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O que vem depois do amanhã: notas sobre a agonia de uma sociedade pós-pandêmica

Por Emanuel Messias Aguiar de Castro. Mestre e Doutorando em Psicologia pela UFC.


O mundo que conhecemos não será mais o mesmo. A “sociedade que vem”, como diria Giorgio Aganbem é uma sociedade pós-pandêmica. O que é esse sociedade? Como ela será ? O embate sobre o futuro ficou nas mão de uma impasse entre uns dos dois maiores filósofos contemporâneos: Slavoj Zizek e Byung-Chul Han. Mas, antes deles é preciso lembrar que a sociedade contemporânea não acontece agora, ela é sempre descolada do presente em sua relação de temporalidade. O contemporâneo é sempre um espaço virtual do amanhã que quando passa atual se torna o presente. É pelo menos assim que Agamben o vê e com ele concordo. Então já somos desde agora contemporâneos de uma sociedade pós-pandêmica por mais que ela não seja o nosso presente. Ela é a virtualidade de várias intuições. Aqui destacamos duas delas e, por ventura, uma terceira que é a minha. Aqui uma ousadia em oferecer uma solução decolonial para esse impasse fundamentalmente etnocêntrico entre esses dois autores.

O otimismo realista de Slavoj Zizek Em texto publicado na obra “Sopa Wuhan”, Zizek nos fala de um golpe estilo Kill Bill no coração do capitalismo. Para ele, o capitalismo se aproxima de seu limite. O vírus só acentua uma agonia que já se arrasta por décadas. A Economia Política capitalista, nesta sociedade pandêmica, apresenta suas limitações infra estruturais e super estruturais. Em todo mundo falta insumos, falta espaço para internações, faltam profissionais de saúde de diversos setores etc. Mesmo nos mais organizados sistemas de saúde, a realidade é periclitante. A pandemia ameaça a Economia Política do Capitalismo, pois, para Zizek, este sobrevive de alimentar-se da mais-valia. Se não há mais-valia para alimentar o sistema capitalista seus limites esta colocado. É preciso lembrar que Freud nos aponta três fontes originárias para o mal-estar na civilização: 1) O corpo que adoece e envelhece; 2) a sensação de inadequação aos anseios da sociedade e 3) A natureza que é mais forte e poderosa que toda a produção técnica humana. Eis o ponto em que a europeidade de Zizek o impede de ver. É preciso pensar no capitalismo a partir de uma geoeconomia e de uma geopolítica, desta maneira, é preciso pensar no capitalismo de maneira geofilosófica. Assim as condições de produção e reprodução do capitalismo até podem ter a mesma estrutura axiomática geral definida pelo marxismo, todavia a tensão entre o global e o local (glocalidade) transforma as condições dessa reprodução intimamente ligada ao território onde ela se estabelece. Se é certo que Deleueze e Guattari nos lembram que o capitalismo age desterritorializando é preciso lembrar que as resistências a esses processo são múltiplas, feitas por literaturas menores, políticas menores, economias menores, pois cada território é único e resiste a sua maneira. Assim, pensamos que o mal-estar gerado pelo COVID-19 é um desses fenômenos glocais, pois o vírus é a globalização em sua forma mais nua,todavia os modos que operam as resistências, cuidados e terapêuticas esbarram nos territórios e nas localidades que se organizam ou não frente ao vírus. O vírus não aponta o fim do capitalismo se este for entendido como a exploração vertical de uma classe sobre outra, pois a mais-valia parece encontrar outras formas de existir. Assim a deliverizão da vida, uberização da vida, financeirização da vida, ou qualquer outra adjetivação que possamos usar para a tal da economia compartilhada produz, nessa pandemia, uma nova forma de vida cada vez mais digitalizada. A palavra da vez, durante o confinamento daqueles que podem confinar-se é: inovação. Enquanto o isolamento social afastam as pessoas das ruas, os entregadores de deliveres se tornam uma das principais forças de trabalho dessa sociedade aqui chamada de pandêmica. O capitalismo continuará a existir na sociedade pós-pandêmica o que mudará é a racionalidade que opera sua forma de vida, ou seja, a maneira como produzimos, distribuímos e consumimos. Em outros termos: o trabalho, a linguagem e o desejo. O mundo do amanhã é, como chama Fraco Berardi, uma futurabilidade, ou seja, é apenas potencial de algo que ainda está por vir. Como nos lembra Seyla Benhabibi qualquer teoria crítica é antes de tudo um análise da imanência e o plano da imanência do futuro é pura futurabilidade. É apenas potencia de ser e de não ser. O futuro está em disputa, mas pouco provável essa disputa nos levará ao fim do capitalismo. Já o fim da forma de vida neoliberal não é tão improvável assim. Este individualismo do homem-empresa, da competitividade é onde está o ponto-fraco dessa forma de vida. Se o golpe ao estilo Kill Bill, do que nos fala Zizek, atingir o individualismo ontológico do neoliberalismo ai podemos ver a esperança não do fim do capitalismo, mas certamente da necessidade de pensar uma outra forma de vida. Uma outra forma de relação entre os sujeitos. Se a sociedade pós-pandêmica redimirá ou acentuará esse individualismo em direção a digitalização, deliverização, uberização da vida, somente o tempo e ação política poderá dizer. O que Zizek crava com seu otimismo que aqui chamamos de realista, pois não podemos afirmar categoricamente sua surrealidade é que de alguma medida o futuro está em disputa e como dizia o velho lema dos movimentos de 68: “sejamos realistas, arrisquemos o impossível”.

