• antropoLÓGICAS

Os heróis viraram mártires

Por Ivete Iara Gois de Moraes. Enfermeira -UPF, Acad. Psicologia -FAMAQUI, Especialista: Emergência -São Camilo, em Direitos Humanos -FURG e, em Informação Científica e Tecnologia em Saúde -GHC. Contato: iaragois2017@gmail.com

Photo byPiron GuillaumeonUnsplash


Jalecos em mãos, estetoscópios misturados com vidas cruas, nuas de si mesmas e solitárias em meio a uma Pandemia que cresce, se multiplica. Mortes. Sobrevivência. Viver ou sobreviver. Hospital e emergência, uma mistura que ficou evidente. Casa e Família, uma combinação que se tornou distante: a fonte de contaminação é laboral, a opção é se isolar! O medo virou pânico geral, é um caminho sem volta e, breve. Na televisão mortos jogados ao chão, enterrados em valas comuns, territórios de uma guerra quase perdida. Nas macas, corpos infectados, lado a lado. No vestiário, hostilização e preconceito: o vírus é comunitário, geral, não fica parado em um único setor (acorda!). Uma última prece, uma mão para sentir o calor humano, antes das luvas e aventais: não será possível ter contato com ninguém mais (até a melhora ou a morte encarcerada). Salve-se! No início, protocolos perdidos, depois cuidados alinhados. Pesquisas infindáveis, nenhuma cura ainda é capaz de salvar vidas. Tudo começou do outro lado do mundo, o vírus veio pelo espaço aéreo, de primeira classe, mas no caminho encontrou todas as classes sociais. Questão de idade, de corpo atlético?! Não mais! Não há como fugir, pra se salvar, só há a possibilidade de ficar. Parado. Como ficar no mesmo lugar se a enxurrada de informações inquieta, angustia, desespera?! Desligue a televisão, pegue o livro. Pensar em sair, virou um ritual, morrer virou uma perda de simbolismos e, agora também contamina (miasmas). A maioria, infelizmente não soube se manter em suas casas, grande parte se contaminou. Em meio à multidão, um grupo é sensível: ninguém mais estará seguro amanhã (se sobreviver).Na rua: Futebol na esquina, ninguém está seguro em seus carros. A arma é viral. Desemprego, crise econômica, e se sair pra trabalhar a morte pode te encontrar na próxima esquina. Se você estiver encarcerado na prisão: a contaminação será pior, não há como escapar. A vida nos asilos não será mais a mesma (Grupo de risco). Nenhum de nós é hoje o mesmo de uma semana atrás, não seremos amanhã. Nunca mais seremos os mesmos após nosso encontro forçado com o Coronavírus. Alguém que você, que eu conheço, vai morrer. É uma morte não anunciada em questão de tempo (infelizmente). Escolas fechadas. Muitos querendo voltar à normalidade (nunca mais haverá o “normal”, se é que um dia existiu). Exaustão, estamos aos limites entre a contaminação e o vírus, entre o cotidiano e, nossos dramas particulares. Antes, a família se encontrava por momentos, agora é obrigada a conviver entre paredes. Amor e ódio. Paciência e diferenças. Todos e tudo estão conectados. Maldita globalização! Sabemos o que acontece na Itália, no Equador, saberemos o que irá acontecer aqui. A perversidade do jogo político. Ser Humano é desumano. Brasil, país bárbaro, selvagem. Múltiplo, inconscientemente guiado, arbitrariamente partidário de suas causas perdidas. A vida é raRa: Mariele Franco se foi, ninguém abreviou a Justiça em seu nome. E, agora? Tantos corpos amontoados, um sistema de saúde que irá eclodir intensivamente em seus limites, sem fronteiras. no interior, empresas fechando portas pela contaminação e trabalhadores fechando a boca, de fome. Um sistema imobiliário anestesiado, moradores na rua, jogados a crise pandêmica (perderam-se