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v2a47| Os números não morrem, quem morre são as pessoas

Atualizado: Jul 29

Por Aluísio Ferreira de Lima. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará – UFC. E-mail: aluisiolima@hotmail.com


Photo byJames SuttononUnsplash


A morte em tempos de pandemia não tem nome, é um número nas estatísticas sobre o COVID-19. Mesmo quando estamos diante de imagens como as de pessoas com trajes especiais enterrando caixões em valas comuns no dia 10 de abril de 2020, na cidade de Nova York, não acessamos as pessoas que morreram por conta do coronavírus: em Hart Island as pessoas enterradas não tinham identidade; foram registradas com códigos numéricos. A operação foi registrada por um drone e tornou pública a existência de uma região usada há mais de 150 anos por autoridades para enterros de corpos cujas famílias abandonaram ou não tinham condições de arcar com os custos de um enterro.


A invisibilidade das pessoas dos caixões que estavam baixando nas imensas covas coletivas reproduzia a cena de destino dos judeus assassinados em Auschwitz, que também foram despossuídos de seus nomes para que, não sendo identificados, deixassem de existir, não pudessem ser chorados. As imagens dos caixões lacrados em Nova York, assim como todas as demais imagens de caixões lacrados durante essa pandemia, apenas servem como pano de fundo do grande quadro que apresenta as estatísticas de mortalidade do Sars-Cov-2. E não somos afetados ou sentimos dor pela morte desses números.


É certo que não é possível produzir uma imagem sobre a dor que possa nos afetar. É própria dor que produz uma imagem que nos afeta. A imagem da dor que nos atravessa ocupa um lugar muito singular nas diferentes formas de existência contemporâneas. Não por acaso, quando dizemos que a dor “é inimaginável” estamos lidando e tentando representar, pela limitação das palavras, a intensidade desmedida da dor que a morte do outro nos provoca, como se morresse algo em nós também.


Portanto, para que a dor se torne uma imagem para nossa sensibilidade e abra espaço para que ela faça parte de um processo de travessia, de ressignificações, de narrativas, de histórias é necessário que nos identifiquemos com ela, é importante que ela seja como um espelho.


Enquanto imagem em nós, a dor se torna algo pelo qual tudo é possível, tanto melhor como pior, que devemos atravessar de um ponto a outro. Concepção contrária à sensibilidade contemporânea, que entende dor e sofrimento como doença, erro, acidente ou crime. Algo a ser negado. Algo a ser corrigido. Algo a ser evitado. Algo que produz medo. De forma que o medo da dor facilita o processo de governo dos afetos a partir da administração “política” das imagens relacionadas a ela. Os trabalhos de Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Susan Sontag e Georges Didi-Huberman, para dizer alguns nomes de intelectuais que se debruçaram sobre essa questão, ensinam que o objeto de uma poética das imagens é, inevitavelmente, um trabalho de pedagogia.


As imagens de morte e violência, principalmente nas periferias pobres das cidades, por exemplo, fomentam o distanciamento afetivo que tornam as pessoas incapazes de assimilar e se identificar com os sofrimentos e dores daqueles que lhe são próximos. Tal como em situações de estado de exceção, em guerras, a reiteração dessas imagens, associadas aos números estatísticos produzidos para criar um monstro sem face e uma identidade da violência, servem ao neoliberalismo como forma de naturalização de uma política de extermínio de uma classe social abandonada. Ao mesmo tempo em que encobrem todas as desigualdades de oportunidades e a reprodução social da pobreza a qual são lançadas as pessoas cujas vidas dispensam identificação e são tratadas pior do que animais. O uso comum da frase “bandido bom é bandido morto!” pelos autoproclamados cidadãos de bem, exemplifica os efeitos dessas imagens na produção do cinismo, da apatia e da negação da dor do outro por aqueles que estão no mesmo barco da necropolítica e exploração neoliberal.


“A imagem tem sua força drenada pela maneira como é usada, pelos lugares onde é vista e pela frequência com que é vista”[i], escreveu Susan Sontag. Essa sentença não poderia ser mais certeira para analisarmos o modo como a imagem da morte tem sido utilizada durante a pandemia para negar a gravidade e a dor provocada pelas mortes apresentadas nas estatísticas[ii].


Tomemos como exemplo de análise o meme produzido a partir de um vídeo com africanos dançando ao som de uma música eletrônica enquanto carregam um caixão. O contexto em que o vídeo foi produzido em 2017, de acordo com o documentário da BBC[iii], foi de uma atividade tradicional em Gana, realizado por famílias que pagam os pallbearers para dançar durante os funerais, como forma de homenagem as pessoas que amaram em suas vidas. Entretanto, a descontextualização e apropriação do vídeo, sem qualquer intenção de compreender o que ele significa de fato, facilitou que o mesmo fosse utilizado como substituto do final outros vídeos que terminam de forma trágica.


Esses memes têm viralizado nas redes sociais durante a pandemia e passaram a ser imitados em diferentes espaços. Uma forma de paródia da vida na quarentena que aumenta tão vertiginosamente quanto as mortes representadas pelos números estatísticos. A negação da morte e da dor transbordando em todos os dispositivos com acesso a internet. Os memes, de certo modo, representam a “estética” da própria política que vivemos, conforme identificou Walter Benjamin. Não são somente tentativas de invisibilidade e captura de formas de existência, mas a administração dos afetos que definem qual o tipo de morte e o tipo de dor pela qual devemos chorar.


Os números não morrem, só as pessoas morrem. Entretanto, a imagem da dor pela morte dessas pessoas tem sido produzida de modo que não nos afete. Não nos afeta porque são ironizadas de forma cínica por quem não percebe que também está diante da morte ou estão esgotados demais para registrar o próprio sofrimento. É preciso, portanto, que produzamos outras imagens, que façamos existir tudo o que a negação da realidade tem impedido de acessar. Apresentar uma imagem capaz de explicitar que “para o neoliberalismo e para o Estado, a sua avó é tão descartável quanto um craqueiro”[iv]. Essa imagem certamente será uma ponte sensível, uma ancoragem entre o pensamento, o conhecimento e a ação política.

[i] Sontag, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 88.

[ii] Poderia discutir aqui o uso de imagens nas redes sociais para sustentar um “bem-estar” e felicidade diários como se não estivéssemos experienciando o pior e mais mortífero momento de nossa recente história, entretanto, deixarei para discutir essa forma de visibilidade que mascara o sofrimento em outro texto.

[iii] BBC. Ghana's dancing pallbearers. 27 de jul. de 2017. Acessado em 14.04.2020 em: https://www.youtube.com/watch?v=EroOICwfD3g

[iv] Clara Barzaghi. o inimigo não é o vírus. Disponível em: https://n-1edicoes.org/023 Acesso em: 16.04.2020.


Photo byCurtis MacNewtononUnsplash

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