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v4a12| O presente inominável

Atualizado: Jul 30

Por Aline Ribeiro Nascimento. Pós-doutora em Psicologia Social (UERJ), doutora em Memória Social (UNIRIO), mestre em Psicologia (UFF).


Sempre olhei para o tempo como abrigo. Mas vejam bem, olhava o tempo...Via os dias passando e, por olhar o tempo, acreditava poder ter controle. Nesse olhar-para-o-tempo, tinha referência do passado para pensar o presente e, nessa matemática historiográfica, jogava meus sonhos para o futuro, que julgava poder construir, desde que minha analítica respeitasse as singularidades do presente. Nela, fazia diagnósticos e prognósticos. Mas eis que, agora, com uma pandemia pegando o corpo de todos nós de frente, meu corpo passou a sentir o tempo e não mais a vê-lo. Sentir o tempo é instalar-se no agora e buscar fazer, desse agora, abrigo. Por vezes, esse agora não é um abrigo afetuoso; esse agora desperta afetos de absurdidade tão imensos e, de tão grotesca experiência, meu corpo não sabe expressar, através de lágrimas, sua dor, como outrora fazia. Ele, agora, congela, entra em choque porque as experiências não têm um correlato afetivo que as pudesse dar um contorno. Ultrapassa a tristeza, é outro afeto que não sei nomear, portanto, não sei como fazê-lo desaguar. No entanto, o que me sustenta é ir construindo um novo saber a respeito do novo desenho do tempo em mim. Nele busco descongelar essas experiências sem correlato afetivo em imagens e sons conhecidos ou no silêncio respeitoso a mim mesma. Maneira de não permitir que esse afeto sem nome me governe. A política anímica de nomeação é importante, não só para poetas. Um nome, uma palavra, puxa um parágrafo existencial. Se não acho o nome, como posso respirar? Ai sinto o tempo, em sua manifestação artística. Tiro fotos do céu, mas não com os olhos, mas com o corpo. Não busco seqüenciar os dias para ter ideia de duração, mas busco o instante de uma aparição. Meu corpo busca a fração do tempo outro nessas imagens que sejam distintas desse congelamento da palavra. Consigo, enfim, respirar e me abrigar.


05 de maio de 2020.


Photo by Jeremy Bishop on Unsplash


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