casas, perdeu-se casamentos, filhos sem pais, pais sem filhos). Números estatísticos, cadastros de pessoas físicas apagados e memórias de pessoas que nunca mais serão o que imaginamos, porque viraram lápides. Máscaras que ninguém sabe utilizar em público, álcool gel superfaturado no país onde ter um “comer” virou privilégio de assalariados. Telenovelas deram lugar a noticiários (acreditar em quem?!. Escândalos e golpes visíveis e invisíveis no plenário, em plena Pandemia! Socorro?! Me levem ET’s, a vida na terra está complicada (já falava Elis Regina). SeR HumAno, HumaNizar o SeR. Alma, corpo, espírito. Lições do vírus: Tudo é transitório…ConViVer! VivEr! Estamos fadados a incógnita de encontrar um sentido nisso tudo. Até quando? A música faz extrapolar, alarmes de um respirador que segura uma respiração agônica (sem ar). Fotografias, cenas de UTI’s no horário nobre. Traumatizante! Aquele último plantão no Hospital. Lágrimas, desumanidade. Risos que ficaram pra trás. E, que venha a PsicoLogia, necessitamos estar saudáveis, necessitaremos de LuciDez, muito mais do que Cloroquina. Reza. Código 10, PCR (parada cardiorrespiratória), SPP (se parar parou), alguém aí saberá do que estou falando. Entre um café e uma glicose. Onde foram parar as doenças crônicas e seus doentes?! Encaminhamentos. Para onde foram?! Uma dipirona e tudo se resolve (mas era dor torácica). Médico, Enfermeira, Auxiliar ou Técnico de Enfermagem, Fisioterapeuta, Segurança, e todos mais do ambiente onde a vida e a morte dançam em meio a um salão laranja. Não somos, estamos. Tudo e todos substituíveis, transformados na nossa melhor ou pior versão. Girassóis sem sol. Um ruído e ele estava lá, deitado em seu carro, nenhuma manobra foi capaz de ressuscitar. Nenhum milagre. Nenhuma coisa a fazer. Ela segurou a mão do seu paciente, não havia nenhum familiar. E quem seguraria sua (minha) mão? Tantos corpos amontoados, vidas perdidas, um plantão ganho pra folgar depois, hora extra para gastar. Descansar. De quê, se tudo isso segue com a gente, dentro do peito, aderido na alma, escondido em olhares, perdido em palavras (des)orientadas, incrustrado no ide, no ego e sem que o superego perceba! Acolhimento, encaminhamento. Diagnóstico, tratamento. Não há equipamentos de proteção. Estresse geral e total, a chefia responsável lhe salvou! Eles estão ainda lá, mas agora, ela está aqui, a mercê do vírus, sem entender o porquê, mas com a certeza de que lhe salvou a existência (gratidão). No meio do caminho, ela parou, parou e chorou, nada mais havia a ser feito. Cheiro de esparadrapo no ar. Imunossupressão. Outros seriam os heróis hoje, ela, pegou seu jaleco branco de paz, juntou os restos de seu amor por tudo que fazia e saiu, rumo a outro dia. Outra hora. Outro plantão. Outra PsicoLogiA. Um dia de cada vez. Deixou a máscara do riso, uma lágrima lhe escorria pela face, enquanto tudo voltou a ser rotina. Continuou seu percurso, lá atrás ficou a pandemia nossa de cada dia. No futuro, só uma coisa seria certa: nunca mais seremos os mesmos de 2019 e, o ano de 2020 nunca mais será esquecido, virará história para contar após sua aposentadoria...

(Singela homenagem aos HeRóis e HeRoínAs da Saúde e, seus MárTireS que deram sua vida na Gerra contra a COVID-19 e, também aos que desistiram da batalha[1]).

[1] The Lancet Psychiatry: Suicide risk and prevention during the COVID-19 pandemic.Published online April 21, 2020 <https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2215-0366%2820%2930171-1> Acesso em 25 de Abril de 2020.

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