• antropoLÓGICAS

v2a18| Pandemia, sexualidade e percepção do risco: algumas notas sobre quarentena e desejo

Atualizado: Jul 29

Por Victor Hugo de Souza Barreto. Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF). Contato: torugobarreto@yahoo.com.br




Você já deve ter percebido que os memes com teor sexual aumentaram nesses tempos de isolamento forçado devido à pandemia do Covid-19, o novo coronavírus. São piadas compartilhadas nas redes sociais que falam do aumento da masturbação, de tesão acumulado, de “sorte” para quem está passando esses tempos de quarentena na companhia de parceiros sexuais, mas, ao mesmo tempo, de uma ideia de sexo “de risco” que volta a assombrar e compor nossos desejos.

Venho prestando mais atenção à essas questões devido a meus interesses de pesquisa. No momento desenvolvo uma etnografia para um pós-doutorado em Antropologia, na qual acompanho grupos virtuais e encontros presenciais de interlocutores adeptos de práticas sexuais tidas como “de risco”, tais como o sexo bareback (sem camisinha) e o chamado sexo pig (também conhecido como “sexo sujo”, ou seja, um conjunto de práticas sexuais que envolve elementos escatológicos ou daquilo que consideramos “sujeira” ou “nojento”). Os encontros são exclusivos para homens cisgêneros (ainda que eventualmente pessoas transgêneros como travestis e transexuais sejam adicionadas às redes virtuais, sua participação nos encontros presenciais são vedadas).

Foi percebendo como a sexualidade atravessava esse contexto atual de pandemia e como meus interlocutores estão reagindo à esse cenário em termos de sua percepção de risco nessas práticas homoeróticas que surgiu a ideia de escrever algumas notas sobre quarentena e desejo.

* * *

No contexto geral já é perceptível algumas adaptações. Notícias já dão conta de um aumento significativo do consumo de sites pornográficos[1] e de incremento da prostituição via meios digitais, devido à queda do número de programas presenciais[2]. É importante apontar que tal fenômeno de maior digitalização do mercado do sexo tem um recorte óbvio de classe e idade, já que a prostituição de pessoas mais velhas e de camadas mais pobres teve a sua situação de vulnerabilidade agravada pela epidemia[3].

Como a sexualidade de fato é afetada pela situação de quarentena não pode ser generalizada. A experiência vai do aumento da prática sexual e principalmente da masturbação (como é comum em vários relatos de situação de confinamento), mas também passa por relatos de diminuição da libido por motivos vários: relaxamento da higiene e aparência, uma perda de autoestima, irritação e desgaste pelo excesso de convivência com o parceiro e restante da família no mesmo espaço, o humor e a saúde mental afetada com as notícias, preocupações e angústia, dentre outros.

* * *

Daquilo que percebo nas redes sociais, em plataformas como o Twitter, por exemplo, que permite a publicação de material erótico ou pornográfico, é sensível o aumento de postagens com esse teor. Engrossa o fenômeno contemporâneo de “pornificação de si”, que vai desde a exposição de um espaço e de práticas tidas como íntimas nas redes sociais (não necessariamente sexuais, como as várias lives via Instagram ou Facebook) até a monetização de um material mais explícito (em plataformas virtuais pagas como OnlyFans).

A questão é que a prática da “biscoitagem”, ou seja, a postagem de fotos e vídeos nas diferentes plataformas de redes sociais que valorizam a exposição do corpo em poses ou closes insinuantes em troca de likes e comentários (os ditos “biscoitos”), vem aumentando nesses tempos de quarentena. Os motivos de tais fatos podem ser vários: maior tempo livre, tédio, estimular a comunicação em um momento de isolamento, dar conta de alguma forma da libido e, até mesmo, a complementação da renda.

Dois interlocutores de minha pesquisa no pós-doutorado, por exemplo, que são motoristas de aplicativo, me contam que nas últimas semanas tiveram que passar a vender nas redes material para consumo erótico, de vídeos de sexo e masturbação até peças de roupa usadas ou ejaculadas, devido à diminuição do número de viagens. Tais produtos são vendidos na rede em plataformas que cobram valores em dólar (de U$10 a U$30), o que, na atual conversão para a moeda brasileira, acaba significando um valor considerável para quem não está conseguindo fechar as contas do mês com o trabalho usual.