O pessimismo realista de Byung-Chul Han Diametralmente oposto ao iugoslavo Slovoj Zizek, encontra-se o sul coreano Byung-Chul Hah. Para ele o vírus apenas acentua o individualismo neoliberal. A solidariedade criada pelo vírus não é orgânica, mas mecânica e pontual. Trata-se de um agenciamento que entende a necessidade de uma reestruturação da forma de vida neoliberal, mas de maneira externa. Queremos dizer com isso que se trata do surgimento de novos agenciamentos e dispositivos de controle que operam na sociedade pandêmica e que, ao mesmo tempo, são o embrião dos “controlatos” que marcaram a sociedade pós-pandêmica. A uberização nesse sentido é talvez o forte exemplo a que Han se refere. Para ele o homem-empresa explora-se e confunde isso com sucesso. Assim, a que se pensar que nesses tempos de isolamento social os serviços de economia compartilhada “deliverizaram” tudo: comidas, remédios, roupas etc. Não é preciso mais sair de casa para nada. Tudo está ao alcance do Smart Phone para quem tem esse aparelho e pode usá-lo. O futuro projetado por Han é marcado pelo horror de um neoliberalismo mais potente que usará cada vez mais a força de trabalho de um ponto de vista “psicopolítico”, ou seja, não só o corpo biopolítico do trabalhador estará em disputa, mas sua alma (psiquê). Apesar de não usar essas palavras, Han parece nos falar de uma figura da subjetividade que é o “uberizado”. Aqui fazemos um acréscimo as figuras da subjetividade propostas por Antonio Negri e Michael Hardt que são: o representado, o securitizado, o endividado e o midiatizado. Podemos falar agora no “uberizado”? Acreditamos que sim. Parece ser esse o novíssimo neoliberalismo psicopolítico que Han enxergar na sociedade pós-pandêmica. Para ele o sonho de Benthan se concretizará, mas não só como cada um vigilante de si mesmo, e sim como cada um patrão de si mesmo. Contudo nos lembra Maurizzio Lazzarato que o homem-empresa psicopolítico se resume a uma multidão de desempregados gerenciando sua precarização, baixos salários e muitas dividas. Eis o ponto em que Han aparece passar de um pessimismo a um otimismo quando propõe que a revolução não virá de um vírus, mas de nós seres dotados de Razão. Desde a “Dialética do Esclarecimento” de Theodor Adorno e Max Horkheimer, devemos ser reticentes com a Razão. O etnocentrismo de Han se apresenta em seu neoiluminismo. O vírus, a pandemia, o neoliberalismo e a própria Razão não são homogêneas, mas multiplicidades de acontecimentos, dispositivos e agenciamentos geolocalizados cuja Europa sequer fora epicentro. O mudo que vem precisa ser reconstruído, como nos lembra o conceito de futurabilidade, contudo não será a razão neoiluminista que a ciência contra- corona evoca. Ela cumpre um importante papel, mas nas comunidades, alheias aos experimentos laboratoriais a vida, principalmente no dito terceiro mundo, a vida resiste de outra forma. De uma forma muito mais odierna e muito mais cotidiana. O próprio isolamento na qual os iluminados pelo esclarecimento encontram como única terapêutica viável até a escrita desse texto, sofre resistências. É preciso dizer que isso não é uma análise moral, mas que as adjetivações políticas como a biopolítica, psicopolítica, ou mesmo a necropolítica, atuam de maneira glocal. As favelas e comunidades de Fortaleza no Ceará não responde da mesma maneira ao controle biopolítico que os guetos de Paris ou que os campos de refugiados da Turquia. Não seremos nós seres dotados de razão os artífices da revolução. Seremos nós seres comuns tais artífices se e quando está revolução vier. Pode ser ou não a sociedade pós-pandêmica o berço desse novo mundo. Mas, isso somente a história dirá.

