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v5a5| Pandemia de COVID-19 e “territórios da espera”

Atualizado: Jul 30


Pandemia de COVID-19 e “territórios da espera”: um convite a refletir sobre a espera no contexto de crise


Por Teresa de Jesus Peixoto. Doutora em Estudos Urbanos, Professora do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) e do Programa de Pós-graduação em Políticas Sociais (PPGPS) da UENF.

Diogo da Cruz Ferreira. Assistente Social. Doutor em Políticas Sociais (PPGPS/UENF).

A pandemia do novo Coronavírus (SARS-COV2) está presente em pelo menos 185 dos 193 países do mundo. Oito nações e mais algumas ilhas e territórios ainda não registraram nenhum caso da doença. Entre eles estão Coreia do Norte, Turcomenistão, Tajiquistão e ilhas como Nauru, Tuvalu, Palau e Micronésia. A Antártida (que está incluída no número total de países) é o único continente sem casos.

Desde que os primeiros casos de pessoas infectadas pelo novo Coronavírus, na cidade de Wuhan, na China, foram divulgados, em janeiro de 2020, o mundo globalizado ficou assustado e em alerta. Principalmente por causa da rapidez e facilidade com que o vírus é disseminado, pela forma agressiva como atinge o organismo humano e por sua letalidade, mesmo que baixa.


A cidade é o foco, sobretudo as cidades globais. Em março, constatada a pandemia, sob o comando e controle da Organização Mundial da Saúde (OMS), o mudo começou a adotar medidas preventivas para conter a disseminação do Coronavírus, evitar a infecção, o colapso, reduzir o número de mortos por COVID-19. Enquanto isso a ciência e a tecnologia pesquisam as soluções paliativas e finalmente definitivas. Posto que pelas previsões dos especialistas, a propagação do vírus é inevitável. Tão inevitável que ele já atingiu mortalmente diversos países.


A principal medida – o distanciamento social – nos orienta, quase nos obriga (alguns países adotaram a medida extrema do Lockdown), a ficarmos confinados em casa, em quarentena. Além do confinamento, temos que ser rigorosos com a higiene cuidadosa das mãos, do corpo, dos objetos, da casa e o uso de máscaras. Somente com a adoção dessas medidas, a pandemia vai passar o mais rápido possível. É o que se espera.

Nesse contexto de crise sanitária surge, em todo o mundo, a campanha #fique em casa. A moradia adquire, assim, centralidade e atenção pública. Muita vezes a moradia é vista apenas como o invólucro arquitetônico, o lugar do descanso e da vida doméstica; a moradia, para além dessas classificações, torna-se o palco em que os homens se voltam para o íntimo e se projetam para o espaço público (BREVIGLIERI, 2002). Assim, em nossa análise, o “fique em casa” tornou-se um espaço-tempo da dimensão da espera, a exemplo de outros casos que estudamos relacionados à espera por políticas públicas (FALCÃO & FARIA, 2016).


Após os dramáticos exemplos da Itália, Espanha, EUA, registrados os primeiros casos, o Brasil começou a se preparar para esperar a chegada do surto de Coronavírus. A população foi orientada a cumprir quarentena em casa, pois não haveria leitos, respiradouros, máscaras, álcool gel, água, suficientes para atender o grande número de infectados, no momento de pico da pandemia. Por sua vez, no Brasil, além destes fatores mencionados, temos a inércia e a recusa do governo federal em intensificar as medidas de proteção, ações que previnem, e apoiar governos estaduais no combate à pandemia de COVID-19. Até o fechamento deste texto já morreram mais de 49 mil pessoas no Brasil, vítimas fatais da COVID-19, e as manchetes anunciavam mais de 1 milhão de casos.

Ademais, esta nova crise sanitária mundial expôs antigos problemas: fragilidade ambiental, capitalismo selvagem, desigualdades socioespaciais, de acesso ao saneamento básico e à moradia digna, violência, falta de condições de mobilidade urbana, precariedade do sistema de saúde e, por fim, a luta de classes. Problemas para os quais se espera por solução há mais de um século. Isso, se considerarmos que os problemas urbanos que vivenciamos hoje têm sua origem com a revolução industrial (CHOAY, 2018).

A situação de espera pode criar um uso inesperado de certos espaços que vem a se superpor aos seus usos ordinários [1]. Neste caso, observamos que locais como hotéis, as nossas próprias moradias e mesmo hospitais foram adaptados ou criados como hospitais de campanha para a chegada do Coronavírus e a inevitável epidemia.

Uma população mundial se encontra sob um único comando (da OMS) e controle, compartilhando coletivamente, embora à distância, a mesma angústia, incertezas, repetindo os mesmos comportamento e gestos, com o mesmo objetivo. Esses espaços poderiam – e podem - ser pensados como territórios da espera?


Conforme definido em Vidal e Musset (2015), “os territórios da espera designam especificamente os espaços destinados voluntariamente ou servindo involuntariamente para colocar em espera populações deslocadas ou em deslocamento” (VIDAL e MUSSET, 2015, p. 11). Porém, os autores, ressaltam que “uma dimensão coletiva é necessária”. Além disso, compreendem que a espera deve ser apreciada a partir de suas múltiplas dimensões: sociais, econômicas, políticas, psíquicas, espaciais, para a conformação de um território da espera (VIDAL e MUSSET, 2015, p. 10). Sem dúvida, todas essas questões emergem e estão em jogo nas medidas de isolamento social.


Mesmo neste momento de pandemia, de risco de morte, o tempo da espera não é um tempo morto. Muitas coisas acontecem enquanto se está esperando: ações, interações (principalmente à distância), mobilizações. É o que temos observado nos protestos dos profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate a COVID-19 por melhores condições de trabalho, da população por falta de atendimento, por questões políticas, e mais recentemente o movimento “Vidas negras importam” espalhou-se pelo mundo ocupando as ruas interditadas à livre circulação.



Imagem “Sombra” (Getty Images/Stockphoto). In: geledes.org.br (acesso: 20.06.2/020)


O movimento faz parte da essência do ser humano. As vias – ruas, vielas, calçadas, pontes – foram construídas para atender essa necessidade. Roberto DaMatta esclarece que a casa e a rua estão em relação dinâmica e complexa: ao mesmo tempo estão em oposição e se complementam. Porém a casa representa “o lugar do repouso, da recuperação, da hospitalidade, (...) do calor humano e a rua o perigo” (DAMATTA, 1997, p. 39-40).

No âmbito do projeto de extensão “Políticas públicas e espera: ações para garantia e preservação de direitos” que integra o Programa de Extensão Direito à cidade de moradores de conjuntos habitacionais e favelas de Campos dos Goytacazes, da UENF, com a equipe de bolsistas, começamos a interrogar e a refletir sobre a casa em tempos de pandemia [2]: nossas casas poderiam ser vistas como territórios da espera? Como é, estando em quarentena, ver/viver/habitar a sua casa, o seu bairro, a sua cidade, privado do contato com familiares, amigos, com o mundo exterior (a rua), esperando, ao mesmo tempo, o Coronavírus chegar, sem sermos contaminados, e que a epidemia passe logo?


A partir deste ensaio, convidamos os leitores e comunidade acadêmica a pensar e discutir a dimensão da espera, neste contexto singular de incertezas e indefinições, inclusive do tempo, para que nós, pesquisadores do campo das áreas das ciências humanas e sociais, possamos contribuir com estudos que visem entender a sociedade e as relações sociais em momento de crise em meio a uma guerra contra uma pandemia.

Referências Bibliográficas

BREVIGLIERI, Marc. L’horizon du ne plus habiter et l’absence de maintien de soi en public. In: CEFAI, Daniel; JOSEPH, Isaac (org). L’héritage du pragmatisme. Conflit d’urbanité et èpreuves de civisme. 2002. p. 319-336.

CHOAY, Françoise. O urbanismo: utopias e realidades, uma antologia. 2ª reimp. da 7ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2018.

DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.


FALCÃO, Daiana de Azevedo; FARIA Teresa de J. Peixoto. “As políticas públicas criam territórios da espera? O caso do programa Morar Feliz da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes  (RJ- Brasil)”, Nuevo Mundo Mundos Nuevos [En ligne], Débats, mis en ligne le 10 octobre 2016, consulté le 15 juin 2020. URL : http://journals.openedition.org/nuevomundo/69727.

VIDAL, Laurent; MUSSET, Alain (Sous la direction de). Les territoires de l’attente. Migrations et mobilités dans les Amériques (XIXe –XXIe siécle). Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2015.



Notas:

[1] Como apontam alguns dos estudos desenvolvidos no âmbito do Projeto internacional e interdisciplinar TERRIAT (acrônimo do projeto internacional de pesquisa “Sociedades, mobilidades, deslocamentos: os territórios da espera. O caso dos Mundos Americanos - de ontem a hoje)”, financiado pela Agência Nacional de Pesquisa (França), desenvolvido de 2011 a 2014 (ver site https://terriat.hypotheses.org). Os estudos estão publicados na obra coletiva organizada por Musset e Vidal (2015).

[2] Ver: https://confinaria.hypotheses.org/1221

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