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v4a3| Pesadelos e Milagres: Crianças em tempos de coronavírus

Atualizado: Jul 30

Por Susana Durão (UNICAMP), Taniele Cristina Rui (UNICAMP) e Erika Robb Larkins (Dan Diego State University)


A quarentena que revela. Muitos festejam as aprendizagens individuais da reclusão forçada, outros criam textos lindos, poéticos, narram crônicas do estranho e prolongadíssimo feriado sanitário. Enquanto uns aplaudem o cordão de saúde e pedem luz, outros deprimem, perdem contratos, salários ou o “corre” para conseguir pagar a compra do mês. Histórias de adultos, onde as crianças e adolescentes se perdem. Eles também se inquietam com o isolamento. Eles estão aquém e além das histórias dos entes maduros. Crianças fazem planos, têm sonhos e pesadelos. Sabem o aqui do futuro; e esse tem cara de vir a ser sombrio.


Pequenas histórias de dentro de três casas.


Dia 30 de março de 2020, durante o café da manhã, com os raios de sol brindando o prato do pão, uma pré-adolescente com a mãe à mesa. Antes de, como muitos de seus amigos de 11, visualizar os rápidos homevideos de adolescentes no Tik Tok, ou de se agarrar aos lindos esboços de personagens mangá, ela narra o pesadelo da noite. Foi presa num lugar remoto de Campinas pela nova professora de filosofia que lhe insistia em lhe impor um programa domiciliar intensivo da disciplina. Contou que eram soturnas, a casa e a professora. Se viu em pânico com a situação. Tentou conexão telefônica com a mãe, mas falhou. A avó, de Portugal, atendeu. Não a escutava bem, “está velhota, não entende nada de brasileiro”, concluiu. Finalmente, conseguiu ligar. A mãe veio de carro para pegá-la. Era longe, achou que devia ser em um condomínio de casas grandes, perdido, para os lados do Betel, lugar distante em Barão Geraldo, Campinas (São Paulo), onde só vai se convidada para aniversários. Regressa para a reclusão da casa; que alívio.


Em abril, quando a escola entrou em casa com suas videoaulas, a moça se retraiu. Não gostou das aulas, “um saco”, mesmo se as seguiu com atenção e tensão, “não entra aqui”. Na porta do miniescritório que montou para si, vários avisos: “Se quiser entrar, bata primeiro”, “não entre sem autorização” e irônicas ofensas relacionadas à política nacional: “seus comunistas do inferno”, “saiam, petistas!” Mas o humor não conseguia esconder a inquietação, que apontava a falta maior: “O coronavírus acabou com as nossas vidas”, disse um dia, meio séria, meio zoando, “estamos todos ficando burros, em casa, sem provas e sem aulas”. No whatsapp, a pergunta inicial, “quando acham que voltamos?”, com o tempo, sumiu.


Apesar dos filmes, mais conversas à mesa, leituras e até a confecção de um complexo jogo de mesa, a solenidade sanitária se impôs e, como tantas crianças, ela foi obrigada a engolir a nova ordem, o estranho “novo normal”. Estar junto é também esbarrar uns nos outros. Ela teve mais tempo para se enredar nas micro tensões familiares, nos silêncios e angústias dos grandes. O pai elucubrando, insistindo que o sistema mundial falhou; a mãe com a cabeça mergulhada nos textos, nas aulas, e o corpo ao serviço de uma atividade essencial. À entrada de maio, não quis mais sair de casa, “lá fora é o caos”. A menina falou: “Queria tocar nos meus colegas, sinto saudades”. Chegou a relatar sentimentos de depressão e exaspero... E eis que um pequeno milagre domiciliar aconteceu. Conheceu um menino do Maranhão que a ensina a jogar um vídeo jogo, free fire. De noite conversam no celular. Aderiu a grupos, começou a conversar com outros, espalhados pelo Brasil. Risadas espontâneas, gravações de piadas e onomatopeias no celular, gritinhos juvenis, novos sons adentraram a casa; eles são como música para os ouvidos dos mais velhos.


