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v5a4| Tensões Geopolíticas e Pandêmicas no Brasil atual

Atualizado: Jul 30

Por: Ivete Iara Gois de Moraes. Enfermeira pela UPF -2003, Acadêmica do curso de Psicologia pela FAMAQUI -2019, Especialista: Emergência, em Direitos Humanos pela FURG e, em Informação Científica e Tecnologia em Saúde; Alciclaudia Aparecida Caetano. Acadêmica do Curso de Processos Gerencias do IFRS –Instituto Federal do Rio Grande do Sul; Hianca Mello Neves. Enfermeira pela Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO). Especialista em Enfermagem do Trabalho pela Faculdade São Camilo; Quellen dos Reis Munhoz. Acadêmica do Curso de Bacharel em Enfermagem da FACTUM (Cursando -2021); Cristianne Famer Rocha. Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professora Associada da Escola de Enfermagem da UFRGS.


Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Inda pago pra ver

O jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar

Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

Que esse dia há de vir

Antes do que você pensa.

(“Apesar de Você” - Chico Buarque)



Photo by Martin Sanchez on Unsplash


Não é possível mais levar a vida como no mês passado ou nos anos passados. E o mês passado parece que aconteceu em outro século. A partir do momento em que a morte exerce permanentemente uma força de tensão no cotidiano, as angústias se transformam em adoecimento psíquico para além das questões da manutenção da produtividade econômica. Esta fonte de contradições (distanciamento social ou manutenção da produção econômica) acarreta condições limítrofes, entre o viver e o morrer em meio à pandemia. Trazemos, aqui, uma reflexão sobre as questões pandêmicas no panorama brasileiro, suas manifestações no cenário de quarentena e distanciamento social e as questões políticas, sociais e culturais envolvidas nestas tensões.



Tensões que provocam reflexões


Enquanto o adoecimento e a morte estavam do outro lado do mapa, estávamos apreensivos, mas à medida que o adoecimento da COVID-19 chegou ao Brasil, nos tornamos reféns, não só do Coronavírus, mas de um sistema que apresentou, antes de tudo, um colapso político e que, muito rapidamente, invadiu nossas vidas, nosso trabalho, nossa sociedade. O efeito elástico de entrar, sair de quarentena, nos levará a uma calamidade pública, nesta guerra esmagadora que se eleva para além do cenário político. Esta se tornou uma guerra de sobrevivência.


Sobreviver ao vírus, em isolamento social, é até algo óbvio, o que não é cercado de muita objetividade é a angústia que invade nossas vidas diárias, pelos meios de comunicação. Afinal, será que conseguiremos viver com tamanho volume de informações ou morreremos engasgados por tudo o que nos fazem captar constantemente na mídia? Conscientemente, sabemos que a quarentena salva vidas, mas somos induzidos a pensar que a economia “não pode parar”.


Roubaram-nos a paz, tiraram nossos direitos (e nos oferecem simplórias migalhas, como se fossem doações), nos exoneraram de nossos sonhos, complexificaram o básico dos benefícios sociais. Nos restou a passividade, a resignação de uma sobreposição econômica à democracia política, adoecimento e morte, de um povo fadado a seus governantes e amparados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sempre mais ameaçado e fragilizado.


Não é possível mais levar a vida como no mês passado ou nos anos passados. E o mês passado parece que aconteceu em outro século. A partir do momento em que a morte exerce permanentemente uma força de tensão no cotidiano, as angústias se transformam em adoecimento psíquico para além das questões da manutenção da produtividade econômica. Esta fonte de contradições (distanciamento social ou manutenção da produção econômica) acarreta condições limítrofes, entre o viver e o morrer em meio à pandemia.


Não sabemos quais serão os reais danos do CoVID-19 no território brasileiro, quais serão suas formas oportunistas de se manifestar política, econômica e quais as sequelas sociais. Contudo, temos a certeza de que em algum momento deverá haver uma reação, uma vacina, não só para o Coronavírus, mas um tratamento que nos cure de uma foram de viver doentia, que não consegue enxergar o mundo como um organismo só, geoconectado, onde o coração está na própria vida da natureza.


