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v5a17| O que esperar da ciência enquanto esperamos o amanhã

Atualizado: Jul 30

Por Guilherme José da Silva e Sá é professor do Departamento de Antropologia da UNB e coordenador do Laboratório de Antropologia da Ciência e da Técnica (LACT). Rafael Antunes Almeida é professor do Instituto de Humanidades da UNILAB e coordenador do Programa Associado de Pós-Graduação em Antropologia UFC-UNILAB.


Colagem de Ece Yanık, disponível aqui.

Talvez não haja pior momento do que a emergência de uma pandemia causada por um agente com alto poder de infecção para se estar preso a um negacionista. Ou ainda, talvez só tenhamos feito a passagem da epidemia à pandemia em razão da obstinação dos negacionistas.

De todo modo, está instalado o terror e o temor do contágio pelo vírus e, junto com eles, como bem colocou Robert K. Merton, “[o]s contágios locais de antiintelectualismo ameaçam [também] tornar-se epidêmicos”. (1968,p.652). Quiçá já tenham se tornado, é o que afirma Slavoj Žižek em recente ensaio1.

No campo das tentativas de resposta ao vírus e a outras questões pertinentes ao nosso tempo (como é o caso das mudanças climáticas), pelo menos dois setores se distinguem em uma paleta mais ampla de posições: uma parcela menor da população brasileira questiona o valor do conhecimento e da produção científica. Embora nem sempre de modo manifesto, ela o faz insinuando a possível politização da ciência e das universidades ou atacando as suas exigências relativas aos protocolos experimentais e de segurança em relação ao uso de medicamentos. O idioma no qual a negação costuma ser formulada é aquele da experiência direta (do tratamento para a doença, do experimento passível de ser feito em casa e de provar que a Terra não é redonda, das histórias sobre a alteração do comportamento dos filhos depois que tomaram vacinas, em suma, na razão de um testemunho). Essa parcela da população ativa esses discursos mas, ao mesmo tempo, não está disposta a se autoclassificar como anticientífica.

Outra parte, por sua vez, nutre um sentimento quase messiânico em relação aos cientistas.

A lei dos corpos em queda, proposta por Galileu, posteriormente seguida por Newton, e recentemente reproduzida em um belíssimo experimento2 nos fornece uma boa imagem para o argumento que pretendemos desenvolver: imagine uma pluma e uma melancia em um recinto à vácuo; imagine-as em queda livre de uma mesma altura; atingem o solo ao mesmo tempo graças à ação idêntica da gravidade sobre ambos os corpos (devidamente isolados da variável atrito/resistência ao ar). Derivam, contudo, consequências diferentes: enquanto a pluma aterrissa intacta, a melancia, provavelmente se esfacelará no chão. A comparação é pitoresca mas nos ajuda a pensar que em tempos de vazio de crítica social qualificada e de contrabando dos recursos críticos mais costumeiros das ciências sociais para terraplanistas, coletivos antivacina e obstinados defensores dos poderes mágicos da cloroquina (Ver. Latour (2004) e Fassin (2017)), tanto as mais bizarras hipóteses negacionistas, quanto a mais valorosa prática científica tendem a ser socialmente niveladas.

Entretanto, as consequências deste nivelamento tendem a ser bem mais desastrosas para a ciência. E, por consequência, para todos nós. Suspeitamos que este vácuo que tanto se teme - hoje ocupado por políticos, conselheiros de Estado, ministros e seus seguidores digitais - está associado à lacuna deixada pelo abandono de um elemento fundamental para a epistemologia científica, a saber, a artefactualidade da ciência.

Com isso, aquele elo que permite a conexão entre as práticas científicas e a vida em sociedade precisa ser continuamente renovado. Sem ele, esvazia-se de plausibilidade o exercício dos cientistas e a percepção pública da ciência encontrar-se-á fatalmente comprometida. Conforme comenta Latour, “os fatos continuam robustos apenas se são mantidos por uma cultura comum, por instituições nas quais possamos confiar, por uma vida pública mais ou menos decente e por uma mídia mais ou menos confiável” (Latour, 2019, p.40-41). O pleito aqui, portanto, não é por uma confiança cega e ingênua nos cientistas, mas por certa autoconsciência de que a ciência seja um dos empreendimentos coletivos com maior capacidade para formar outros modos de habitar a Terra. É claro que - e não sejamos ingênuos - essa mesma ciência, conforme já indicaram o ex-funcionário da NSA, Edward Snowden, e o filósofo italiano, Giorgio Agamben, sairá transformada - em especial aquelas áreas ligadas à mineração de dados e à vigilância digital, às quais diferentes governos têm recorrido para rastrear as trajetórias de corpos possivelmente infectados.