O Comum e o mundo ameríndio. Pierre Dardot e Christian Lava, hoje, talvez, no norte do mundo, sejam aqueles que melhor enxerguem ou traduzam em palavras do que está em jogo. O Comum como alternativa tanto ao Capitalismo quanto ao Comunismo. Mas, uma alternativa que ainda mantém as medidas de uma radical separação política entre natureza e cultura. É Bruno Latour que nos fala de uma antropologia simétrica onde natureza e cultura não tem distinção. Mas, é preciso ir mais longe que Latour. Assim faz Eduardo Viveiros de Castro ao propor a existência de um “multinaturalismo, perspectivista, animista e ameríndio”. O estudo das formas de vida ameríndias nos mostram novas formas de pensar o mudo que não a racionalidade do esclarecimento ou mesmo a crítica a ela. Para Viveiros de Castros o perspecetivismo ameríndio reposiciona o sujeito, o extraindo da linguagem o colocando como “ponto de vista”. A condição de sujeito não é a sujeição, mas o “ponto de vista”. Essa leitura é radical em Davi Kopenawa. Para o xamã yanomami os brancos acham que a floresta morreu. Mas para o xamã ela é um sujeito à medida que tem um ponto de vista. Ailton Krenak nos lembra que somos pior que o vírus. O vírus nada mais é que a mãe natureza ensinando seu filho não porque o odeia, mas porque quer mostrar que essa forma de vida e esse modo de viver se tornaram insustentáveis. O que temos de comum para além da grande arqueogenealogia de Dardot e laval sobre o conceito de Comum? Temos a natureza. Não é a natureza que esta contida na cultura ou o contrário. As duas são parte da mesma simetria na cosmologia ameríndia. Assim não é separação entre sujeito e natureza, posto que a natureza também é sujeito. Como afirma categoricamente Kopenawa: também esta viva. O futuro depende da mudança de ideias sobre indivíduos, sujeitos, comunidade e comum. A sociedade pós-pandêmica é uma significante vazio da política como diria Ernesto Laclau. É um espaço de disputa. Um novo individualismo mais psicoplítico e mais digital como pensa Byung-Chul Han? Um novo comunismo não stalinista como sonha Slavoj Zizek? Ou entender que não somos um corte epistemológico em relação a natureza como sonham os kantianos e os hegelianos. Somos continuidade habitamos a natureza e ela nos habita. Isso não significa abandonar a totalidade das ideias europeias, pois lembremos as ecologias de Felix Guatari: o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade. Guattari a sua maneira traduziu para o “europês” o que os povos ameríndios experienciam cotidianamente. A diferença que sonha Deleuze, entendia por diferença em si e não por oposição a identidade. O que temos em comum? Todos temos ponto de vista diferentes. O vírus tem um ponto de vista como lembra Krenak. O líder indígena indaga “tomara que não voltemos a normalidade”. A forma de vida neoliberal é uma normalidade patológica. Se alimenta de uma dinâmica de fluxos de falta e de fluxos de excesso. De imbecilizar os sujeitos e transforma-los em consumidor. Nada mais imbecil do que o consumidor nos lembra Krenak. Por fim, é preciso ter em vista uma mudança radical de racionalidade. Talvez essa venha da proposição da filósofa estadunidense Wendy Brown. O neoliberalismo não é a racionalidade do capitalismo, mas a racionalidade do homem branco. Por isso, seu oposto diametral não é o Comum que vem do homem branco. Mas, o comum das outras cosmologias cuja ameríndia apontamos aqui devido sua leitura de que o sujeito é o ponto de vista e não aquela que se sujeita, seja pela violência ou pelo convencimento, ao mercado. O vírus é uma lição de que “o amanhã não está à venda” com afirma Krenak. Se iremos ou não aprender essa lição comum somente à futurabilidade dirá.




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