Um coração que pulsa e traz dos pulmões uma última expiração, agônica do adoecimento pandêmico, podendo levar à falência de toda uma geração, antes conectada pela globalização e que, agora, se vê sozinha, isolada com sua cronicidade agudizada pela perversidade humana. Afinal, diante de tantas tensões, seremos capazes de nos recolocar geopoliticamente em um cenário de reconstrução da sociabilidade sob a égide de novos paradigmas humanos?


Não há como negligenciar a conexão online da visão de corpos mortos, amontoados em hospitais, em câmaras frigoríficas, nas ruas, perdidos no isolamento de suas casas e encontrados sem terem tido nenhum socorro, além daqueles incendiados pelo desespero de um país equatoriano em colapso. Ou ignorar países que não conseguiram chorar seus mortos, porque o pranto será de um luto eterno.


O vírus se mundializou democraticamente, sem escolher raça, cor, gênero, sem ver a quem. O COVID-19 democratizou a chance de adoecimento e morte em todo o mundo e não há mais país que permaneça ileso às consequências (in)visíveis do cenário ilustrado na cor vermelha que aponta os casos de infectados de acordo com a data e contaminação, na figura a seguir:

Figura 1- Mundialização do Vírus:


Fonte: The Guardian (abril de 2020)


Enterros enfileirados e solitários em um Brazil (com z, porque o original deixou de ser estatal) que optou pelo modelo norte americano de encarar a epidemia[1]. E agora? O vírus foi globalizado, mas a pior crise é a nacional no Estado Suicidário (SAFATLE, 2020), onde as estratégias financeiras se deslocam dos meios de produção para os meios de destruição em prol da sobrevivência dos mais fortes e jovens, em detrimento das populações vulneráveis pela doença crônica ou pela idade cronológica avançada.


O impacto da pandemia dependeu e depende das ações dos governos, suas medidas de quarentena e adesão ao isolamento social, bem como medidas de Saúde pública efetivas. No caso brasileiro, o que houve foi a ausência de ações: dois Ministros da Saúde pediram demissão de seus cargos e o país ficou a mercê da (in)decisão por um candidato que se adequasse às exigências de uma arbitrariedade medicamentosa[2]; talvez, uma forma contemporânea de subjugar a vida à imperiosa influência política[3] da morte, reconfigurando profundamente as relações sociais, democráticas que interferem na vida (ou morte) individual e da coletividade (MBEMBE, 2018).


Dados estatísticos dependem do número de casos corretamente diagnosticados, o que no caso do COVID-19, depende principalmente da quantidade de exames diagnósticos realizados de forma adequada. Relacionando o número de óbitos definido pela causa da morte e o número de pessoas que foram contaminadas por tal doença.


O atual governo brasileiro, arbitrário e guiado por uma lógica necropolítica que amontoa corpos doentes e atestados de óbitos em todo território, impõe aos brasileiros um sistema de saúde fragilizado, fazendo uso político-econômico de uma estratégia que camufla subnotificações de diagnósticos imprecisos, fato que não permite ao mundo visualizar o real cenário dos óbitos causados pelo COVID-19 nos dados estatísticos apresentados e que, muitas vezes, divergem entre si ou não demonstram a realidade pandêmica dos hospitais e cemitérios. Além disso, no dia 7 de Maio de 2020, houve a notificação por parte da mídia de que o Governo Bolsonaro impôs um apagão de dados sobre a Covid-19 no Brasil, noticiado pelo jornal El país na manchete de que: “O portal do Ministério da Saúde excluiu o número total de infectados pelo novo coronavírus e, o acumulado de óbitos no país desde o início da pandemia, sendo que também foram apagadas do site as tabelas da curva de evolução da doença desde que o Brasil registrou seu primeiro caso, no final de fevereiro, e gráficos sobre infecções e mortes por Estado”[4].


O Brasil se vendeu sem ter dado seu preço neste atual (des)governo. O brasileiro está fadado a ser um número: contaminado, em risco, levado a óbito. Nada mais além de um número, um cadastro de pessoa física embargado pela obrigatoriedade militar ou descartado pela facilidade de reposição como peça da engrenagem capitalista, estamos à mercê de um complô mercenário e em meio a uma pandemia. Como sobreviveremos, se sobrevivermos?!