Foto: acervo pessoal das autoras.


Em outra casa, a pequena de 3 anos, que vem demonstrando interesse em contos de princesas, elabora a seguinte frase: “mamãe, eu gostaria de ser a Frozen para congelar o coronavírus”. Expressa saudades da melhor amiga, saudade das escolas que frequenta desde os seis meses, saudades de brincar “com amigos na pracinha”. Já está cansada da mesmice dos dias, mas ainda não consegue verbalizar de todo a mistura de sentimentos confusos que a visitam. Tem momentos que está irritada, nervosa, irrompe em choro, diz estar “vermelha” como a raiva de um livro infantil, e tudo o que consegue fazer, depois, é pedir colo. E tem momentos que, ao achar a concentração investigando com dedicação um material encontrado ao acaso, como um plástico filme ou massinha caseira, ela revela estar “cheia de amor”. Sentimentos intensos demais para alguém que está aprendendo a nomeá-los e vive-los.

No início, a mãe preparou várias atividades lúdicas. Logo não conseguiu sustentar. Depois ainda a mãe se voltou com interesse para a dinâmica online da escola infantil, que a menina acompanhou com interesse, mas sem conseguir parar sentada para os momentos de encontros virtuais, dos quais ela participou em movimento, pulando, correndo pela casa, gritando, gesticulando e articulando sons estranhos. Para as crianças, a tela é tudo, menos passividade. A mãe logo percebeu que o interesse grande pela escola infantil se contrastava à falta que sentia em conseguir dedicar-se ao próprio trabalho.

Com o pai trabalhando em atividade essencial, o coronavírus ganhou concretude. A pequena logo se ajeitou à dinâmica de máscaras e álcool gel. Ela divide a casa com um bebê, prestes a completar 1 ano. Ao vê-lo no cotidiano, ela também experimenta a ambivalência do que sentir com um irmão que vai dia-a-dia conquistando seu espaço, se tornando gracioso. O bebê, que mal começou o berçário e teve que voltar à rotina da casa, tem crescido com desenvoltura e, para ele, a casa é o mundo, ainda que, junto com o peito da mãe, o vento na varanda seja o seu melhor conforto.

Passar a quarentena com dois filhos tão pequenos exige da mãe comunicações, ajustes, novos arranjos, quase que diários, e também mais tolerância com o tempo nos desenhos animados. Obvio, mas não tanto, algum milagre aconteceu quando a necessidade de trabalho foi expressamente comunicada e apreendida. Enquanto recortava papeis coloridos e prestes a ser atrapalhada pelo irmão, a pequena demarcou o limite: “agora não, estou no meu trabalho”. Algo que é como dizer que nosso próprio espaço e nossas próprias realizações são preciosos e não devem ser abandonados, nem sob quarentena. Por falar nisso, construir uma cabana em seu quarto também foi um bom jeito de oferecer à menina o tão apreciado “livre silêncio do espaço”.


Foto: acervo pessoal das autoras.


Nos primeiros dias de quarentena, na terceira casa, as crianças voltam para a cama dos pais, se enfiando debaixo das cobertas. Enquanto os pequenos desviam o rosto suado e sonolento do brilho da tela dos celulares, os adultos vasculham a mídia em busca de artigos que os ajudem a avaliar o risco do presente.


Geralmente muito curiosos e inquisitivos, o menino de 9 anos e a menina de 5 não perguntam à mãe por que ela está reformando um dos armários de linho para manter uma pequena farmácia ou por que, um dia antes, antes de todas as lojas fecharem, ela decidiu receber uma tonelada de compostagem (reciclagem de matéria orgânica) para plantar sementes no quintal. As crianças se divertem nessas novas tarefas. A mãe se surpreende com o modo como as crianças revelam necessitar da atenção incondicional dos pais. No primeiro mês em casa, eles não reclamam uma só vez e nem sequer pedem para assistir TV (que em geral é proibido).

