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v4a10| Só o Brasil cristão salva do COVID-19?

Atualizado: Jul 30

Por Olívia Bandeira é coordenadora do Intervozes; pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR/Unicamp) e do Grupo de Pesquisa Gênero, Religião e Política (GREPO/PUC-SP). Brenda Carranza é professora-pesquisadora da PUC-Campinas; Coordenadora do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR/UNICAMP); Vice-líder do Gênero, Religião e Política (GREPO/PUC-SP).


Foto: adaptação de Bishoy Asham da pintura "Christ Healing a Blind Man" (Del Parson). Disponível aqui.


No domingo 12 de abril de 2020, das 16h às 18h20, a programação da TV Brasil foi interrompida para uma “celebração de Páscoa por videoconferência”, iniciativa do presidente da República Jair Bolsonaro e da primeira dama Michelle Bolsonaro. O evento contou com a participação de 20 lideranças religiosas cristãs (17 evangélicos e 3 católicos), além de um rabino. Lideranças de outras religiões, como as de matriz africana ou o espiritismo, não estavam presentes.

Para além do debate sobre a laicidade do Estado e do uso ilegal da TV pública para a realização de proselitismo político e religioso1, gostaríamos de refletir sobre como o gerenciamento das ações de combate ao COVID-19 tem sido utilizado por setores conservadores no fortalecimento do papel da religião nas decisões políticas.

A videoconferência pascal aconteceu sob a justificativa da pandemia, que impediu cultos e missas presenciais, e foi realizada uma semana após o jejum convocado pelo presidente para o Domingo de Ramos. No evento, ao interpretar religiosamente a situação atual, essas lideranças buscavam: a) fortalecer a legitimidade da religião na política e a si mesmas como porta-vozes de um campo religioso heterogêneo, b) consolidar a imagem do Brasil como nação cristã e c) reforçar o caráter religioso nas determinações do Presidente, elevando-o a “novo messias” prestes a salvar o Brasil.

Em relação ao primeiro ponto, é importante destacar quem são essas lideranças que se aliam a Bolsonaro em seu posicionamento diante do coronavírus. São elites pastorais e parlamentares, sobretudo (neo)pentecostais, que vêm se projetando na mídia e desenvolvendo um ativismo político-religioso na esfera pública.

Entre elas, há apresentadores de programas na TV, como R.R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) e Josué Valandro Junior, da Igreja Batista Atitude, frequentada por Michelle Bolsonaro. Há aqueles que detém os seus próprios meios de comunicação, como Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus), proprietário da RecordTV, e o casal Estevam e Sônia Hernandes (Igreja Renascer em Cristo), proprietários da Rede Gospel. E há os políticos, como o deputado federal Marco Feliciano (Assembleia de Deus Catedral do Avivamento) e Robson Rodovalho, ex-deputado e fundador da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra.

Nos programas de TV e nas redes sociais, essas lideranças pressionam as autoridades para a manutenção dos espaços de cultos abertos, sob o argumento de que as igrejas seriam serviço essencial em sua dupla tarefa espiritual e assistencial2. Reforçam o argumento de Bolsonaro contra o isolamento social: a recuperação da economia seria tão ou mais importante do que as mortes provocadas pelo coronavírus. A posição dessas lideranças contra o isolamento não reflete o posicionamento do conjunto das igrejas ou dos fiéis - pesquisa Datafolha mostrou que 82% dos entrevistados eram a favor da suspensão dos cultos e missas durante a pandemia3 - embora possamos imaginar seus efeitos no desenvolvimento das ações de combate ao COVID-19.


Na videoconferência, muitas das pregações visavam ao mesmo tempo minimizar a pandemia e criar um cenário de otimismo em relação ao governo Bolsonaro. A fala de Malafaia foi exemplar: “dentro de pouco tempo o Brasil vai usufruir de um tempo de prosperidade que nunca aconteceu em nossa história e esses profetas do caos vão ficar envergonhados, porque, lógico, toda morte é uma tragédia, (...) mas a verdade é que há um espírito de pânico e medo colocado na população por interesses escusos, interesses políticos.”

O otimismo em relação ao Brasil e à pandemia é ancorado nos dois pontos. A ideia de que o Brasil estaria se tornando mais cristão – o que desconsidera as estatísticas sobre o crescimento dos “sem religião” (IBGE: Censo 2010), mas na fala dos evangélicos pode ser interpretada como o crescimento dos próprios evangélicos – e a imagem de que Bolsonaro seria um escolhido de Deus para presidir a nação.

Antes de cantar, a bispa Sônia Hernandes disse “nós louvamos a Deus por ter nos dado um presidente e uma primeira dama que temem a Deus, sabemos que Deus está no controle”. Já o bispo Rodovalho legitimou religiosamente a representação política do presidente: “eu tenho esperança na sua gestão, (...) na autoridade [com que] Deus o investiu”. O pastor René Terra Nova (Visão Celular no Modelo dos 12) foi além no “protagonismo” de Bolsonaro: “chegou a hora de Deus nos céus do Brasil. Por que isso é possível? Porque alguém se levantou e disse Senhor, o Brasil está nas suas mãos”.

Falas como essas pavimentaram o discurso final de Bolsonaro que, após narrar como sobreviveu à facada e sua eleição como “milagres”, afirmou sobre a pandemia: “Temos dois problemas pela frente, lá atrás eu dizia, o vírus e o desemprego. Quarenta dias depois, parece que está começando a ir embora a questão do vírus, mas está chegando e batendo forte o desemprego. Devemos lutar contra essas duas coisas. Obviamente que sempre lutamos crendo, acreditando em Deus acima de tudo”.

Mesmo as lideranças que não defendem o fim do isolamento social, como André Valadão, cantor e pastor da Igreja Batista da Lagoinha, e o padre cantor Reginaldo Manzotti, reforçam a ideia de uma nação brasileira cristã, cujos valores ético-morais devem orientar toda sociedade e inspirar a formulação de políticas públicas no que refere a matéria bioética e direitos reprodutivos e sociais. Sonho da direita cristã brasileira com atuação desde a constituinte de 1988 que ecoa as consignas da direita religiosa norte-americana dos anos 1960, atualizada com a visita de pastores assessores do Governo Trump ao Planalto em 2019. É essa direita cristã que se consolidou na eleição de Bolsonaro, assumiu a agenda moral como mote de campanha e se empenha na construção da ideia de uma nação cristã em combate ao coronavírus.



Notas:

1 http://fndc.org.br/noticias/bolsonaro-usa-tv-brasil-para-promocao-pessoal-e-proselitismo-religioso-924938/

2 https://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/programas-religiosos-defendem-templos-abertos-e-fe-contra-coronavirus/

3 https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/maioria-tem-medo-de-coronavirus-e-apoia-medidas-de-contencao-diz-datafolha.shtml



Texto originalmente publicado em: http://anpocs.org/index.php/publicacoes-sp-2056165036/boletim-cientistas-sociais/2347-boletim-n-33-cientistas-sociais-e-o-coronavirus?idU=3


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