Como seremos capazes de nos tornarmos mentalmente saudáveis novamente, após escolhermos entre a vida e a morte? Pessoas comuns tendo que tomar decisões de saírem da quarentena em nome de seus salários, necroempresários estimulando que a classe trabalhadora se exponha à contaminação pelo coronavírus, sem sequer dar condições de proteção, profissionais de saúde tendo que se expor a jornadas de trabalho em condições desumanas que os farão escolher entre quem vive e quem morre, em um sistema intensivista que logo entrará em colapso. Tudo isso porque temos um governo desgovernado, onde a economia se sobrepôs à política.


Em meio a este cenário de adoecimento e morte, o povo está à mercê dos desmandos governamentais, fadado a ser “combatido” ou pelo vírus ou pelo seu próprio sistema governamental, que tenta priorizar questões financeiras em detrimento de corpos despersonificados em números estatísticos.


Em analogia (talvez inadequada), podemos dizer que nos tornamos “escravos”, à mercê dos “senhores de engenho”, que hora nos propõem trabalhar sem pensar ou questionar, hora resolvem nos prender em “senzalas” isoladas de informações científicas. A possibilidade de nos mantermos sob o jugo de “senhores” preocupados apenas com as questões econômicas, sem competências ou habilidades para a condução de um problema tão complexo, nos faz refém de um governo que, em meio a uma pandemia causada pelo COVID-19, criou um pandemônio mortuário dentro do país.


Relações conciliatórias entre uns e outros se tornou uma quimera, pois, de um lado, temos o governo federal e seus interesses e, de outro, alguns governos estaduais e municipais interessados em salvar vidas, seguindo orientações sanitárias internacionais, com o uso da quarentena e do distanciamento social. Este jogo perverso considera a população brasileira como peças em um tabuleiro, jogadas em uma bandeja, em que são compelidas a retornar ao (ou se manter no) trabalho, não como cidadãos de direitos, mas como objetos em uma lógica necropolítica, que prioriza o lucro e não contabiliza as mortes em seus cálculos pautados pelo sacrifício alheio.


Como referiu Edgar Morin (2020) sobre uma progressão regressiva, podemos refletir entre os avanços e tropeços democráticos da história do Brasil, sobre as suas variadas e indesejadas rupturas históricas e culturais de dominação e subordinação. Agora, mais do que nunca, corremos o risco de que novamente a conquista popular da democracia esteja à mercê de artimanhas políticas de podres poderes, fadada ao adoecimento involuntário que a pandemia oportunizou aos interessados em dominar um país fragilizado em nome da ordem e progresso. Estas artimanhas obscuras que ansiavam em se manifestar com toda a força que torturou, matou em nome de um nacionalismo radical, neoliberal, entre outros predicados, desponta em pleno 2020 com um “brasileirismo” que causa mais danos do que talvez o próprio coronavírus.


Ao mesmo tempo, no cenário mundial, como se manter vivo e sadio se estamos expostos a uma devastação sem precedentes, onde corpos perderam sua dignidade humana, onde a saúde adoeceu, onde o único lugar que nos preservará é o isolamento e, este mesmo isolamento pode nos sufocar, nos causar consequências a curto e, muito mais, em longo prazo, cerceando nossa própria vida. Certamente, nunca mais seremos os mesmos que éramos no início de 2020. Certamente, nossa maior apreensão agora é de quem chegará a 2021 e se estaremos entre estes “sobreviventes”.



Questões (in)conclusivas


Administrar uma situação de crise pandêmica, para além das questões envolvidas no ambiente laboral, transforma-se em um cálculo matemático que gera prejuízo físico, mental, espiritual e social aos indivíduos. Os efeitos de reprodução da situação mundial, causada desde o início do COVID-19[5], repercutiram em um efeito borboleta que ultrapassou o próprio Oceano Atlântico, sem que nos déssemos conta da proximidade desta pandemia que agora é global.


Estamos tão distantes de sermos o mesmo que éramos há alguns meses e certamente não há ninguém ou algo que permanecerá o mesmo, nem haverá alguém que cogite a possibilidade de se encarar no espelho hoje sem poder enxergar o cenário de corpos doentes, ligados a aparelhos intermináveis em Centros de Tratamento Intensivo, agonizando pelo mundo afora e tele transmitidos em tempo real. De outra forma, morreremos abraçados a símbolos, crenças e estigmas que nos indicam o quanto estamos sós (isolados) no (des)amparo de nosso próprio território, indignados dentro de um distanciamento que nos impede de reconhecermos o avanço de forças antagônicas à democracia coletiva.


