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v2a48| Supermães, superprofessores e superalunos em tempos de PANDEMIA

Atualizado: Jul 29

Por Eliane Regina Pereira. Professora do Mestrado em Psicologia na Universidade Federal de Uberlândia





Supermães[1], superprofessores e superalunos em tempos de PANDEMIA

A maternidade é para os fortes. Acredito muito nisso. Não estamos falando em 9 meses de gestação, nem em parto, estamos falando do trabalho diário de mediar a formação de um sujeito, que desejamos, se torne gente com G maiúsculo. O que por si só já é muito, em tempos de pandemia exige um esforço imensurável.

A COVID-19 alcançou o Brasil e rapidamente mudou nossas rotinas. Já havíamos lido sobre a peste negra, sobre a gripe espanhola, sobre outras pandemias, mas nós nunca havíamos imaginado experienciar algo parecido em nossos corpos.


Nossa rotina se modifica. Sofremos pelo nosso isolamento, pela perda da rotina, mas sofremos igualmente pela impossibilidade de acesso ao isolamento por grande parte da população. Temos medo por nossas vidas, pelas vidas daqueles que amamos, mas tememos pela vida dos desconhecidos, dos trabalhadores das chamadas profissões necessárias. Antecipamos e choramos nosso luto e choramos ainda mais a dor dos desconhecidos já enlutados nesse início de pandemia.


E no meio de tudo isso, as escolas decidem que não podem parar. Sim o slogan é “a educação não pode parar”. Como parar se a educação tem um currículo mínimo para cumprir? Como parar e prejudicar a aprendizagem das crianças-alunos? E claro, muitos educadores sabem que a aprendizagem não se resume a transmissão de conteúdo, mas nesse momento é dela que estamos falando.


Eu! Eu sou mãe e juro que no primeiro momento achei vantajosa a proposta. Não porque me incomoda ter contato com meu filho 24 horas por dia, porque maternidade é período integral. Ou porque tenho que inventar novas brincadeiras para manter sua atenção, até porque acredito que um exercício importante para a criança é aprender a dar conta de si mesma, no tédio, no não saber, na solidão. Apoiei as aulas online – exclusivas em tempos de isolamento - pois desejava que de alguma forma ela oferecesse a criança uma possibilidade de um encontro, mesmo que virtual com a rotina perdida e com seu grupo de iguais. Mas, 30 dias depois do início do isolamento e desse exercício de descobrir a escola online, percebo que só fazem aumentar as angústias dos isolados.


Professores estão sofrendo porquê da noite para o dia tiveram que se repensar. De professores a Youtubers. Alteram-se suas carreiras. Da sala de aula para a sala virtual. Alteram-se as plataformas de ensino. Das apostilas e livros para os longos slides e roteiros de estudo. Alteram-se os recursos didáticos. Mas, claro, a única coisa que não se pode alterar é o conteúdo e a avaliação, afinal, como garantir a aprendizagem e medir a “apropriação do conhecimento”?


E professores, vocês todos sabem, não são homens e mulheres como eu e você, portanto, não sofrem por também estarem isolados, enlutados, medrosos.


Crianças-alunos sofrem pela perda de contato. Agora não veem mais seus colegas e nas salas virtuais não devem manter suas câmeras ligadas. Sofrem porque ir à escola significa se afetar a cada encontro com as pessoas, com as coisas, com os processos. Sofrem pela cobrança exagerada. Por conteúdos que precisam ser aprendidos com mediações que chats nenhum dão conta. Agora, toda reflexão sobre mediação de aprendizagem foi descartada e estamos focados na apropriação do conteúdo. Não há encontro, não há trocas. Há tarefas a cumprir, provas online a responder.


Mas crianças-alunos como todos sabem, não são adultos em miniatura, portanto, não estão sofrendo por também estarem isoladas, enlutadas, medrosas.


E as mães. As mães assumiram ainda mais as tarefas domésticas. Nossa jornada dupla agora é jornada em tempo integral. Nós mães, somos convocadas ao home office, sem intervalos para o café, pois nos intervalos assumimos as dúvidas escolares. As mães viraram da noite para o dia especialistas em matemática, geografia, ciências, etc. Como fazer, se a criança-aluno não consegue trocas com os professores? Com quem ela troca?


E mães, vocês todos sabem, não são gente como eu e você, portanto, não sofrem por também estarem isoladas, enlutadas, medrosas.


Vivemos uma crise. Uma pandemia que nos isolou. Não precisamos de supermães, de superprofessores e de superalunos. Precisamos de tempo, de afeto, de cuidado.


Dizem, fique em casa, higienize as mãos, se exercite, medite, durma bem, se alimente bem, mantenha uma rotina de trabalho. Faça. Não desanime. Repense suas prioridades.


Ouço muitos falarem do pós-pandemia. Do sonho de sairmos desse isolamento melhores. Mas como sairemos melhores? Precisamos decidir que tipo de sujeito queremos ser, que tipo de filho desejamos que se torne, que tipo de aluno queremos educar. Sonhamos com uma sociedade pós-pandemia que mantenha as relações de competitividade, de exploração, de desigualdade social do jeito que vivemos hoje ou desejamos uma sociedade com seres humanos melhores, comprometidos com o bem-estar de todos, com a saúde para todos, com educação para todos, com ética?


Se eu e você precisamos repensar prioridades, quando a escola vai de fato repensar suas prioridades?

O que a comunidade escolar ganha com as aulas online, se não há processo de criação? Não há pensamento reflexivo. Não há encontro, contato, afeto. Há apenas frustração de professores, alunos e mães.

Não digo com isso que devemos abandonar tudo. Mas, se acreditamos e desejamos uma sociedade melhor, precisamos parar agora, desacelerar, repensar e caminhar lentamente.


Nossa vida mudou. São tempos difíceis. Mas não podemos aumentar a dificuldade.


Crianças-alunos precisam de chats que não sejam ferramentas de mão única e que permitam a elas a expressão de suas angústias. Precisam de momentos de câmeras abertas que permitam encontros. Precisam de momentos com som aberto para ouvirmos o barulho ensurdecedor dos amigos.


Professores não precisam transmitir tanto. Precisam ouvir. Precisam ser ouvidos. Precisam se sentir seguros na sua condição de professor. Precisam ser lembrados que “menos, pode ser mais”.


Mães precisam ser lembradas que não estão em casa na função de professoras. Estamos aqui para acolher nossos filhos, para dar apoio emocional, para estimula-los de modo que saibam pedir ajuda aos professores, aos colegas. Podemos ajudar no contato, e potencializar seus recursos na busca por solucionar suas dúvidas, mas não solucionar as dúvidas.


Desejo que o pós-pandemia seja uma verdadeira revolução. Uma revolução dos modos de ser e viver. Uma revolução educacional. Que professores sejam respeitados, que crianças-alunos sejam acolhidos, que mães sejam menos cobradas e que todos aprendamos a andar mais devagar.

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[1] A expressão remete a heroína D. Clotilde, The Supermãe, personagem de Ziraldo.

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