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v3a44| Pandemia como doença e como saúde

Atualizado: Jul 30

Por Carlos Roger Sales da Ponte. Doutor em Filosofia pela UFC e Professor do Curso de Psicologia da UFC/Campus Sobral. Contato: jardimphilo@yahoo.com.br

Photo byFusion Medical AnimationonUnsplash


Em fins de abril (não recordo a data), escutava o programa “O é da coisa”, do jornalista Reinaldo Azevedo, na Band News FM. Em dado momento, comentando os efeitos do covid-19, ele diz o seguinte (cito de memória): “O que se pode aprender com o coronavírus? Nada! Vírus é para ser combatido. Não dita aprendizado algum. ‘E onde você aprende algo?’ Nos livros, na literatura, na poesia, conversando com as pessoas, nas trocas com outros jornalistas”, etc, etc.

Ruminando essa fala, a meu ver, o que o jornalista estava sustentando (ao contrário do senso comum de que as aprendizagens mais profundas e significativas são mediadas pelo cadinho do sofrimento) é que o saber acumulado pelas ciências e pela cultura nos eximiria de ter de reaprender o que seria o “óbvio”. Por outros termos, há muito saber aí disponível e recuperá-los não nos faria perder tempo “reinventando a roda”. Não é exagero, a título de simples exemplo, que no século XXI, espantosamente, estamos tendo que “ensinar” as pessoas como lavar as mãos...

Noutra compreensão, discordo do jornalista. Não falo do vírus (essa forma estranha de vida que sequer é feita de uma célula!), mas do ambiente humano que foi estranhado pela doença. Na cultura ocidental, nos últimos 120 anos mais ou menos, surgiu uma característica obstinada por controle: gestou-se uma gana desmedida de recorte, de entendimento, de explicação, de exame e vigilância e efetivo controle da vida humana contra o inesperado. O efeito foi anestésico: poderíamos ficar tranquilos, pois o mundo parece nítido e previsível.

A obsessiva vontade de querer dar conta e de impor medida é uma bruta desmedida! Um alto preço poderia ser cobrado por isso. E está sendo! Desestabilizando controles e previsões, adveio essa contingência histórica inesperada do covid-19 e com ele toda uma gama de experiências a nos confundir e nos fazendo oscilar entre uma atenção concentrada em autocuidados, e a dispersão desatenta do tédio, graças à necessidade do afastamento social. Essa situação pandêmica impactou direto no seio do mundo humano. E já que o vírus, em si, não tem a nos dizer, pergunto: uma vez que nossas formas usuais de lidar com o inesperado falharam, que modos de vida poderiam ser pensados, cultivados a partir dessa experiência? A pergunta “o que fazer?” se configura numa questão ética válida, pois, mais do que não morrer pela pandemia, ela trouxe à tona um como viver até então impensado.

Como estudioso de psicologia e de filosofia, já escutei e li da necessidade do humano deter-se mais consigo a fim de que possa lidar com seus modos de ser, às vezes opacos, misteriosos ou surpreendentes. E pela inumerável de literatura de “auto-ajuda”, “coaches”, terapias integrativas, tutoriais de influencers do YouTube ou do Instagram que instruem sobre relações humanas; além dos vários saberes técnico-científicos que estão à mão, poderíamos crer que o humano tiraria de letra a passagem por essa pandemia.

Todavia, o humano parece perdido e desconectado de si. Não tem se mostrado tão resiliente ou inteligente em autocuidados como era de supor. Na contramão da introspecção autoreveladora, vê-se um alheamento bastante evidente no crescimento exponencial de ansiedade, estresse, angústia; além de um renovado e fortalecido medo da morte e da solidão. Por que para alguns esse recolhimento forçado tem sido uma fonte de sofrimento e não de “reconexão” consigo? Arrisco uma resposta provisória: aquele excesso de busca por controle teria feito o ser humano mergulhar numa espécie de auto esquecimento por não saber aproximar-se desta experiência de sofrimento (pandemia). Trata-a como se não tivesse nada a ver com ele. Não sejamos ingênuos, esse mecanismo de negação é uma força reativa imensa que tende a fechar o sujeito no imobilismo. Todavia, o mal-estar permanece latejando e solicitando sentidos novos.