Pode-se argumentar que esse interesse pelo que estamos chamando de “artefactualidade da ciência” consiste em toda a contribuição dos estudos CTS em mapear de diversas formas a prática e a produção da ciência. Em certo sentido, essas pesquisas ambicionaram descrever o tecido que conectava Ciência e Sociedade (outras, como foram aquelas propaladas pela ANT, teceram os fios sem reconhecer os dois pólos) e podem nos ajudar a vislumbrar caminhos no mundo adaptado ao vírus. Trilhas que nos levem a pensar que tipo de “interesses” desejamos ver instruindo cientistas e os outros habitantes de suas redes.

Diante de todo esse investimento, nos surpreende que surjam argumentos engajados numa verdadeira cruzada retrógrada contra os estudos que se voltaram às dimensões de produção social das ciências e das tecnologias, negando o conhecimento gerado a partir de diversas pesquisas realizadas no campo nas últimas décadas e reputando às correntes relativistas e construtivistas a responsabilidade pelo clima geral de antiintelectualismo. Apoiando-se em valores tecnocráticos, essas críticas denunciam a promiscuidade das relações entre ciência e política, ressuscitando o antigo projeto moderno de pureza que pretendia ser capaz de pacificar um mundo atormentado por legiões exóticas de “crentes”, “videntes” e “sensitivos”.

As críticas dos defensores de uma visão de ciência desenraizada, têm como efeito colateral alijar a produção científica de sua base de sustentação social e política. Tais ataques aos Estudos Sociais da Ciência ignoram as análises mais profícuas que as ciências humanas produziram sobre os elos entre ciência e vida. Para os que advogam pela dissociação entre técnica e política, não resta dúvidas de que contagiam a sociedade com outro tipo de crença. A de que a ciência sem corpo, sem história e sem interesse, nos livrará do mal, já que o mal em si seria o que atrai e vincula o conhecimento ao mundo. Pelo contrário, essa ciência antissocial e onipotente se afasta do compromisso de se recompor a partir de sua experiência no mundo.

Ao defendermos uma ciência engajada na política não capitulamos ao paradigma utilitarista, aquele que prevê que o conhecimento científico só vale se os seus produtos puderem ser convertidos em artefatos comercializáveis. O pleito aqui é pelo reconhecimento de que toda prática científica é política e está repleta de interesses, tornando-a uma ciência legitimamente incorporada. A sua constituição, portanto, deve refletir o investimento na construção dos mundos que queremos. Só é possível pensar em uma boa ciência aliada à boa política. De modo que esse compromisso com o mundo almejado determine não só a velocidade, mas a qualidade da resposta da ciência às perguntas que a ela direcionamos.

A solução para a crise não deve ser retomar o antigo modo de produção irrefletido, inclusive na ciência, nem mesmo as formas de apropriação desigual do mundo, que são diretamente relacionadas à dispersão e a letalidade discricionária do vírus. Ainda que especular sobre o futuro seja o cadafalso dos cientistas sociais, cabe a nós pensarmos a partir das ciências sociais que tipo de resposta daremos ao sentimento crescente de (des)pertencimento de mundo; quais os interesses associaremos à pesquisa científica e tecnológica; que tipo de política – se mais ou menos inclusiva - norteará a técnica, e quanto de amparo coletivo terão as novas narrativas científicas que serão produzidas amanhã. Por ora, se aos cientistas sociais não nos é facultada a possibilidade de sermos mais assertivos em relação ao futuro sem incorrermos em proselitismos, é nosso dever manter a esperança na construção de alternativas viáveis de existência.


Referências:

AGAMBEN, G. Entrevista: “Normalizing the state of exception under the #Covid-19 #epidemic”. Disponível em: https://enoughisenough14.org/2020/03/28/giorgio-agamben-normalizing-the-state-of-exception-under-the-covid-19-epidemic/ LATOUR, B. Why has critique run out of steam? From matters of fact to matters of concern. Critical inquiry, v. 30, n. 2, p. 225-248, 2004. ____________. Dónde aterrizar. Madrid: Taurus, 2019. MERTON, R. K. Science and democratic social structure. In: Social theory and social structure, p. 604-615, 1968. FASSIN, D. The endurance of critique. Anthropological Theory, v. 17, n. 1, p. 4-29, 2017. ŽIŽEK, S. Bem vindo ao deserto do viral. Coronavírus e a reinvenção do comunismo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2020/03/12/zizek-bem-vindo-ao-deserto-do-viral-coronavirus-e-a-reinvencao-do-comunismo/

Notas:


1 https://blogdaboitempo.com.br/2020/03/12/zizek-bem-vindo-ao-deserto-do-viral-coronavirus-e-a-reinvencao-do-comunismo/

2 https://www.youtube.com/watch?v=yHq3ieQVw0s



Texto originalmente publicado aqui, parte da série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais.


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