“Eu já tinha o costume de filmar as minhas fodas. Era uma coisa de fetiche minha. Aí eu tinha um perfil no Twitter só para postar essas sacanagens. Mas eu postava de graça né. A pessoa ia lá, assistia, conversava comigo, falávamos umas putarias no privado, trocávamos uns nudes e vídeos também, quem sabe desenrolava um encontro, essas coisas…Mas aí eu comecei a perceber que a galera também estava disposta a pagar por esse conteúdo. Agora com essa coisa da pandemia foi a minha salvação! Senão não ia conseguir pagar todas as contas esse mês”

* * *

As ansiedades que a pandemia atual causam também podem ser relacionadas quando do aparecimento dos primeiros casos de outra pandemia não tão distante, a do hiv/aids nos anos 1980/90. Vemos movimentos semelhantes na busca de uma rostificação de “inimigos”, no estabelecimento de fronteiras (territoriais e corporais) com o que é visto como perigoso e contaminador, na culpabilização e no aparecimento de regimes de moralidades que se constroem num plano que está além do vírus em si e de seus efeitos físicos no corpo[4].

Dessa forma, assistimos o “eterno retorno” de termos, categorias e preocupações que muito lembram a maneira como agentes públicos e sociedade lidou com a pandemia de hiv/aids. Principalmente naquilo que se relaciona com os chamados “grupos de risco” e demais “comportamentos de risco”. Além dos respectivos “pânicos morais” que são por eles disparados. Se no caso do hiv/aids, a doença era identificada inicialmente às pessoas pertencentes aos grupos dos “ 4 Hs” (homossexuais, hemofílicos, heroinômanos e haitianos) e posteriormente passou-se a pesar as “práticas de risco" e “sexo seguro”; no caso do Covid-19, vê-se a identificação preconceituosa de pessoas de origem asiática (o “vírus chinês”) passando para a regulação sobre a prática do isolamento e aqueles que respeitam a quarentena permanecendo em casa e não se expondo na rua.

A questão é que essas ansiedades, discursos e reações que tanto se assemelham mostram os regimes de moralidades que estão por trás das respostas à essas epidemias. Tratam-se também de “doenças morais”, portanto, já que a não contaminação e a eficácia do tratamento é atrelada a uma responsabilidade individual de prevenção (o sexo “seguro” no caso do hiv/aids e o isolamento no caso do coronavírus), no que alguns autores apontam como a adoção de valores “neoliberais” nas políticas de Saúde. Cabe a você se proteger, tomar os cuidados necessários e aqueles que são irresponsáveis, ou seja, que faltaram com o cuidado e que se expõem ao perigo, não devem ser responsabilidade do Estado. O Estado (e o restante da sociedade) não pode pagar pelos que não sabem governar a si mesmos[5].

* * *

A questão da responsabilidade e do cuidado na atual pandemia (e as moralidades envolvidas) pode ser vista, por exemplo, numa certa patrulha sobre as postagens nas redes sociais. Pessoas que postam em seus perfis registros de atividades fora de casa ou a presença em eventos com aglomerações são julgadas de forma às vezes agressiva e, na maioria das vezes, moralistas, sobrando pouco espaço ao diálogo.

Naquilo que se refere às práticas homoeróticas de meu universo de pesquisa houve um movimento semelhante. O uso de aplicativos para encontros sexuais, a pegação nas ruas ou ambientes públicos, a prática do sexo grupal ou coletivo, a organização de “sociais” ou festas privadas, dentre outras, se tornaram mal vistas, mesmo pelo seu público comum e praticante. Aqueles que fazem postagens de teor sexual ou explícito no Twitter, por exemplo, são taxados como “irresponsáveis”, acusados de querer contaminar outras pessoas e mesmo ameaçados de serem denunciados por violações às medidas restritivas contra o coronavírus (diversas prefeituras no país criaram esses canais de denúncias).

