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v4a7| O que nos dizem os muros do mundo? Expressões artísticas urbanas em tempos de Covid-19

Atualizado: Jul 30

Por José Luís Abalos Júnior. Doutorando em Antropologia Social na UFRGS

Leonardo Palhano Cabreira. Mestrando em Antropologia Social na UFRGS


Cidades são pintadas todos os dias por pequenos gestos. Evidências de vida onde ela se arrisca para estar. Se a escrita nas paredes sempre teve por característica uma presença visual na cidade em tempos de crise, o momento atual que o mundo atravessa parece ser uma invocação aos muros. Esse convite à intervenção em uma cidade possivelmente vazia parece vir com um sentido em mão dupla. Por um lado, grafiteiros, pixadores e pessoas que investem tempo e criatividade em intervenções também humanas, logo não estão alheios aos males físicos causados pela pandemia do Covid-19. Por outro, talvez uma nova geração de praticantes da chamada street art nunca assistiu a um cenário político/urbano tão convidativo à intervenção como este.


Mas até que ponto a metrópole, marcada pelo medo da infecção, se apresenta como um desafio a quem intervém artisticamente na cidade? Segundo o grafiteiro porto-alegrense Athos Ribeiro (@Athoszilla), no mundo do graffiti “há que respeite a quarentena e há quem saia à rua para pintar mesmo assim”. Foi de Athos um dos primeiros exemplos de intervenção artística urbana com referência ao novo corona vírus que vimos nas ruas de Porto Alegre.


O grafiteiro AthosZila incluiu elementos ligados ao Corona Virus na sua arte em Porto Alegre/RS.


O risco, que é constituinte da prática de quem intervém na cidade, através das ações de criminalização do Estado e da iniciativa privada, se vê duplicado englobando uma nova dimensão ligada à saúde coletiva. Rikardo Dias (@Rikardone), outro grafiteiro da capital gaúcha, em conversa por whatsapp, nos indica precauções singulares ligadas ao contexto atual: “O fato de pintar na rua por pintar limitou bastante, não dá pra sair pra rua, então quem pinta na rua vai pintar menos. Dá para pintar, mas acho interessante em locais que não tenham muita circulação de gente… evitar locais de grande aglomeração”. Neste sentido, a internalização de uma lógica de autocuidado também afeta um campo cultural heterogêneo marcado pelas dinâmicas do arriscar-se.


Já para Marcus Gorga e Celo Pax, artistas que marcam as ruas da cidade com personagens próprios, a quarentena tem sido um momento propício para estudos na busca de um trabalho autoral mais desenvolvido. A midiatização das obras e o que o sociólogo português Ricardo Campos chama de “Pixelização dos Muros” (2012), fenômeno presente em tempos “normais”, parece estar mais em voga em meio a uma pandemia. O compartilhamento de trabalhos através de plataformas digitais, a superprodução de lives e outras questões ligadas ao acesso e ao sucesso de artistas urbanos na internet aparecem significativamente nesse contexto.

O “Mostra tua Arte” (@mostratuaarte) é um exemplo de projeto criativo relacionado às intervenções urbanas hoje. Realizado na cidade de Belém do Pará, uma das capitais mais afetadas pela Covid-19 no Brasil, a proposta visa transformar a fachada de grandes prédios localizados em áreas de impacto visual na cidade. Segundo Kauê Lima, idealizador do projeto, a ideia passa por uma humanização da cidade, sem colocar em risco os artistas, e ser um espaço de divulgação de obras.

As repercussões do projeto passam pelo impacto urbano e na carreira dos artistas. Como nos conta o Kauê, há uma flexibilidade na escolha das artes projetadas: “Eu exponho todo tipo de arte que recebo. Seja grafites, colagens, pinturas, fotografias e agora vou testar alguns poemas. Os grafiteiros e grafiteiras têm participado bastante. Ficam maravilhados de verem a arte deles em grande escala”.


Obra da artista urbana Thay Petit (@thaypetit) exposta no projeto Mostra tua Arte em Belém do Pará/Brasil.


Ao redor do mundo, muitas ações ligadas às intervenções artísticas urbanas vêm sendo divulgadas nas mais diversas esferas das redes sociais. Mais recentemente, uma nova obra do artista de rua inglês Banksy, na qual retrata uma criança brincando com uma boneca vestida de enfermeira e capa de super herói, viralizou na internet. O artista brasileiro Kobra também produziu um novo mural, denominado “coexistence”, em que mostra crianças usando máscaras faciais com símbolos budistas, cristãos e judaicos, em Itu, a aproximadamente 100 km de São Paulo, no Brasil.


Estas e outras imagens podem ser encontradas num breve vídeo que produzimos, obra no qual buscamos apresentar imagens à questão: “O que nos dizem muros do mundo?”. Em diversos países os muros vêm sendo pintados, obras de arte vêm sendo projetadas, e muitos cartazes, stencil, pixações e tags, com referência ao momento de pandemia, começam a fazer parte da estética urbana de cidades pouco habitadas pela necessidade do isolamento social. Com um gradual retorno às atividades, essas expressões “aparecem” no cotidiano urbano demonstrando a presença de vida e a sensibilidade que só arte nos traz.



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