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v3a40| Precisamos nos reinventar como espécie ou seremos extintos - Entrevista com Johann Heyss

Atualizado: Jul 30

Entrevista por: Tatia Rangel e Frederico Machado. Equipe editorial AntropoLÓGICAS Epidêmicas.


Com mais de 30 anos de carreira, Johann Heyss é escritor, tradutor e músico, com um longo currículo de lançamentos. Recentemente trocou o Brasil pelo Uruguai. Contato: jheyss@gmail.com




P: Você se divide entre diversas profissões, escritor, tradutor, músico, professor de inglês... Qual destas ocupações tem te ajudado mais a enfrentar este período tão desgastante de isolamento?


A música, sem dúvida, porque através dela eu me desligo do mundo concreto ao redor. Curiosamente, eu já vinha produzindo discos para serem lançados neste ano, e lancei três; Acquaviva (solo), Fluxos e fragmentos (com George Christian) e Vol. 1 (com Alexandre Nakandakari), e com eles, quatro videoclipes. Mas agora estou voltando o foco para uma tradução que estou finalizando para a Presságio Editora, que é a mesma que já deveria ter lançado a Trilogia Thelema (dedicada a Aleister Crowley), mas quando os livros estavam prestes a ser impressos, a gráfica (muito acertadamente) deu férias coletivas aos funcionários. Além disso, também estou trabalhando em um romance e um livro de contos.




P: Como a pandemia tem impactado seus campos de atuação?


De início tudo foi cancelado ou postergado, como citei acima no caso da trilogia de livros. Muitos alunos tiveram de cancelar aulas por total falta de grana, houve um impacto. Mas percebo que as coisas estão lentamente voltando a se “normalizar”, mas é preciso levar em conta que eu dou aulas (de inglês, português, numerologia ou tarô) e consultas online já faz sete anos, e tradutor normalmente trabalha em casa mesmo. Já faz quase vinte anos que essa é minha rotina, de modo que nesse sentido o impacto foi quase nenhum. E como já trabalho online há tantos anos, tenho mais experiência do que a maioria nisso que agora chamam de “nova normalidade”. Mas uma coisa é trabalhar em casa o dia inteiro e sair de noite para dar uma volta, ou durante o dia ir malhar na academia. Outra coisa é passar o tempo todo dentro de casa. Se para mim, que estou habituado, dá para sentir um impacto, faço ideia de quem não está acostumado a viver enclausurado.



P: Você tem alguma leitura sobre o que estamos vivendo com essa pandemia através da numerologia?


2020 é um número totalmente líquido, sem raízes, representa dissolução, o que sugere um momento de grande humildade ou mesmo humilhação coletiva, já que o ego está totalmente destruído neste número -- o que é péssimo, aliás; fujo de quem vem com papinho de “deixe seu ego lá fora”. Essa gente sabe o que é ego, qual a função dele na personalidade? São psicanalistas? Porque não demonizam também o id e o superego? (Rsrsrs) Mas voltando ao 2020, a simbologia do número também indica que não haverá saída pela mera força bruta, é preciso convergência, cooperação e cumplicidade, do contrário, nada feito. Eu gravei um vídeo sobre esse assunto chamado “2020, coronavírus e a numerologia” que está no meu canal do You Tube (onde há playlists de vídeos musicais, de falas sobre esoterismo, veganismo e literatura).




P: A numerologia e o tarô são saberes não legitimados pela ciência ocidental. Como você concilia estes dois campos de saberes por vezes são divergentes?


O papel do esoterismo não é negar a ciência, mas oferecer métodos intuitivos e lúdicos de conhecimento que normalmente antecipam a ciência como a entendemos. Assim foi com a astrologia que originou a astronomia, por exemplo. Estudiosos de magia e esoterismo já diziam há milênios “assim em cima como embaixo”, e hoje sabemos que a estrutura da célula e do sistema solar são análogos. Crowley dizia “todo homem e toda mulher é uma estrela”, e hoje sabemos que somos feitos do mesmo material dos astros.



P: Hoje vemos um negacionismo em relação à ciência, que é muito diferente do esoterismo, e as vezes toma ares ideológicos próximos do delírio. Como você analisa este fenômeno?


É assustador. Como disse acima, o esoterismo não nega a ciência. Esoterismo não é ciência, assim como música não é ciência, e não há nada de errado nisso. Os saberes esotéricos buscam caminhos lúdicos e simbólicos para a compreensão dos seres e eventos, logo, são linguagens, não são ciência e não são religião. Isso confunde muita gente. Quem nega a ciência devia ser proibido de tomar avião, rsrsrsrs.



P: Quais impactos tem sentido na sua vida com a pandemia?


Sinto uma enorme angústia com o fim anunciado das metrópoles. Eu adoro o conceito de metrópole no sentido de reunir muita gente diferente. Adoro São Paulo, Nova York, Amsterdam, Berlim, e acho de uma tristeza desesperadora saber que, do jeito que foram projetadas, todas as metrópoles são insustentáveis. O século 20 era um sonho bonito e excitante, mas tóxico, como uma overdose. Precisamos nos reinventar como espécie ou seremos extintos. A Terra não precisa de nós, a natureza não precisa de nós, é o contrário.



P: Como está sendo no Uruguai? Como é a vida aí? (Políticas, saúde)



Amo o Uruguai, foi paixão à primeira vista. Montevideo é uma cidade pequena, mas muito variada, cada bairro tem um clima, um jeito diferente. Os uruguaios são, de longe, o povo mais amoroso e receptivo que já conheci -- e não posso reclamar dos americanos, holandeses e alemães, tenho grande amigos nos EUA, na Holanda e na Alemanha. Claro que o Uruguai não é nenhuma utopia e o povo não é composto de santos, mas aqui a solidariedade é bem mais forte e marcante do que já vivenciei em qualquer outro lugar. A esquerda ficou no poder por 15 anos e transformou o país no mais avançado das Américas em termos de políticas sociais e liberdades individuais. No ano passado pude comprovar isso quando tive crises de asma e tiver de ir à emergência de hospital público várias vezes, e fui muito mais bem tratado em termos técnicos e humanos do que jamais fui no Brasil, mesmo com plano de saúde particular. Infelizmente elegeram um candidato de direita, Lacalle Pou, pelo qual confesso não morrer de amores. No entanto, a direita uruguaia parece mais a esquerda brasileira em vários aspectos. Por exemplo, no Dia Internacional das Mulheres, a vice-presidenta Beatriz Argimón marchou junto com as feministas, como já vinha fazendo antes de ser eleita. Alguém consegue imaginar uma presidenta ou vice-presidenta brasileira, seja de esquerda ou de direita, marchando lado a lado com as feministas? O próprio Lacalle Pou, apesar de ser contra a venda de maconha pelo Estado em farmácias, é a favor da manutenção da legalização do cultivo caseiro e dos clubes de cannabis para quem não quiser cultivar. Alguém imagina um político de direita brasileira apoiando a legalização da maconha em casa e a venda em clubes?



P: Como você avalia a resposta que o Brasil tem dado à pandemia, em comparação com o Uruguai?


Aqui as pessoas não estão muito preocupadas, não. Existe, infelizmente, um negacionismo forte aqui também. É um fenômeno mundial. Mas nada que chegue perto do horror, do assombro, do escárnio e do genocídio em curso no Brasil.



Como imagina que será a retomada da vida? Das relações? Das artes?


Pergunta difícil de responder. A literatura e a música não serão tão afetadas, mas a dramaturgia… Não sei como vai se dar a produção teatral, cinematográfica, televisiva. É preocupante, digo isso como consumidor dessas artes. As últimas vezes que saí para consumir arte foram um espetáculo de dança da Deborah Colker (O cão sem plumas) e o filme Coringa. Não sei se será possível juntar pessoas em um cinema ou teatro tão cedo, não quero ser pessimista, mas confesso que a perspectiva de isso não ser mais possível é bastante estranha.





P: O que você pretende fazer assim que a vida voltar ao normal? Se é que podemos usar esta palavra…


Sair caminhando pelas ruas da cidade sem essa maldita máscara que me sufoca e me enlouquece já vai ser bom demais.



P: Gostaria de deixar alguma mensagem para nossos leitores em relação ao momento que vivemos?


Quem puder, ofereça ajuda a quem precisa. Sejam solidários. Usem a maldita máscara ao sair na rua. Tenham álcool-gel na bolsa ou bolso. Destruam o fascismo. Aceitem as desculpas de bolsonaristas arrependidos, mas não confiem nessa gente, eles vão querer botar o Luciano Huck ou o João Dória na presidência. Fortaleçam a esquerda: parem com as picuinhas entre diferentes linhas de esquerda. Parem de consumir produtos animais, a origem desta pandemia e de outros vírus está diretamente ligada ao consumo de proteína animal e ao desmatamento (ver a Declaração de Cambridge de 2012 sobre a senciência dos animais divulgada pelos maiores neurocientistas da atualidade e os escritos de Jane Goodall). Fortaleçam o comércio local, especialmente pequenos lojistas. Poderia acrescentar muita coisa, mas acho que basicamente é isso.





Saiba mais:


Como escreve Johann Heyss - https://comoeuescrevo.com/johann-heyss/


Johann Heyss on Spotity - https://open.spotify.com/artist/1iQU6w9tV52V9ElHIhqxlS


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