• antropoLÓGICAS

Sobre a quarentena do pensamento

Por Herik Rafael de Oliveira. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (PSA-IPUSP). Contato: herik-oliveira@usp.br


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Há muito o pensamento está sob quarentena. Ao tomar negativamente a palavra mundial mais recente, não quero pôr em dúvida a urgência dessa medida no enfrentamento da situação pandêmica atual, mas a quarentena é, parafraseando o biólogo Atila Iamarino (2020), uma pequena luz, uma vela, quando deveríamos ter, no mínimo, lanternas. Não temos por que. Há muito o pensamento está sob quarentena. Ademais, não é minha intenção apontar apenas para a quarentena imposta sobre o pensamento da qual o ostensivo cerceamento das universidades dá testemunho; é necessário perguntarmo-nos sobre as prisões a cuja construção o pensamento se empresta e ele próprio é encarcerado. Enfim, ambos processos se copertencem.

O decisivo é que o pensamento se pôs em contrariedade de si mesmo. Diante da crise atual, vê-se a patente debilidade que o pensamento ajudou a produzir quando nem mesmo é capaz de mostrar como é vital a quarentena. Não consegue evidenciar que a estratégia mais elementar da qual dispomos – e com baixo nível de elaboração técnica – é, dadas as condições, a exigência mais imprescindível. Porque não há esse entendimento, a exigência pela quarentena passa a depender da crença e da propaganda para assegurar o convencimento – quando, é claro, elas ainda resguardam algum vestígio de esclarecimento e compromisso com a vida humana. Vemos o oposto: a crença que não se importa de eliminar os crentes e a propaganda fazendo coro à morte. A insistência de alguns líderes religiosos em manter os cultos e as ensaiadas campanhas publicitárias contrárias ao isolamento em nome da economia dão notícia disso.

Claro deve ficar que a quarentena é, neste texto, compreendida como medida política. Não diz respeito, em primeiro lugar, ao aspecto individualista, ou seja, ao mandamento de que as pessoas fiquem em casa. Enquanto medida política, deve garantir condições materiais para que as pessoas não circulem, tentando, assim, reduzir o ritmo da doença e preservando ao máximo todos e cada um. A ênfase nas condições materiais implica lidar com as desigualdades objetivas. Contrapõe-se à quarentena enquanto mandamento: palavra de ordem cega para os limites reais das classes despossuídas; apelo atômico. Atômico porque aqueles que apelam se portam destrutivamente com relação aos outros julgando-os como se fossem átomos que devem se virar sozinhos; quem não pode cumprir o mandamento deve ser castigado com a peste.

O retorno da peste testemunha nosso fracasso. Não que a natureza em seu movimento deixará de irromper no mundo e sobre a vida humana, que não o resume; embora sejam fortes os indícios de que, no caso em questão, o papel das atividades humanas tenha sido decisivo na propagação da doença entre humanos. O problema está em vivermos a situação, uma vez mais, como peste. Se um dia foram verdadeiras as pestes – e o que faz duvidar não é a falta de testemunhos de desgraças tais nem a subestimação de que houve, e há, forças letais à vida humana, que de fragilidade é toda feita. E sim, por esses momentos terem encontrado o aumento de sua força mais em uma organização do mundo sob o signo da dominação do que de um princípio interno –, pois bem, se um dia foram verdadeiras as pestes enquanto arrebatamento da natureza, tudo o que fizemos como obra da civilização e da cultura deveria, neste momento, nos colocar em uma posição outra diante do impasse; mas não. Encontramos aqui, fixada, a dialética do esclarecimento; tal como Horkheimer e Adorno (1944/1985) leem o processo histórico de conhecimento e busca por emancipação .

Daí o irracional de dispormos apenas de velas quando já podíamos ter lanternas. O avanço da racionalidade técnica falha e continua a nos manter no escuro sendo ele mesmo a condição para iluminar. Sua vinculação ao poder, sua conversão em instrumento da dominação da natureza e de uns sobre os outros, precisa do escuro para manter o domínio. Alienados dos avanços que a racionalidade técnica produziu, somos mantidos reféns. Sem o que esses avanços poderiam proporcionar, por medo de perder a vida, é que se arrisca a vida: por medo de não ter onde morar, por medo de não ter o que comer – pois não há garantia disso – cada um se vê, não sem racionalidade, compelido a deixar a quarentena. Aí está a crueldade da quarentena enquanto mandamento: pôr contra quem já vive um medo fundo, o medo do contágio e a culpa por contagiar. O mais pressionado é quem já está mais vulnerável.

A quarentena do pensar, seu confinamento voluntário no sítio da dominação, sustenta a indignidade humana ao não confrontar a quarentena no que tem de verdade e mentira. Ela é verdadeira em sua premência. Porém, sua defesa não pode deixar de encarar a falsidade contida no evidente anacronismo. Cabe confrontar a indisponibilidade de recursos mais efetivos no combate decorrente da falta de interesse das indústrias, do conluio da política com essa, e dos preços que aumentam exponencialmente quanto mais cresce a necessidade geral dos insumos para os cuidados.

Se tudo isso é mantido com ativa participação do pensar, a resposta não é, como se poderia pensar, deitar fora o pensamento nem a racionalidade técnica. Trata-se de recobrar a exigência de que ele tome a si mesmo como objeto, ou seja, pensar o pensamento e seus usos. É para isso que apontam Horkheimer e Adorno (1944/1985): a autoconsciência. Que o pensamento se saiba em quarentena é requisito para superar o estado de coisas e impõe, antes de tudo, reconhecer o alheamento dos fins humanos mais racionais e mais sensíveis e considerar como esse alheamento foi levado aos limites onde já chegou e nos quais reincide . O tempo solicitado por essa tarefa histórica é, por certo, maior do que o tempo que aqueles que podem ficarão em suas casas; mas há muito o pensamento está em quarentena; há muito ele já pode se libertar dela e se aliar à libertação de todos.

Em um texto tardio de Adorno (1969/2009), chamado, na versão de língua espanhola, Resignación, o autor diz o que aqui se traduz livremente: “Quem está trancado quer sair desesperadamente. Nessas situações já não se pensa, se sim, o faz com pressupostos fictícios” (p. 709). Daí retiramos que nas quarentenas, seja aquela com que nos protegemos da COVID-19, seja a quarentena do pensamento, não tomemos por saída aquilo que é só o aprofundamento da prisão, um dos sinais das saídas falsas é a sugestão de abandonar o pensamento.

Referências

Adorno, T. W. (2009). Resignación. In T. W. Adorno, Crítica de la cultura y sociedad II (J. N. Pérez, trad., n. 10, vol. 2, pp. 707-711). (Coleção Th. W. Adorno Obra Completa). Madrid: Ediciones Akal. (Trabalho original publicado em 1969).


Horkheimer, M. & Adorno, T. W. (1985). O conceito de esclarecimento. In Horkheimer, M. & Adorno, T. W., Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos (G. A. Almeida, trad., pp. 19-82). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. (Obra original publicada em 1944).


Iamarino, A. (2020). Roda Viva: Atila Iamarino. São Paulo: TV Cultura. Entrevista concedida à jornalista Vera Magalhães no programa Roda Viva da TV Cultura em 30/03/2002.





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