Colhi minhas palavras em impressões no trânsito diário pelo Instagram: a publicização do distanciamento social e das inúmeras “respostas” de profissionais da saúde (sobretudo, psicólogos) na forma de “estratégias de enfrentamento”. Me pergunto: enfrentar para que fim? Derrotar a pandemia se resumiria a podermos voltar à vida “como era antes”? E esse saudosismo contribui para esse gosto amargo na boca a impedir que prestemos atenção a todo sentimento que nos invade, decorrente da pandemia e confinamento.

Como estamos longe de uma saída definitiva do isolamento, convivendo conosco mesmo, por que não explorar as sendas desse estado adoecido e escutar nossos afetos bagunçados por este evento? Estas pulsões não estão caladas: falta-lhes a abertura dada pelo ser humano para que venham na sua ciranda caudalosa; mas não caótica. O caos dos afetos é a mudez com rosto raivoso e angustiado porquanto os amordaçamos nos pequenos, e infelizmente, necessários afazeres práticos e cotidianos, decaindo num hiperconsumismo que nos rouba tempo para si, sobrando a mísera anestesia do ócio cansado dos fins de semana. Perdemos demasiadamente a compreensão do que é viver sob modos que sejam saudáveis, diferenciando do que é adoecedor. Sob o impacto da fragilidade da vida em dor, sofrimento e morte, o que fazer?

Trazendo Friedrich Nietzsche como parceiro dialogal, sugiro outra perspectiva nesse estado de exceção pandêmico. Quando falo de “saúde” ou “doença” falo de perscrutar, em meio à pandemia, as condições culturais que podem favorecer modos de viver “saudáveis”, e aqueles que colaboram para seu adoecimento. Por outros termos: o estado geral “doente” é a monotonia da “mesmice” que reduz as possibilidades de surgimento de sujeitos singulares e autênticos. Quando a vida se multiplica em diferentes direções e polifonias, aí temos o estado geral “sadio”. Nietzsche não faz concessões: há que mergulhar, contra a negação, com fôlego e risco, arrancando-se do recolhimento apequenado no próprio umbigo para poder se fortalecer, uma vez que o embate é com o mundo da vida que, por si só, já é luta.

Só que agora essa peleja ficou mais evidente e focada, porque o filósofo pergunta que tipo de pensamento emergiria numa situação de doença. Por que não se experimentar nessa situação e deixar que a pandemia dê tarefas aos sentimentos e ao pensamento, saboreando a própria força ou fraqueza, tateando ao máximo os sentimentos e pensamentos do jeito que vão surgindo, escutando-os sem pré-julgamentos?

É a sugestão de Nietzsche no aforismo 289 de Humano, demasiado Humano, intitulado “O valor da doença”. Escreve ele: “O homem que jaz doente na cama talvez perceba que em geral está doente do seu ofício, de seus negócios ou de sua sociedade, e que por causa dessas coisas perdeu a capacidade de reflexão sobre si mesmo: ele obtém esta sabedoria a partir do ócio a que sua doença o obriga”. E se trocarmos “doença” por “confinamento” ou “distanciamento social”? As provocações nietzscheanas não se alteram mesmo mudança de termos. Ele pede que não nos acovardemos perante esse sofrer.

Nietzsche aponta para a sutileza do pensamento nutrido pela doença em vez da “saúde”. O estado de doença em que nos encontramos nos leva a uma perseguição obsessiva “pelo que era antes”: o saudosismo “do que foi” é continuamente presente, posto que arrancado pelo confinamento compulsório. Queremos um remédio para esse estado de coisas mórbido. A pandemia só causou uma suspensão na perversa roda viva de trabalho/consumismo/“tempo livre” que grita ao fim da semana: Sextou!

Reitero: a doença não ensina nada. Todavia, Nietzsche não concorda, de todo, com a tese, bem senso comum, de que a dor, por si, ensinaria algo. Se imaginarmos uma vida mais “saudável”, estou inclinado a concordar com o pensador alemão quando afirma no prefácio da Gaia Ciência, “duvido que tal dor ‘aperfeiçoe’ –, mas sei que nos aprofunda”.

Tal “profundeza” não é dada de antemão: é quando encaramos a vida, com suas contingências, como problema; é um olhar atento no revezamento entre doença/saúde tendo em vista a última: “da ótica do doente ver conceitos e valores mais sãos”, diz Nietzsche no Ecce Homo. Ele chama isso de “deslocar perspectivas”. E elas estariam se abrindo? Na encruzilhada histórica, no limiar dos valores que a situação pandêmica nos colocou (chance única neste século talvez), poderíamos cultivar novas maneiras de viver em vez de cruzar os braços na espera inútil de que a enfermidade seja uma “educadora” porque por ela o “universo está querendo dizer alguma coisa”... Não contaria com isso.

No seção 120 da Gaia Ciência, Nietzsche pergunta se “podemos prescindir da doença, até para o desenvolvimento de nossa virtude, e se a nossa avidez de conhecimento e autoconhecimento não necessitaria tanto da alma doente quanto da sadia”. Ora, essa pergunta, em si, já é “saudável” porque não quer uma saúde pela via negativa (ausência de doença), nem quer se esquivar da experiência da doença: de dentro dela pensar modos de vida saudáveis.

Falando assim parece até simples e soa um tanto idealista, uma vez que, deixada para trás essa pandemia que tem custado tantas vidas, a tendência é voltarmos ao familiar “remédio amargo” já acostumado. Isso não é ter um espírito sadio, mas subserviente, repetidor e negador de suas carências e mal-estar.

Não foi à toa que, conversando sobre isso com a Renata, minha namorada, ela se mostrou, e com razão, bastante descrente com alguma mudança ética na pós-pandemia: se o sujeito não se implica pra valer com alguma mudança na própria vida, de nada vale que uma convulsão social recaia sobre ele. Por que o ser humano tomaria a si mesmo como objeto de reflexão, tendo a vida como problema e valor maior? O mundo está doente faz tempo. Não é nenhuma novidade. Mas é desumano ver como isso não nos choca mais, diluídos numa economia de vida que nos consome; canibalizando uns e outros numa saciação momentânea porque nada mais satisfaz.

O desejo foi sequestrado para longe de um erotismo amoroso, e reduzido à exposição crua e pornográfica em repetitivas ilusões imagéticas e espalhafatosas das coisas “fake” (publicações insaciáveis por likes). O desejo, a psicanálise o atesta, é esse conjunto móvel das pulsões querendo tomar novas formas e novas significações para o mundo e a vida. Como movimento, ele pode quebrar as continuidades monótonas da vida. Nietzsche também percebeu esse fenômeno que solicita a vitalidade do ser humano como um todo, na caça de uma cultura que caminharia para longe de decisões necropolíticas de violência e morte sistemáticas, ou da insensatez e descaso com a vida dos outros exemplificado na política mundial (salvo exceções) de descaso dado à saúde pública, ou em agressões a enfermeiros num protesto pacífico numa demonstração de descaso com a vida e a absoluta carência de solidariedade.

Após a pandemia não estaremos “curados”, mas convalescentes: lentamente vamos lidar com a precariedade que o coronavírus nos jogou. E esse precário modo de vida convalescente pode se transformar em cultivo que molde o alheamento de si em sensibilidade e encontro com o outro. Voltaremos a respirar num mundo em que respiradores eram disputados. Emergiremos de um pesadelo e dor vividos em vigília. No porvir, espero que se descortine o trabalho do sonho e da aparência (não como utopia ingênua): o sonhar como tentativa de realizar os desejos, se estes forem colocados em jogo, em movimento; convocando o ser humano a se confrontar com a alteridade na forma de outras coletividades abertas. Esse é um modo de ser saudável.

É uma aposta no ser humano? Melhor do que funcionar “na base do ódio”, prefiro arriscar minhas fichas num eros que une artista e arte: o mundo pós-pandemia como abertura é a alma da experiência que diz Sim à vida mesmo quando esta encontra doente (ou convalescente) ou ferida de morte. Combater o que jaz inerte ou paralisado para criar novas formas de viver, dando sentido à existência é sinal de que a vida persiste e quer diferenciar-se. Por que repisar sempre o Não? Melhor apostar num Sim!


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