Pulam em casa de pijama, o dia todo, fazendo fortalezas elaboradas com as almofadas do sofá, inventam jogos imaginários juntos que se prolongam por dias. É tudo como uma feliz surpresa, o verão chegou cedo e eles se divertem com esta grande abertura do tempo. “Mamãe”, diz a garota uma noite, enquanto escova os cabelos antes de dormir, “eu não gosto mais de correr”.


Foto: acervo pessoal das autoras.


A menina faz 6 anos em quarentena, o que parte o coração da mãe mais do que parece partir o dela. Ela comemora o “niver” com os bichos de pelúcia e bonecas e, também, com alguns vizinhos que se vestem para a ocasião, ocupam a calçada com um boombox (caixa de som portátil com bluetooth) e ensaiam uma festa de dança, socialmente distanciada, em sua homenagem. Ela fica sentada no colo da mãe e entra nas suas reuniões zoom, só para ver novos rostos. A mãe começa a perceber alguns sinais na pequena. A menina mastiga o cabelo. Faz mais birras.


Quando a permanência em casa se estende, os pais oferecem uma explicação, de versão reduzida, recomendada pelos professores da escola como sendo a mais apropriada para o desenvolvimento infantil nas suas idades. "Há uma doença", dizem uma noite, durante o jantar, num tom que esperam ser tranquilizador, “como amamos e respeitamos os outros, e não queremos que eles fiquem doentes, temos que ajudar a cuidar, ficando em casa apenas com a nossa família. Quando sairmos, vamos precisar de usar máscaras. A doença não fere crianças, apenas idosos. "Mamãe", pergunta a menina, "você não é velha, né?" "É claro que ela não é", o garoto insiste, olhando para a mãe para suplicar uma afirmação positiva.


Mas enquanto a menina permanece em sua imaginação, inventando feriados para comemorar (Dia do Urso empalhado!) e construindo casas para fadas sob a laranjeira no quintal da casa, o menino de 9 anos não paira entre as fadas e a dura realidade da quarentena da mesma forma. Analítico, sempre, ele se transforma no agente de saúde pública da família. De dentro do carro, no sinal de trânsito na El Cajon Boulevard (San Diego), ele observa um homem tossir na mão e depois tocar no botão para abrir a faixa de pedestres. Se mostra indignado: “E se alguém tocar nisso? E se essa pessoa pegar o vírus?” Por que aquela pessoa, ou aquela, ou aquela outra não está usando a máscara? “isso é contra a lei; por que a polícia não faz algo?”, reclama. Perguntas que estonteiam a mãe, que não tem ideia de como explicar a complexidade envolvida. Irado, o garoto se recusa a comer o sorvete que os pais compram, com todo o cuidado, do lado de fora da loja, com medo que o sorvete tenha sido tocado por alguém com o vírus. Ele não consegue conciliar motivos para usar máscaras - para proteger os outros - com o fato, gritante, de que outros não as usam para protegê-lo. Não importa o que os pais digam, o garoto parece ter decidido que muitas pessoas são más e egoístas. E tem dias em que esta mãe concorda com ele...


Foto: acervo pessoal das autoras.


E tem também todos os outros dias. Por um lado, como tem sido bastante divulgado, conviver com crianças em quarentena é vislumbrar, ao amanhecer, um dia longo, muito longo, que acorda já exausto ao tentar equacionar, com elas, a dinâmica cotidiana e de manutenção produtiva mínima. Por outro, é também acompanhar como, de diferentes modos, interpretam e experimentam a privação de convívio social. Vistas das nossas perspectivas adultas, seus sentimentos são captados em fragmentos. Pesadelos, risadas, choros, silencio, perguntas feitas e não feitas, corpos que pulam demais e corpos que parecem ter desaprendido de correr. Como isso tudo se converterá em memórias e narrativas produzidas por elas é algo que nos escapa, mas nos movimenta. É o futuro, à espreita, orientando o presente de um dia longuíssimo, temperado por incertezas e momentos de milagre.







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