Quase que impedidos (pela quarentena) de nos revoltarmos (manifestarmos) com o real impacto do coronavírus no mundo (este mundo, dividido entre cloroquina, respiradores e a possibilidade de ajuda mútua, em uma crise que põe em xeque, além de sistemas políticos, a própria a vida humana), estamos fadados a batermos panelas de dentro do nosso isolamento, para darmos voz à ânsia pela sobrevivência da democracia e, com ela, de nossos direitos civis, trabalhistas e humanitários.


Afinal, como definiu Mbembe (2018, p. 2), “um estado como o nosso, não é apenas o gestor da morte. É ator contínuo de sua própria catástrofe”. Este é o atual cenário tensional em que nos encontramos em solo brasileiro, revelando a busca pela saúde em um país doente: entre as batalhas diárias contra as mortes e o adoecimento pela COVID-19, as mortes e o adoecimento causados por uma necropolítica que tem em mente a “ideação suicida” de uma democracia quase indigente, de políticos populares, torturada pelas impossibilidades diárias, onde representantes insurgentes definem os rumos do país, em meio a protestos mascarados.


Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância Epidemiológica do COVID-19. Disponível em: <https://coronavirus.saude.gov.br/>. Acesso em: 24 Maio 2020.

MBEMBE, A. Necropolítica. 3. ed. São Paulo: N-1, 2018.

MORIN, E. Entrevista de Alice Scialoja. IHU, São Leopoldo, 15 de abr. 2020. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br>. Acesso em: 17 Abr. 2020.

SAFATLE, V. Bem-vindo ao Estado suicidário. Disponível em: <https://n-1edicoes.org/004>. Acesso em :24 Maio 2020.


Notas:

[1] Disponível em: <https://aosfatos.org/noticias/bolsonaro-segue-cartilha-de-trump-ao-menosprezar-riscos-do-novo-coronavirus/ Acesso em: 23 abr. 2020.

[2] Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/05/20/oms-comenta-decisao-do-brasil-de-liberar-uso-da-cloroquina-para-casos-leves.ghtml> Acesso em: 23 abr. 2020.

[3] Disponível em: <https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-05-22/maior-estudo-sobre-cloroquina-e-hidroxicloroquina-demonstra-que-aumentam-risco-de-arritmias-e-morte.html> Acesso em 24 de abr. de 2020.

[4] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-06/governo-bolsonaro-impoe-apagao-de-dados-sobre-a-covid-19-no-brasil-em-meio-a-disparada-das-mortes.html Acesso em 07 de Jun. de 2020.

[5] Analisar reportagem disponível em: <https://brasil.elpais.com/internacional/2020-01-30/retratos-de-wuhan-uma-cidade-em-quarentena-vista-por-dentro.html>. Acesso em: 17abr. 2020.


Photo by Robert Nyman on Unsplash



Tensões Geopolíticas e Pandêmicas no Brasil atual


RESUMO: Não é possível mais levar a vida como no mês passado ou nos anos passados. E o mês passado parece que aconteceu em outro século. A partir do momento em que a morte exerce permanentemente uma força de tensão no cotidiano, as angústias se transformam em adoecimento psíquico para além das questões da manutenção da produtividade econômica. Esta fonte de contradições (distanciamento social ou manutenção da produção econômica) acarreta condições limítrofes, entre o viver e o morrer em meio à pandemia. Trazemos, aqui, uma reflexão sobre as questões pandêmicas no panorama brasileiro, suas manifestações no cenário de quarentena e distanciamento social e as questões políticas, sociais e culturais envolvidas nestas tensões.


Palavras-chave: Pandemia, COVID-19, Brasil.



Geopolitical and Pandemic Tensions in Brazil today


ABSTRACT: It is no longer possible to live life as it did in the past month or years. And the past month seems to have happened in another century. From the moment that death permanently exerts a tense force in daily life, anxieties are transformed into psychic illness beyond the issues of maintaining economic productivity. This source of contradictions (social distance or maintenance of economic production) leads to borderline conditions, between living and dying in the midst of the pandemic. Here, we bring a reflection on pandemic issues in the Brazilian panorama, their manifestations in the quarantine and social distance scenario and the political, social and cultural issues involved in these tensions.


Keyword: Pandemic, COVID-19, Brazil



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