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[Pandemia, Ensino e Currículo] Há currículo por vir?

Thiago Luz, Mestrado - Programa de Pós Graduação em Antropologia Social/UFRGS. Contato: light.thiago@gmail.com



Há currículo por vir?


Primeiro de tudo o que é um currículo? Ou melhor, é possível definir um currículo? Normas, regramentos, horários, metas, avaliações... Isso define um currículo? É somente isso um currículo? Um currículo é sempre alguma coisa? Ou um currículo é potencialidade? Um currículo, quem sabe, talvez possa ser definido como fabulações hipotético-contingenciais? Pós-moderna demais essa definição? Provável. Mas que droga, o que é um currículo, então?! Ah, se fosse fácil responder essa pergunta... Pausa! E se, como fizeram Corazza (1997; 2013), Paraíso (2010; 2015) e Gallo (2002), mudássemos a pergunta para o que pode um currículo? Se algo aprendemos com a antropologia, a educação e a filosofia (e outras ciências também, claro) é que uma aparente simples mudança de pergunta nos possibilita caminhos outros, inimagináveis anteriormente. O que pode, então, um currículo em uma pandemia? Pode ser assim ou assado? Pode, mas também pode ser assim E assado. Como muito bem nos lembra Deleuze & Parnet (1998) sobre as potencialidades do E, ele sempre soma, nunca subtrai, sempre abre e expande, nunca fecha ou reduz. Um currículo que experimenta o múltiplo é capaz de produzir novas e eficazes experiências de aprendizagem. Um currículo com imagens, textos, perguntas, poesia, sonoridade, filmes, afeto, amor, paciência, angústia, aflição... Um currículo tem de experimentar hoje e sempre. Claro, não sejamos ingênuas/ingênuos ao ponto de romantizar momentos tristes como este e capitalizar os sofrimentos como faz o capitalismo neoliberal e sua concepção de empreendedorismo, onde tudo é válido, onde “basta querer”. O momento não pode ser de esquecimento de que, muitas vezes, a EaD, ao invés de significar um mecanismo de Educação a Distância significa um mecanismo de Exposição de Adversidades e Desigualdades. Se há um currículo por vir nessa pandemia, ele não será individual, mas coletivo, ele não pode ser pensando como fixidez e aprisionamento, mas como flexibilidade e potencialidade. Um currículo por vir deve ser ético e responsável, ou nos termos de Haraway (1995) deve advir de um saber localizado. Pois se algo aprendemos com os métodos qualitativos de pesquisa, em especial os métodos de análise antropológicos, é que as vidas vividas cotidianamente não cabem em leis universalistas (BOAS, 2004 [1930]).

Thiago Luz, Porto Alegre, 09/04/2020

[Pandemia, Ensino e Currículo]


Inspirações bibliográficas:


BOAS, Franz. Alguns problemas de metodologia em ciências sociais [1930]. In: CASTRO, Celso (Org.). Franz Boas. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.


CORAZZA, Sandra Mara. O que quer um currículo: pesquisas pós-críticas em educação. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2001.


CORAZZA, Sandra Mara. O que se transcria em educação? Porto Alegre: Doisa, 2013.


DANOWSKI, Débora. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: ISA, 2017.


DELEUZE, Gilles. PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.


GALLO, Sílvio. Em Torno de uma Educação Menor. Educação & Realidade, v. 27, n. 2, p. 169–178, 2002.


HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, n. 5, p. 7–41, 1995.


PARAÍSO, Marlucy Alves. Diferença no currículo. Cadernos de Pesquisa, v. 40, n. 140, p. 587–604, 2010.


PARAÍSO, Marlucy Alves. Um currículo entre formas e forças. Educação, v. 38, n. 1, p. 49–58, 2015.

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