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v5a12| Por uma ciência viva e dialógica em tempos pandêmicos

Atualizado: Jul 30

Por Juliana Borges de Souza. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – PPGCS/UFRRJ, Mestre em Ciências Sociais (2018) pelo PPGCS/UFRRJ, bacharel em Hotelaria pela UFRRJ(2015). É pesquisadora do grupo de estudos Conectividades e o grupo de Estudos Sociais sobre Hospitalidade e Lazer da UFRRJ.


Damaris de Oliveira Santos. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – PPGCS/UFRRJ. Mestre em Ciências Sociais (2018) PPGCS/UFRRJ, graduada em Ciências Sociais pela UFRRJ (2015). É pesquisadora do grupo de estudos sobre Conflitos, Violências, Sociabilidades e Processos de Mediação da UFRRJ,

Juliana Marques de Sousa. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – PPGCS/UFRRJ. Mestre em Ciências Sociais (2018) pelo PPGCS/UFRRJ, graduada em Licenciatura em Ciências Sociais (2015) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. É pesquisadora do Observatório Fluminense/UFRRJ e da Assessoria Técnica e Educacional Meio Ambiente e Barragens - ATEMAB.


Ilustração de Ayodê França, Expo pandemia. Disponível aqui



Iniciamos o ano de 2020, e logo somos surpreendidos por uma crise sanitária de proporções globais, a pandemia da Covid-19. O mundo, literalmente, parou; este período está projetando um silêncio gritante por reflexões sobre as mais diferentes dimensões de produção da existência. A ciência não pode isentar-se de tal tarefa. As ciências sociais foram, no seu nascedouro, constituídas de uma linguagem positivista compatível com as questões do seu tempo, preocupações que estavam em Durkheim, Weber e Marx, que persistem hoje nas teorias contemporâneas.


Que autoridade metodológica é pertinente para pensar a sociedade e o indivíduo? Que ciência mobilizamos? Essas questões clássicas são absolutamente atuais, porque não basta um campo das ciências e, mais especificamente as ciências sociais, elaborar seus conjuntos de perguntas e análises sobre o outro, apartada deste, mas não sobre ele mesmo.


Por vezes, a ciência foi vista como um grande corpo que deveria ser tratado objetivamente e com uma evolução garantida por meio de seu progresso. Marcuse, em 1967, argumenta que o homem passa a ser escravo da gnose, de uma ordem muito bem estabelecida pelos padrões de qualidade científicos por meio da racionalidade que se apresentará como neutra e objetiva, e em sua visão essa é uma forma de dominação da vida humana.


O estudo científico foi esse corpo frio e, por muito tempo, não admitiu que o sangue pulsasse em suas veias. Diante de uma anemia grave, um corpo doente pode precisar de transfusão de sangue para fortalecer seu organismo, assim renovando o seu pulsar. Da mesma forma a ciência, e para tanto é preciso insistir que a tese objetivista, caracterizada pela proposta de criar leis gerais para todas as sociedades, é insuficiente e sintomática de processos de controle muito distantes da vontade e compreensão aprofundada da realidade humana.


Segundo dicionários da língua portuguesa, a palavra cadáver refere-se a um corpo morto, que pode ter ou não passado pelo processo de decomposição. Esse conhecimento positivista, objetivista, aqui, denominaremos de ciência cadáver. Acionar a ciência neste tempo de crise não pode ser uma corrida refugiada para lógicas positivistas. O saber científico cadáver é, majoritariamente, um estudo composto por aqueles que se preocupam em tratar o outro como apartado de si e não como sua parte; é incapaz de ouvir, perdeu-se no seu próprio exercício, provocando modelos de pensamento prescritivos de verdades, um fazer científico para receptores. Diante da crise ocasionada pelo novo coronavírus, faz-se necessário um exercício de estranhamento sobre os usos da própria categoria ciência.


O conhecimento objetivista é desleal consigo mesmo. Essa postura resultou em sua fragilização, inviabilizando sua própria tarefa de refletir sobre o mundo e de produzir, portanto, um conhecimento que contribua para a mudança social. Desejamos corroborar para uma ciência viva, com potência transformadora no mundo, na qual o direito à vida de todos seja inalienável.


Essa ciência reflexiva que defendemos não está obcecada em legitimar-se o tempo todo, mas repensa o seu lugar e admite a importância em contribuir para reconhecer as múltiplas formas de vida; é preciso denunciar os discursos que infamam contra a sua própria existência. Essa ciência não é dada, é protagonista de sua própria história, e por isso não deve se isentar de criticar a si mesma, como ela vem sendo desenvolvida, por quem, como e para quê.


Em outras palavras, a ciência não será acumulativa e evolucionista, mas um eterno repensar de fórmulas diferenciadas de conhecimentos. Assim, como nos termos de Bourdieu, faremos uma ciência como um “esporte de combate” (1998). Dessa forma, saber ouvir também é saber agir, combater e transformar para permanecer.


Ciência dialógica


O conhecimento objetificador da vida acreditava caminhar para um fim apocalíptico. Já a ciência dialógica propõe criticar sua própria finalidade e não compactua com o fim dos tempos anunciados na fatalidade do novo coronavírus. O protagonismo dela consiste em reconhecer que não se pode criar uma aura de magia em torno de si mesma, nem produzir a verdade sobre o mundo social. Boaventura (2010) critica essa ciência detentora da verdade, afirmando que o modelo das ciências naturais, em cuja ótica matemática se pauta, não é suficiente para explicar todo o mundo social.


Foucault (1996) condena a pretensão de predomínio narrativo científico como único modo de produzir verdade. Aqui desejamos adotar uma ciência que escuta, que leva em consideração outros saberes como fonte de conhecimento. O saber científico é uma das formas de produzir conhecimento que classifica as coisas existentes no mundo. Durkheim e Mauss (1981) afirmam que em todas as sociedades o pensamento é racional, sistemático e lógico; assim, eles contribuem para findar a noção de que o pensamento mágico, religioso seria incongruente. Segundo os referidos autores, a estrutura social determina o sistema de classificação do mundo, e essa classificação sempre será hierarquizante. Se a vida social é hierarquizante, a classificação do mundo também será, porque é fruto desse processo.


A hierarquização do conhecimento produz verdades, conferindo autoridade e poder a quem produz esse conhecimento. Compreendemos que Lévi-Strauss (1989) afirma que o conhecimento dito mágico é do mesmo tipo que o científico e, nesse sentido, acaba com a dicotomia científico versus não científico, ou, em outras palavras a racionalidade será a mesma em ambos os sistemas de pensamento, uma vez que a própria ciência pode ser vista como um modo de interpretar o mundo.


Problematizamos que Lévi-Strauss (1989) identificou de alguma maneira que a ciência produz verdades sobre o mundo, resultando em classificações sobre as coisas que habitam a realidade social e sobre as próprias relações humanas. O social estaria contido numa mesma ordem, assim, o pensamento do “outro/mágico” teria os mesmos princípios lógicos que os da ciência. A hierarquia existente entre magia versus ciência não pode se sustentar, porque existem operações mentais, e isso é central para um tratamento dialógico nas relações sociais e no fazer científico.


Pensamos que a relevância da perspectiva teórica lévi-straussiana admite que o saber científico e outros conhecimentos podem ter a mesma natureza de produção do saber, mas se destinam a objetivos específicos em cada realidade particular. Tanto a magia quanto a ciência produzem causalidades no mundo. O saber dialógico entende que não existe simultaneidade universal; sempre terá que lidar com a verdade da incompletude e com proposições que não se pode refutar ou demonstrar, sendo sempre um conhecimento parcial, e não dado.


Abu-Lughod (2012) defende que não sejamos uma ciência que conduz a reificação das diferenças culturais, e nem pretenciosa, que acha que dá voz aos esquecidos. O processo do fazer científico precisaria, neste sentido, estar atento às narrativas que constroem definições sobre os outros e centrado em compreender o que os atores dizem sobre si mesmos.


A ciência dialógica é um corpo que não é coeso, parte de um lugar situado no mundo. Nós somos um corpo vivo, uma trajetória, uma alma; carregamos a diversidade, que faz coro aos nossos anseios políticos, e que, portanto, tem uma práxis que reconhece suas contradições. Nós somos uma ciência que também adoece, mas que se cura conjuntamente. Somos uma organização social fértil, podemos dar nascimentos a saberes específicos sobre o mundo. Nós somos a sociologia dos conflitos, dos movimentos sociais e tantas outras sapiências. Vivos que somos, aceitamos o mágico, o religioso, os engajamentos. Somos uma “família”, experimentando as nossas múltiplas parentalidades, que vão além de laços sanguíneos; compartilhamos textos, autores e afetos! Somos, em última instância, uma instituição que reconhece que seu fazer científico possui limites de atuação, precisando expor suas contradições, para que num processo contínuo transforme seu modus operandi.


Neste momento específico da realidade brasileira, em decorrência da pandemia, percebemos que a unidade científica é importante para combater ideias contrárias à sua própria existência. Verde (1997) nos alerta para tratar aquilo que parece ser “incompreensível” quando fazemos determinada pesquisa. Aqui, olhamos para a banalização do “e daí?”[1] ao direito à vida, e pensamos ser isso muito descabido, e que devemos produzir um conhecimento que também problematize essas questões.


Este tempo pandêmico– sentido de angústias e incertezas – deve promover um diálogo reflexivo que corrobore para a produção de novos discursos, que possam gerar transformação, inclusive da própria ciência. Por fim, almejamos um fazer científico pulsante.


Bibliografia:

ABU-­LUGHOD, Lila. As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação?: reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus outros. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 20, n. 2, p. 451-­470, Agosto. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2012000200006&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 25 Mar. 2019. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-­026X2012000200006.

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BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus Editora,

1996.

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DURKHEIM, Émile. Julgamentos de Valor e Julgamentos de Realidade. In: RODRIGUES, José Albertino (org.). Durkheim. SP: Ática, 2004. p. 53-70

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

FOUCAULT, Michel (1996). A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola.

GUPTA, Akhil. FERGUSON, James. Beyond "Culture": Space, Identity, and the Politics of Difference. Cultural Anthropology, Vol. 7, No. 1, Space, Identity, and the Politics of Difference (Feb., 1992), p. 6-­23.

LEVI STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. Cap. 1 A Ciência do Concreto. Campinas, SP: Papirus, 1989.

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SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. SP: Cortez, 2010.

VERDE, Filipe. A cristandade dos leopardos, a objetividade do antropólogo e outras verdades igualmente falsas. Etnográfica, vol. I (1), 1997, p. 113­131.

WEBER, Max, 1904 (1992). “A ‘Objetividade” do conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política”. In: Metodologia das Ciências Sociais. São Paulo: Cortez, 2001. p. 107-154.

Notas:

[1] CAMPOREZ, Patrik. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, diz Bolsonaro sobre aumento de mortes por covid. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-recorde-de-mortes-por-coronavirus,70003286434. Acesso em: 20 mai. 2020.

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