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Subnotificação e negacionismo: o que conta como real em uma (in)visível pandemia

Por Lucas Freire. Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS, Museu Nacional/UFRJ. Atualmente é Pós-Doutorando no PPHPBC/CPDOC/FGV.


Foto de Markus Spiske no Unsplash


A pandemia de COVID-19 que agora assola o planeta nos apresenta um quadro no qual a definição do real encontra-se profundamente atravessada por tensões sem precedentes na história contemporânea. Esses diferentes lados da disputa formulam versões distintas e contrapostas para afirmar, contestar ou recusar a existência de uma “mesma” situação, as quais variam desde as que afirmam que o novo coronavírus foi criado para redesenhar a economia global até as que defendem apaixonadamente que a pandemia é uma mentira. Segundo o que vem sendo alegado por especialistas de diferentes áreas do conhecimento e divulgado em reportagens publicadas ao longo das últimas semanas, a subnotificação é um dos maiores obstáculos enfrentados atualmente no Brasil, que é visto como um dos países que menos testa a sua população no mundo inteiro1. Nesse cenário, por um lado, o “pequeno” número de pessoas acometidas pela doença é utilizado para duvidar e até mesmo atacar as medidas de distanciamento oficialmente recomendadas; por outro, a escassez e fragilidade dos dados comprometem um planejamento eficaz de políticas de saúde para mitigar e combater o alastramento do vírus. Apontado como um denominador comum a ambos os problemas: o desconhecimento da realidade da pandemia de COVID-19.

Diante disso, arrisco dizer que as perguntas que mais intrigam algumas pessoas – em especial os cientistas das chamadas “ciências duras” – são: como determinadas ideias sobre a origem, a letalidade, as formas de contágio e os potenciais tratamentos da COVID-19 permeiam o tecido social com mais facilidade e enraizamento do que o dito discurso científico e objetivo? Por que o “acesso à informação” não se traduz imediatamente em práticas de prevenção padronizadas e adotadas tanto pelos indivíduos quanto por governantes em todos os lugares do mundo? De que maneira a absorção e até mesmo a própria consolidação do conhecimento biomédico estão subordinadas à aceitação ou validação social? E, finalmente, como podem certos grupos ou sujeitos não acreditarem na pandemia?

Para os cientistas sociais, a ideia de que a “realidade” resulta de uma construção social é um lugar-comum. Pontuamos há muito tempo que as categorias empregadas para compreender e dar sentido ao que nos rodeia dependem do estabelecimento de convenções e acordos coletivos que são, por vezes, mais e menos explícitos. Ademais, a fabricação social da realidade torna-se ainda mais realçada quando observamos como se dá a institucionalização de algo enquanto um problema social. Para Lenoir2, esse processo pressupõe um “trabalho social” dividido em duas etapas: o reconhecimento, que é um primeiro passo que torna o problema visível, compreensível e mensurável; e a legitimação, que é a fase seguinte e compreende a inserção do problema no campo das preocupações públicas que necessitam uma resolução emergencial.

Por outro caminho, antropólogas/os interessados em estudar a importância dos documentos vêm demonstrando por meio de suas etnografias as variadas maneiras com que certidões, ofícios, relatórios, decretos, dentre outras formas assumidas por essa “papelada” não necessariamente refletem, representam ou descrevem a realidade que se encontra diante dos nossos olhos; mas sim que possuem uma força social3 própria e operam ativamente para que determinadas coisas sejam atestadas, dando a elas um estatuto de verdade e realidade. Ao destacar o papel de um “documento” nesse processo, atenta-se para os modos como algo adquire não apenas o reconhecimento da sua presença, mas também uma outra “camada de realidade”, que em dados contextos poderíamos chamar de “oficial”. Além disso, buscamos também destacar que essa nova “camada da realidade” não necessariamente se sobrepõe de modo a cobrir a precedente e nem é menos importante do que qualquer outra.

Um desdobramento dessa preocupação mais ampla com as propriedades sociais dos documentos e registros oficiais busca destacar o lugar ocupado por esses papéis no funcionamento da administração estatal e no desenho de políticas públicas. Algumas das investigações que partem de uma abordagem etnográfica descrevem as políticas públicas como tecnologias do exercício da governamentalidade manejadas por órgãos estatais e paraestatais. Grosso modo, a principal argumentação veiculada nesses trabalhos é o de que as instituições e agências que cumprem funções de Estado influem, manipulam e direcionam a percepção social acerca das questões que elas próprias formulam como problemáticas.

Enquanto antropólogo afinado com essas discussões, acredito que um dos maiores desafios que enfrentamos no momento é o de apreender como esquemas de percepção e concepção de algo tão microscópico e invisível quanto um vírus alcançam níveis variados de penetração e legitimação social em diferentes momentos e/ou circunstâncias. Ou ainda, entender como ocorre (ou não) o reconhecimento e a legitimação da pandemia de COVID-19 enquanto um problema social em diferentes escalas, âmbitos e contextos. Creio que as Ciências Sociais – principalmente a Antropologia – possuem em seu arsenal instrumentos que nos permitem refletir e elencar o que conta como real e o que é descartado pelos sujeitos em uma dada conjuntura, até mesmo porque somos atores fundamentais na identificação e legitimação de realidades outras.

No atual quadro de subnotificação, circulação de informações desencontradas, disseminação de fake news e negacionismo, tenho a impressão de que é possível encontrar algumas pistas iniciais para entender o ímpeto de desconfiança e questionamento da seriedade – quando não da própria realidade – da pandemia na incapacidade e/ou falta de vontade dos órgãos governamentais de produzir dados fidedignos sobre o avanço da doença em território nacional. Afinal de contas, a maneira como a presidência da república e certos setores do governo federal brasileiro vêm negando a gravidade da COVID-19, por um lado, e como a mídia tem tratado a notificação dos casos e apresentado as estatísticas sobre o seu desenvolvimento, por outro, são componentes centrais na contenda pela produção de uma “imagem pública” da pandemia e, consequentemente, sugestionam o quanto as pessoas sentem, percebem e vivenciam esse fenômeno como algo “real”.

A partir dos argumentos apresentados anteriormente, julgo que é possível perceber facilmente a relevância dessas estatísticas e números para a construção de interpretações e entendimentos que dão a um determinado problema uma magnitude que exige e legitima uma incontornável intervenção estatal. Assim, ciente do poder dos documentos e dos registros oficiais na construção de realidades sociais, afirmo que devemos nos empenhar em qualificar essa demanda e fazer coro com os diversos profissionais que sublinham o processo dinâmico de retroalimentação que ocorre entre o negacionismo da pandemia de COVID-19 e a subnotificação da quantidade de infectados e mortos pela doença, bem como pressionar os gestores públicos por uma maior eficácia das políticas de testagem e diagnóstico.

Entretanto, não podemos estacionar nesse ponto. Também é necessário que estejamos alertas ao perigo de colocar a testagem em massa como uma espécie de panaceia, sobretudo quando se objetiva combater uma postura cínica, contrária à ciência e negacionista. Cabe a nós ressaltar que na indagação acerca do que conta como real na situação atual, o verbo contar possui tanto o significado de calcular e contabilizar, quanto o de importar, valer e ter em consideração. Isto é, para deslindar o processo de construção social da realidade da pandemia de COVID-19, precisamos explorar e levar a sério a sua dupla dimensão: uma quantitativa (que alguns chamariam de “objetiva”), calcada nas estatísticas e produção de bancos de dados sobre o número de mortos, infectados e recuperados; e outra qualitativa (que poderia ser chamada de “subjetiva”), que é constituída pelas ideias, crenças, pesquisas etc. que são consideradas ou creditadas na conformação de uma interpretação ou enunciado sobre o assunto.

Nesse sentido, penso que uma das mais significativas e importantes contribuições que os cientistas sociais podemos oferecer nesse momento diz respeito à compreensão do modo como as pessoas percebem a realidade pandêmica do novo coronavírus no seu cotidiano e como elas atribuem sentido às experiências vividas. Para isso, contamos, por exemplo, com nossa experiência e capacidade de rastrear e mapear as controvérsias, disputas e relações de força que atuam na formação de consensos e dissensos. Mais do que nunca, precisamos nos ater aos modos pelos quais os discursos classificados negacionistas, alarmistas, moderados e técnicos de distintos atores sociais – políticos, chefes religiosos, lideranças comunitárias, especialistas, cientistas, profissionais de saúde, dentre muitos outros – circulam, influenciam e (des)estabilizam percepções e definições coletivas relativas à pandemia. Em suma, penso que podemos e temos muito a colaborar se colocarmos nossas ferramentas teóricas, metodológicas e analíticas a serviço de apreender que elementos são mobilizados e operam na produção de realidades em distintos contextos e cenários, bem como as formas pelas quais as pessoas dão materialidade, substância e nitidez à (in)visível pandemia que nos cerca.


Fonte: Elaboração própria a partir de dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde.

Atualização: 19/04/2020.


Notas:


1 Ref:https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/coronavirus-brasil-o-pais-que-menos-testa-entre-mais-atingidos-pela-covid-19-24363482

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-24/com-gargalo-de-testes-para-coronavirus-brasil-ve-so-a-ponta-do-iceberg-com-seus-2201-casos-e-46-mortes.html

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52145795


2 LENOIR, Remi. Objeto sociológico e problema social. In: CHAMPAGNE, Patrick et al. (org.). Iniciação à Prática Sociológica. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 59-106.

3 FERREIRA, Letícia. “Apenas preencher papel”: reflexões sobre registros policiais de desaparecimento de pessoa e outros documentos. Mana, vol. 19, n. 1, 2013, p. 39-68.



Texto originalmente publicado em: http://anpocs.org/index.php/publicacoes-sp-2056165036/boletim-cientistas-sociais/2348-boletim-n-34-cientistas-sociais-e-o-coronavirus?idU=1

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