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"Tem dia que eu me sinto como os músicos do Titanic" - Entrevista com Daniel Albinati

Por Frederico Viana Machado. Equipe Editorial AntropoLÓGICAS Epidêmicas.

Daniel Albinati é produtor musical e DJ, um dos nomes por trás da conhecida banda de música eletrônica Digitaria, iniciada em Belo Horizonte no ano de 2004. Desde 2013 vive em Barcelona e atualmente se dedica também ao seu projeto solo, Daniel Watts, e ao selo Clash Lion Records. Nesta entrevista, conversamos sobre os impactos da epidemia em seu trabalho e sobre a experiência da vida cotidiana da Espanha, um dos países mais afetados pela Covid19.


1. Como tem sido viver em Barcelona, uma vez que a Espanha é o segundo país mais afetado pelo Coronavírus?

Bom, estou vivo e saudável, o que já é uma grande vantagem. O país está completamente parado e as pessoas confinadas às suas casas - as únicas coisas que estão abertas são supermercados e farmácias, e você tem que ir na mais próxima da sua casa. O estado está levando isso muito a sério, a polícia multa e prende mesmo quem estiver na rua sem justificativa. O mundo lá fora parece um filme de ficção científica, as ruas totalmente desertas, as praças, as estradas.

Nos supermercados (que vou uma vez por semana), o clima é super tenso, todo mundo de máscara, nervoso e mantendo as distâncias de segurança. Eu não tenho raízes aqui e não conheço nenhuma vítima do Covid, mas creio que uma imensa parte do povo espanhol nato deva ter alguém mais ou menos próximo que faleceu. É um país sob uma pressão gigantesca, de stress e tristeza.

Todos os dias as 20:00 as pessoas vão pras sacadas dos apartamentos e ficam uns 5 minutos batendo palma e cantando em homenagem aos profissionais de saúde. É praticamente a única hora do dia que eu vejo as outras pessoas, todo mundo com cara de desânimo e cansaço, mas ali, batendo palmas. Cinco minutos de doçura e esperança no meio da peste.

2. Como isto afetou o mercado de produtores e djs?

Absolutamente todas as festas de todos os lugares foram canceladas. Como vivemos disso, pode-se dizer que a renda de todo mundo caiu para algo próximo de zero (porque existem as vendas de música, mas é uma mixaria). Obviamente não somos o único grupo afetado - restaurantes, lojistas, bares, a imensa maioria das pessoas está temporariamente desempregada. Ninguém sabe quando as coisas vão voltar, e como. Os restaurantes vão ter que viver um tempo com 1/3 das mesas, cada uma a dois metros da outra. Quanto a clubes e festivais, que é de onde eu tirava dinheiro, creio que vai ser a última atividade a voltar ao normal (se é que ainda é permitido usar essa palavra).

Os grandes/ricos vão poder se manter por um, dois anos sem trabalhar até que tudo se normalize. Os menores vão ter que contar com uma certa sorte. Deve rolar um desemprego em massa, não só na minha área.

3. Do ponto de vista psicológico, como tem sido para vocês, que estão acostumados a tocar em festas e shows, ficarem tanto tempo isolados do mundo?

Acho que estamos enlouquecendo mais ou menos como todo mundo. Depois de um mês trancafiado em um apartamento acho que não tem uma pessoa mais nesse país que não esteja sofrendo. Eu ainda me considero uma pessoa de muita sorte – vivo num apartamento grande, divido com um amigo, temos nossos estúdios, ele cozinha bem, etc. Fico imaginando casais com muitos filhos, gente que não se dá muito bem, pessoas com problemas de convivência... Essas devem estar passando os piores dias de suas vidas. Quem não pode trabalhar em casa e tem que ficar dois meses sentado num sofá.

Na primeira semana de confinamento eu estava olhando pela janela de madrugada (agora eu entendo os gatos que ficam o dia todo olhando o mundo lá fora pela janela) e do nada sai um senhor com um edredom e um travesseiro e entra num carro e vai dormir. Pensei "é, esse casamento não durou uma semana de convivência".

Já temos um mês de confinamento e mais um pela frente. Os números de violência doméstica aumentaram muito. Ouvi dizer que os de suicídio também. Quem nunca viveu essa experiência - um confinamento sério - não sabe o que é. Tenho certeza absoluta que os consultórios de psicólogos e psiquiatras vão estar lotados quando acabar isso.

4. A música tem ajudado a tornar esse tempo isolados do mundo em uma experiência minimamente interessante?

Ah, nada demais. É claro que ajuda a passar o tempo escutar música, ler, ver filmes e tal, mas pouco. É difícil se entregar à fruição de uma obra de arte durante o fim do mundo.

5. Como vocês acham que isto vai impactar o cenário musical após o término dos períodos de isolamento? Minha pergunta é mais estética do que econômica. Vocês acham que os estilos refletirão mais sentimentos de liberdade e união ou de medo e desesperança?

Acho que ambos. Imagino que deva vir uma corrente bem obscura que reflita o que está passando, todas as mortes e a depressão econômica e as guerras que devem pipocar por aí. Ao mesmo tempo também creio que deve vir por aí um surto de hedonismo e positividade quando tudo começar a afrouxar um pouco.

6. Como tem sido viver longe da família? O que você tem falado com os familiares?

Eu já vivo aqui na Espanha há 7 anos, então estou acostumado a viver longe da família. Conversamos com frequencia pela internet. Como tá todo mundo em casa meio sem fazer nada, essa frequencia cresceu bastante – tem os grupos da família onde todo mundo fica mandando memes e fotos de criança o dia inteiro. Acho que é a forma deles lidarem com a angústia do que está vindo.

Como a Espanha é um país com muitos infectados e mortos, muita gente me escreve – familia e amigos – perguntando como eu estou. Se isso tudo teve um lado positivo, foi de me reconectar e me aproximar com algumas pessoas do passado.

7. Como vocês avaliam a resposta que o Brasil tem dado à epidemia, em comparação com a Espanha?

A Espanha demorou muito para fazer o isolamento social e o número de testes é insuficiente. É óbvio que o governo errou, basta olhar os números (assim como os EUA, o Reino Unido, a Itália...). Mas absolutamente nada no mundo se compara ao Brasil, porque acho que é o único país no planeta onde o presidente parece querer matar o maior número possível de pessoas. É uma situação ímpar e chocante. Além da desgraça completa das mortes e da economia, o Brasileiro ainda tem que lidar emocionalmente com o terrorismo diário do presidente e seus asseclas – as igrejas, as carreatas, etc.

Eu tenho amigos que trabalham no NHS no Reino Unido e me relatam coisas terríveis. Quando eu penso o que está acontecendo por lá e nos EUA e penso na distância econômica e de estrutura entre esses países e o Brasil, não consigo nem imaginar direito a catástrofe que pode acontecer. O número de testes no Brasil é ínfimo e as pessoas não estão respeitando o isolamento de uma forma séria. Não tá dando pra ser muito positivo quando penso nisso.

8. O que vocês pretendem fazer assim que a vida voltar ao normal? Se é que podemos usar esta palavra...

Não sei nem o que vou fazer antes da vida voltar ao normal. Se eu conseguir me segurar financeiramente até "a volta ao normal", acho que devo ficar mais ou menos no mesmo ramo de trabalho. Creio que a realidade deva mudar bastante nos próximos meses para todos – professores, garçons, microempresários, médicos, artistas, todo mundo. No começo disso tudo eu ainda fazia uns exercícios de futurologia "ah, acho que quando acabar as pessoas vão fazer sei lá o que". Agora já nem arrisco mais. Acordo e vou fazer música. Tem dia que eu penso "quando isso acabar, tenho que ter um bom material em mãos". E tem dia que eu me sinto como os músicos do Titanic, ali tocando pra ninguém enquanto o barco afunda. Acho que ninguém sabe de mais nada com certeza, né?










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