Por exemplo, uma das postagens dizendo “Ménage de agora pouco” (com as respectivas fotos do encontro sexual em trio), obteve os seguintes comentários:

“Você está sabendo que estamos no meio de pandemia?”

“Galera não entende o significado de responsabilidade”

“Zero comprometimento social”

“O povo que não teve medo do HIV antes dos retrovirais e da PrEP. Que hoje não tem medo das hepatites, sífilis, gonorréia e um bando de outras ISTs, não irá se comover com o corona, não é mesmo?”

A quantidade de comentários negativos foi tanta que a postagem foi retirada. Muitos, antes de postar, já avisam que os vídeos e fotos postados são registros de práticas sexuais feitas antes do período de quarentena, para não sofrerem retaliações e julgamentos. As postagens que parecem ser aceitas são aquelas que envolvam nudez (individual), masturbação (o “prazer solitário”) ou a interação com parceiro(s) que morem ou estejam em quarentena juntos (e isso precisa estar explícito na legenda).

Há uma volta (como se nunca tivesse ido embora, na verdade) da acusação de um comportamento tido como promíscuo que seria perigoso em seu excesso de interação, fluidos e potencial de contaminação. É interessante perceber como a questão da percepção do risco (e sua erotização) também afetou de certa forma os interlocutores de minha pesquisa. Nos grupos de Whatsapp eles compartilham técnicas de cuidado que não são livres de conflito:

- Não parei de fazer sexo, mas estou bem mais seletivo. Fodendo só com amigos que conheço e tenho já alguma intimidade, mesmo porque existe todo um ritual para entrar aqui no meu apartamento. Sapato na porta, direto pro banheiro tomar banho e a roupa da rua toda separada. Só depois de tudo isso é que pode foder gostoso. Existe o risco, claro que existe, mas quando vamos só no mercado ou no banco ele também existe. Então acho que tomando algum cuidado dá para continuar fazendo as coisas.

- Amigos que você conhece e já fode não os exime de ter ou não coronavírus. Eles vêm da rua da mesma forma que um desconhecido…Mas se você confia, tem o seu ‘ritual’…ok. A cabeça é sua.

- Eu não julgo. Acho ‘menos pior’ do que fazer surubão. Eu também não parei de transar, mas não estou aceitando convite para menáge, não tô indo em festinha, por exemplo. Só no um a um e de preferência com quem já pego sempre e tenho intimidade. Chegou aqui em casa é banho de álcool em gel e pronto, tá limpo. E isso é estar se expondo menos, eu acho, pelo menos.

- Mas intimidade não quer dizer nada! E se a pessoa que você tem intimidade também fode com outras pessoas? Será que tem os mesmos cuidados?

- Você fazer a sua parte não quer dizer que o outro também faça…”

A exposição à nova pandemia é lembrada como os riscos que eles já exercitam em suas práticas sexuais comuns:

“Olha, de boa, se tomarmos certos cuidados diminui os riscos sim. Vamos deixar de ser hipócritas. Quando participamos de uma suruba ou vamos em festinha bare (bareback) você, por acaso, tem certeza que todos que estão lá não tem nada ou não podem te passar alguma coisa? A grande diferença para mim é que esse vírus ainda não tem cura nem tratamento, então o cuidado deve ser maior. Mas nada que impeça de fazer as coisas”.

O risco do novo coronavírus aqui é entendido como mais um elemento ou um fator no cálculo de riscos que já é feito em suas práticas sexuais.

* * *

Como afirmei, as percepções de risco nessas práticas sexuais em tempos de pandemia não são homogêneas. São inclusive fontes de conflito nos grupos e nas redes. Às acusações de irresponsabilidade e mesmo de disseminação de um vírus, esses atores que trago para reflexão apontam formas, maneiras ou técnicas de cuidado de si que “negociam”, “gerenciam” ou “reduzem” os riscos e os perigos constituintes dessas interações, produzindo uma verdadeira “ciência do concreto” local.

Para meus interlocutores, se expor ou não a algo é um “cálculo infinitesimal” feito a partir do prazer que se sente, da intensidade da interação e do que se percebe como riscos menores ou maiores. Com a possibilidade de que o perigo também seja um componente erótico do prazer. A produção de uma hierarquia de riscos própria que é atravessada e tensionada o tempo todo pela chave do prazer revela que a ideia de perigo, de risco ou de doença nesse contexto não é uma totalidade dada. A doença é entendida enquanto um processo que se constrói numa prática, relacionalmente e contextualmente. Ainda mais no caso do Covid-19, em que a sua característica de propagação pelo ar e falta de tangibilidade (aliada às ainda poucas informações médicas que recebemos via mídia) transforma esses rituais de cuidado em verdadeira “ciência mágica”[6].

Ser saudável, dessa forma, é se cuidar e se proteger não dentro de uma lógica ou discurso estatal necessariamente, mas sim a partir de uma hierarquia de riscos própria (sem abrir mão das técnicas de cuidado criadas) e de um entendimento no qual a responsabilidade (de si e de consciência das possíveis consequências) esteja presente. Um território feito de escolhas livres, em que as opções são dadas. A saúde tem a ver com o prazer que essa liberdade permite, uma qualidade de vida na qual esse prazer esteja presente, que não seja preciso abrir mão dele ou de qualquer outro. Mesmo numa pandemia.

* * *

As possibilidades de se pensar a sexualidade nesse contexto de isolamento e pandemia são muitas. E inesperadas, já que ainda não sabemos como as relações e desejos serão afetados durante essa jornada e como sairemos dela. Mudaremos a forma como lidamos com o próprio corpo após essa convivência forçada consigo mesmos? A intermediação do digital afetará essa relação de que forma? As dinâmicas afetivo-sexuais apresentarão novas configurações? Como a percepção de risco de um vírus na escala do Covid-19 afetará nossos desejos e produção de subjetividade daqui para a frente? O que me propus aqui foi apenas apontar pequenas e rápidas impressões sobre um campo no qual já estou inserido e perceber algumas dinâmicas de um desejo sob quarentena.

[1] Fonte: https://f5.folha.uol.com.br/televisao/2020/03/sites-e-canais-de-filme-porno-registram-grande-aumento-de-visitantes-durante-quarentena.shtml [2] Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/04/04/coronavirus-profissionais-do-sexo-recorrem-a-web-com-queda-de-ate-80percent-na-clientela-por-quarentena.ghtml [3] Fonte: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/28/nos-somos-invisiveis-trabalhadoras-sexuais-afetadas-pelo-coronavirus.htm [4] A nova epidemia já desencadeou uma série de análises de pensadores e filósofos de diferentes áreas com resultados variáveis. Inclusive na comparação com a pandemia de hiv/aids de uma forma mais detida da que faço aqui. A coletânea de textos “Sopa de Wuhan” é uma amostra dessa produção (em que pese a infelicidade da escolha desse título e dos morcegos na capa). Link: http://iips.usac.edu.gt/wp-content/uploads/2020/03/Sopa-de-Wuhan-ASPO.pdf [5] No dia 05/02/2020, comentando a campanha de abstinência sexual como prevenção de gravidez precoce e ISTs, o Presidente Jair Bolsonaro disse em entrevista para jornalistas: “Uma pessoa com HIV, além de ser um problema sério para ela, é uma despesa para todos aqui no Brasil”. Fonte: https://www.cartacapital.com.br/politica/uma-pessoa-com-hiv-e-uma-despesa-para-todos-aqui-no-brasil-diz-bolsonaro/?fbclid=IwAR2CcBYvQFnPgzn49J3IZjsg2vUTJjkOrqCgFCrnb1uslAG28dUCTiKMsvU#.XjrVC23mVwc.facebook [6] Maria Claudia Coelho faz uma interessante análise sobre como a angústia do contágio nessa pandemia é experimentada pelas pessoas leigas em cuidados vivenciados como uma forma de magia. Fonte: https://www.reflexpandemia.org/texto-3



Photo byAnnie SprattonUnsplash




5,058 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES