versão, não há recheio que garanta a freguesia. Inicialmente, eram duas as opções de complemento: os tradicionais queijo e carne. Por um tempo, o pastel de carne também levava batatinha, a sua combinação preferida. A maledicência da clientela tanto fez que terminou por sabotar a batatinha. Corria na praça que a pastelaria andava fazendo fortuna com os seus pastéis ‘carro chefe’, sabor vento e sabor batata. Continuaram os tradicionais, chegaram as novidades. Sem muita bagunça, “respeita a minha história”, ele diria[2].


Não é só do temperamento da farinha que o pasteleiro é refém, a querela das batatas é prova de que a freguesia pode desandar tudo. Se fosse para receber uma homenagem, gostaria de uma condecoração por ter sido empregado por tantas décadas no ramo de lanches. Quando dizem que o país mudou e melhorou, concorda, por muitas coisas, em especial, por conta dos estudos. Desde os anos 70 para cá, desconfia que cada vez mais doutores viraram fregueses da pastelaria, todos letrados e versados no código do consumidor, lhe falta imaginação para especular onde todo esse povaréu arruma emprego.


Recompondo a humildade, admite que nem só de pastel vive uma pastelaria. Dentre os coadjuvantes nomináveis estão as coxinhas, as pizzas, o caldo de cana e, também a salgadeira. As salgadeiras dão a forma do salgado, por vezes fazem a fritura, por outra a comida dos funcionários. Respeita o trabalho das mulheres, não quer fazer ofensa a elas, inclusive encontrou a sua companheira batendo o mesmo ponto.


Informa uma tendência apenas, o trabalho com as massas é masculino. É um trabalho de força. Tem pasteleira, tem, mas, ainda é minoria. Reconhece, contudo, que as máquinas ajudam no esforço e que as forças mudam de lugar.


Fez-se homem ali, na cozinha e no balcão. Nunca ostentou um uniforme de operário, desses manchados com graxa ou fuligem de fábrica. Estética máxima da masculinidade popular. O seu uniforme é rosa e perfumado a óleo. Não se queixa, não vê demérito no cenário de sua vida de trabalho.


Confessa que nunca usou grande vocabulário de direitos nesses cinquenta anos. Tinha uma meta de vida, perseverar como assalariado, fichado, resguardado pelos direitos trabalhistas. Assim o fez e funcionou. Da jornada inicial de 12 horas, restaram 8. Ajustou o seu relógio com novos horários, como o tempo para o almoço e o das férias. Temporalidades anteriores a sua contratação, mas que foram muito bem decantadas pelo empregador. Nesse ínterim, sentiu revolta, claro. Não concordava que os pasteleiros recebessem menos que os funcionários do caixa, chegando assim o mais próximo da iluminação: “se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence”.


Posto tudo isto, se vê em maus lençóis. É temente a Deus, portanto, está no time da vida e esconjura quem pensa o contrário. Mas, se desassossega com a sua preocupação com os patrões, com o tanto de lojas fechadas na Ouvidor. O que será dos seus colegas de serviço? Remói, lava as mãos, se espanta com os números e odeia o vírus. Inimigo sorrateiro, aquele que fez o que nenhuma crise antes lhe fizera, estava em casa. Como se não bastasse, na companhia embaraçosa de um tal grupo malfadado “trabalhadores não essenciais”. O seu maior temor era ser taxado de vagabundo, encostado e sustentado por mulher. Percebe que a danação se sempre se reinventa.


Recompõe-se. Recorda de sua condição de aposentado na ativa, já se vão 15 anos daquela grande festa, talvez tenha chegado a hora do descanso. Olha ao seu redor, busca na casa uma ressignificação. Tenta desvendar os segredos da inquietação da mulher naquele ambiente, que diferente dele abraçou o lar desde a sua aposentadoria. O rádio continua companheiro, assim como os passarinhos e as plantas os quais agora únicos a receberem os seus cuidados, uma vez os filhos criados.


Na alvorada de sua história de trabalho, desconfia que não é só a pandemia a limitar a sua glória. Os seus feitos parecem intraduzíveis neste mundo de outras regras, de outros valores e outras qualidades de trabalhadores. Aquieta-se e agradece ao ter a certeza de que a sua carteira de trabalho jamais será verde e amarela.


Notas:

[1] Trilhão usado no sentido guedeano.

[2] Denuncia: “tem comércio fazendo salgado de jaca. Afirma que nunca colocará um trem desse na boca.”



Texto originalmente publicado pela Escuta - Revista de Política e Cultura, em: https://revistaescuta.wordpress.com/2020/04/26/o-pasteleiro-e-a-pandemia-uma-historia-essencial-sobre-o-fim-de-um-trabalho/#more-5111


© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES