• antropoLÓGICAS

v3a22| Pandemia isomórfica, ou: do porquê a morte na “periferia” não é uma banalidade

Atualizado: Jul 30

Por Ramon Reis. Doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo.

Foto por tuca Vieira. Disponível em: https://www.tucavieira.com.br/paraisopolis

Desde quando foi confirmado o primeiro caso de infecção por coronavírus no Brasil, em fevereiro de 2020 [1], tenho acompanhado a veiculação expressiva de reportagens, matérias jornalísticas e diálogos virtuais que reforçam percepções condolentes e fatalistas sobre as “periferias” urbanas, localizando-as como lugares onde “impera” a irresponsabilidade sobre o cuidado de si e outrem, além de aproximá-las a uma retórica de banalização da morte.


Cada vez que ouço ou leio o famigerado jargão “esse povo [moradora/or de “periferia”] não respeita... [os protocolos sanitários]”, eu penso: quais os limites das fronteiras entre “centro” e “periferia”, em situações de disputa socioespacial eletiva e quantificação moral? A propósito, não é de hoje que a distância que separa essas espacialidades torna “esse povo”, majoritariamente preto, um depósito preso à própria sorte.

A notificação da primeira vítima de coronavírus no Rio de Janeiro – uma empregada doméstica de 63 anos, diabética e hipertensa (pertencente ao “grupo de risco”), da cidade de Miguel Pereira (região metropolitana do Rio) -, em 19 de março de 2020, acendeu, novamente, o alerta sobre a distância social entre pobres e ricos no país. A empregada trabalhava no Leblon, área nobre da cidade, e possivelmente não conseguiu negociar a escala de trabalho com a patroa, que mesmo tendo retornado da Itália e sabendo dos riscos de contágio não a avisou que poderia estar doente [2].


Triste realidade de um país desigual e dissimulado porque pautado em uma linguagem colonialista cuja moeda de troca, na verdade, reitera discursos inclusivos com vistas a obliterar um cotidiano politicamente negacionista e desumano de não reconhecimento das diferenças (por exemplo: de gênero e sexualidade, raça/cor, geração/idade, classe social, região e território).


Assim que esse caso foi divulgado, em meio à comoção nacional, um rastro de preocupação se espalhou rapidamente e várias pessoas começaram a prever um futuro trágico para as/os moradoras/es de “periferias”, que, segundo tais percepções, teriam “dificuldades” de frear a contaminação comunitária (quando não há mais como saber quem transmitiu o vírus), assim como de permanecer em quarentena e isolamento social, e, mais recentemente, tornar eficaz as medidas municipais de lockdown (confinamento), instituídas, em maio de 2020, pelos governos do Pará e Maranhão, ambos em situação de iminente colapso sanitário [3].


O problema aqui não é o de estar alheio à desigualdade social, histórica e estrutural, que assola, de formas específicas, as “periferias” brasileiras. O ponto central diz respeito à transformação desse lugar numa caricatura de sujeira e bagunça. A pandemia de coronavírus, nesse sentido, está longe de ser apenas uma questão de saúde pública; no que se refere às “periferias”, ela diz muito sobre o lugar de destino, por excelência, da exclusão e “ausência” de gerência individual e coletiva – considerada não circulável e não citadina.


Onde está, portanto, o equívoco a respeito da retórica de banalização da morte nas “periferias”, antes e durante a pandemia de coronavírus? Situa-se na construção de “imagens de controle” [4], paradas no espaço-tempo catártico da morbidez, pretensamente organizacionais e ascéticas em meio a estruturas políticas fascistas que insistem em moralizar e criminalizar a pobreza. A reprodução de isomorfismos fáceis e descompromissados acentuam, ainda mais, o termômetro social que nivela quem pode ou não negociar.

A esse respeito, é sintomático observar a conveniência do ato de culpar e responsabilizar alguém que não detém status e privilégios; tal manobra imagética cumpre o seu papel, qual seja: de transferência da corrosão de sistemas político-econômicos nefastos para o cotidiano de nossas relações, posicionalidades e pertencimentos.


Esse movimento de transferência corrosiva tem sido a porta de entrada para o questionamento do suposto vazio atribuído à posicionalidade “periférica”. Em tempos de capitalismo neoliberal (do it yourself) e crise econômica e sanitária, não dá mais para achar que o que foi/é historicamente negado e isolado continua à espreita da busca por “uma vida melhor”.


Na esteira da pergunta supracitada e entendendo a necessidade de compreensão circunstancial, para que serve, afinal, a retórica de banalização da morte na “periferia”? Trata-se de um catalisador sistemático de controle, ajuste e acumulação financeira, especulativa e restritiva, com o objetivo de formular políticas austeras voltadas, preferencialmente, à “organização” citadina em regiões “centrais” a partir do corte de benefícios sociais, em especial das/os que moram nas “periferias”.


Nesse sentido, aventar a possibilidade de identificar a pandemia de coronavírus como isomórfica é, sobretudo, uma forma de desafixar a atribuição acusatória (de letargia populacional e desorganização socioespacial) revestida pelo olhar exterior lançado aos processos decorrentes da negação e do afastamento de um “outro” que dificilmente consegue negociar a escala de trabalho; que é tratada/o com desdém quando recorre aos serviços de saúde; que não é vista/o como produtora/or de conhecimento sobre a sua própria realidade; que coloca a vida em risco para prestar serviços “essenciais” [5] a uma elite que sequer compreende o significado de passar dias em filas bancárias à espera de um auxílio emergencial de R$ 600,00, quando o valor da cesta básica, por exemplo, na cidade de São Paulo custa R$ 517,51 [6]; o problema, definitivamente, não é sobre a suposta banalidade da morte nas “periferias”, afinal esta suposição não encontra eco na preocupação real dessas populações.


A centralidade do debate está no modo como o sistema político-econômico contemporâneo artificializa as nossas existências e convivências, tornando-as refém de uma fixidez ontológica e espacial que dificulta o estímulo a exercícios de responsabilização geopolítica ao se apoderar de linguagens residuais exclusivamente econômicas [7].


Enquanto isso, antigos nivelamentos sociais entre “centro” e “periferia” continuam sendo requentados.



Notas:

[1] Disponível em: https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46435-brasil-confirma-primeiro-caso-de-novo-coronavirus [2] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/19/primeira-vitima-do-rj-era-domestica-e-pegou-coronavirus-da-patroa.htm [3] Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/o-brasil-em-lockdown-as-regras-para-as-cidades-que-vivem-bloqueio-total/ [4] Cf. COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019. [5] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/07/apos-criticas-governo-do-para-limita-servico-domestico-durante-lockdown.htm [6] Disponível em: https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2020/202001cestabasica.pdf [7] Cf. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

142 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES