• antropoLÓGICAS

Tempos difíceis?

Por Fernanda Bravo Rodrigues. Mulher Transexual, Cientista Social e Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Membro do grupo de pesquisa PARALAXE.


Photo by Michael Dziedzic on Unsplash

Nesses dias que passaram, dias muito diferentes da dinâmica social que estamos habituados, me peguei pensando em alguns aspectos da nossa vida em sociedade. Sabe aquele ditado que diz: "às vezes é necessário se afastar para enxergar o óbvio"? Pois bem, esse ditado pode ser útil aqui, ou melhor dizendo, a este momento de isolamento social em virtude do coronavírus. Entretanto, tal análise - ou simplesmente um olhar - não pode ser vista sem uma percepção de alguns marcadores que visam​ perpetuar a verticalização dos humanos dentro de enquadramentos que explicam, mas não justificam, seu lugar de pertencimento. Tal qual uma ordem biológica, os ditames socioculturais também fazem essa separação taxonômica no que tange ao "habitat natural" de ocupação, ou desocupação - por ser negada a oportunidade de se ocupar - pelos ocupados dentro do sistema capitalista.

O diálogo é uma das forma de cuidar de quem amamos neste momento e fortalecer a relação. Lembrei-me de uma conversa corriqueira com meu amado companheiro, em que ele ressalta esse aspecto: "existem análises impossíveis de ser compreendidas se não levar em conta os marcadores sociais". Bingo, meu amor! De fato, pensar o social, sem contudo, refletir suas intersecções de gênero, classe, raça, idade, sexualidade e sistema capitalista, seria paradoxal à compreensão da taxonomia social, a qual anteriormente me referi. É notório que, neste cenário, violências de todos os tipos, principalmente a violência de gênero, no que tange ao âmbito privado, atingem a mulher e pessoas com qualquer performance que seja interpretada como feminina, tanto para casais lidos e/ou aceitos como normativos (Cisheteronormatividade), quanto para casais que, embora fora dessa bolha ideal, classificados como homoafetivos, reproduzem uma ordem machista e elegível em graus de masculinidade/ feminilidade sobrecarregando de tarefas aos que se enquadram neste e não naquele lugar que designa de quem é o poder. Isto é, os que são agraciados com privilégios em uma sociedade que reproduz, e, em sua maioria reforça o patriarcal/machismo.

Embora o vírus seja, externamente, democrático, no que concerne aos ideais dessa forma de governo, a cultura da desigualdade continua sua manutenção seletiva tanto no que diz respeito às classes quanto às raças. A falsa solidariedade burguesa, como diria Marx, nunca esteve tanto em moda. Essa nova roupagem que as classes favorecidas adotaram atende pelo nome de empatia, uma forma cínica de cuidados com "o próximo" para que a imunidade de alguns possa estar salvaguardada diante da pandemia. Mas por que essa empatia não existia antes?

Vejo a mídia mostrando praças lotadas de pessoas que, outrora, nem vistas eram, esperando por suas marmitas e sua laranja, pois, o mundo do nada aprendeu a empatia. Será? Conheço muito bem a realidade das ruas, pois, em me identificar como mulher transexual numa sociedade cisnormativa, já tive que vivenciar essa amarga experiência, e nunca vi tamanha empatia com os " desiguais " como presencio em tempos de coronavírus. Porém, o que me preocupa diante desses questionamentos não é o modelo " solidário ", mas o posterior a essa crise causada pela pandemia. Tudo voltará ao seu lugar? Quem se preocupará com a imunidade dos desvalidos? Será que o descaso, do sistema capitalista, irá se ancorar na prevista crise econômica para justificar sua natureza desigual?

Povo preto e pobre sendo constantemente assolado, massacrado, humilhado, disputando um tal de auxílio emergencial do governo para sobreviver. O racismo e o classismo fazendo suas vítimas para além do vírus, mas não fica bonito noticiar isso, né? Parece até "vitimismo", acusam. O capitalismo fazendo suas vítimas até mesmo entre os subalternos, a exemplo, da cafetina[1] que mandou matar uma prostituta por ela não estar pagando suas diárias, em sua casa, em virtude da escassez de clientes. Vítimas, portanto, não apenas de um coronavírus, mas de uma estrutura que no mínimo deve ser repensada. Penso na pandemia não como uma oportunidade "divina" de repensarmos esse sistema, pois, os que se denominam cristãos, têm oportunidades todos os dias e fazem de conta que não veem. Penso sim, em uma oportunidade de reinventarmos esse mundo, essa estrutura hierarquizadora de seres humanos, cheia de desigualdades sistemáticas, no que tange ao gênero, a classe, a raça ou outros marcadores além dessa tríade, que se intersectam. Qual mundo queremos diante desse comportamento democrático do coronavírus que desnaturaliza a máxima de que as coisas são assim porque são assim?


[1] Indivíduo que indiferente de gênero comanda um determinado espaço de prostituição e, por isso, tem que ser paga (o) para, teoricamente, permanecer fazendo a manutenção de segurança dos sujeitos que se prostituem.

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