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v5a20| Território e Vida Mental: Notas sobre o “mundo pós COVID-19” do lado de cá do planeta

Atualizado: Jul 30

Por Pedro Henrique Campello Torres é Doutor em Ciências Sociais (PUC-Rio), atualmente é Visiting Scholar na University of California (UCSB) e Pesquisador do IEE-USP.


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Karl Polanyi abre seu célebre livro, A Grande Transformação (1980), com a sentença de que a civilização do século XIX havia colapsado. Georg Simmel, meio século antes de Polanyi, em conferência que virou texto clássico nos estudos de sociologia urbana, A Metrópole e a Vida Mental (1973), apontou transformações e estratégias de defesa comportamentais no seio da sociedade de massa que se formava no século XIX e produzia o espaço das grandes cidades europeias. A atitude blasé, fenômeno psíquico reservado à metrópole, acrescida à fonte que advém da economia do dinheiro, "consiste no embotamento do poder de discriminar" (SIMMEL, p. 16, 1973). A antipatia, diria Simmel, protege os citadinos da indiferença e da sugestibilidade indiscriminada. Seria a metrópole, portanto, fornecedora da arena para o combate e a reconciliação dos combates.

A civilização do século XX parece estar colapsando com a propagação do vírus do COVID-19. Recorrendo a Simmel, é possível identificar o início de uma transição comportamental no território e seu tecido social (LEFEBVRE, 1991) decorrente da conjuntura presente. Nesse sentido, é imperativo compreender a importância do território e sua hierarquização, conceitos já trabalhados por diversos autores do campo, como Bourdieu (1993), Simmel (1973), e, no Brasil, Luiz César de Queiroz (RIBEIRO, 2016), entre tantos outros. A questão também nos remete a temas que entrelaçam os estudos sobre cidades, a violência e a “cidadania escassa” (CARVALHO, 1995), assim como a diversidade e a desigualdade pujante em nosso país e sua expressão no espaço produzido (BURGOS; TROINA, 2020).

Esse movimento nos ajuda a compreender, portanto, que a COVID-19 não tem impacto democrático no território (TORRES; LINKE, 2020). Ou seja, existe uma hierarquia espacial que expõe uma desigualdade locacional do impacto desse vírus na sociedade brasileira. Estudos posteriores vão confirmar e trazer com força a noção de justiça ambiental, evidenciando que os mais pobres, ou os que vivem em condições mais vulneráveis (ACSELRAD, 2010), são os mais atingidos. Ou, ainda, que os mais atingidos são aqueles que possuem comorbidades fruto de desigualdades ambientais como a poluição do ar, ou o não acesso à água.

Dado o contorno estrutural que marca o particular processo de formação do país, me parece importante refletir não necessariamente como o mundo estará no pós-Covid, mas, antes disso, pensar a partir de nosso local, do Brasil e da América Latina como periferia do sistema-mundo, para refletir como essas mudanças podem ter hierarquias também na forma que elas são sentidas e apreciadas nas diversas partes do planeta.

No clássico Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente, Edward Said (1990) desconstrói a noção forjada pela literatura europeia que dividia o mundo entre uma porção oriental (repleta de preconceitos, adjetivos e exotismo) e outra do ocidente, berço da civilização e bastião daquilo que deveria ser perseguido pela outra fração do planeta.

A análise momentânea dos números de contaminados pela Covid-19 e as formas de planejamento e reação dos governos na chamada parte oriental do planeta expõem diversos aprendizados. Partindo de uma reflexão decolonial, no mundo que se anuncia novo para a fração dita ocidental do globo, a percepção é que o fenômeno já vem sendo experienciado – guardadas as devidas proporções – em países como a China, o Japão, Singapura, Coréia do Sul, entre outros, sobretudo no sudeste asiático.

Cidades inteiras produzidas com alta densidade de residentes não estão registrando, nas localidades acima citadas, considerados índices de propagação do vírus, como, por exemplo, em cidades nos Estados Unidos ou da Europa1. O processo é mais complexo. E acerta Simmel em seu diagnóstico sobre o século XIX, e que podemos empregar aqui: trata-se da relação com a formação da psique, ou, em suas palavras, com a formação da vida mental.

A sociabilidade e afetividade particular em parte da sociedade latina e seu modo de reagir a estímulos como abraços, beijos, apertos de mãos, entre outros, está sendo ressignificada nesse momento. Como será no mundo pós-Covid ainda parece cedo para sentenciar. Pouco sabemos sobre o mundo pós-Covid, mas no mundo com Covid, a mudança de comportamento, ou seja, da vida mental, tende a ser distinta nos diversos territórios do planeta, evidenciando não apenas os processos de formação histórica, mas suas hierarquias espaciais. Por exemplo, se até ontem causava estranhamento o uso de máscaras faciais no continente americano, na África, ou Europa, agora a tendência é que seu uso seja mais corriqueiro e usual.

A primeira ida ao supermercado fazendo uso de máscara e luvas é uma experiência de choque comportamental, atinge o moderno ethos ocidental. Com a repetição, se inicia um processo de naturalização ou formações de estratégias comportamentais individuais. Simmel alertava que os problemas mais graves da vida moderna adivinham da necessidade do indivíduo em preservar sua autonomia e individualidade “em face das esmagadoras forças sociais, da herança histórica, de cultura externa e da técnica da vida.” (SIMMEL, p.10, 1973). Como reagirmos, em nossa porção do planeta, face a esse desafio?

A pandemia global da COVID-19 atingiu a todos com força, seja qual área ou campo do conhecimento se pertença. As ciência sociais têm enorme potencial de contribuir com o debate científico e necessariamente multidisciplinar diante do desafio conjuntural que se põe. Seja do ponto de vista do diagnóstico, quanto do propositivo analítico. As cidades são produzidas e reproduzidas de forma material e simbólica. Diversas narrativas estão permeando e escrevendo as cidades da Covid em seus mais diversos territórios nesse momento.

São inúmeras as possíveis contribuições das ciências sociais em suas mais diversas dimensões – e suas ciências correlatas – para a reflexão acerca da COVID-19. Não se trata de discuti-las no presente ensaio. Pois, tal qual o esforço que teve de ser feito dentro do próprio campo em relação à questão ambiental, ou, mais especificamente, em relação às mudanças climáticas anos atrás, devemos considerar superado, já no século XXI, qualquer questionamento sobre a relevância das ciências sociais para todo e qualquer debate multidisciplinar (JACOBI, 2013).

Se hoje parece apressado estabelecer relações sobre o futuro, ou o que alguns já estão chamando de “mundo pós COVID-19”, já é possível, no entanto, buscando agir com metodologia e ciência, e não com clarividência, trabalhar alguns nortes importantes de reflexão. A história imediata, sempre complexa e território de riscos, serve senão para efeitos de análise de conjuntura, também para o uso posterior dos que forem estudar o tema nos anos seguintes, tendo como referência fontes daquele tempo pretérito.

Referências:

ACSELRAD, H. Ambientalização das lutas sociais – o caso do movimento por justiça ambiental. Estud. av., São Paulo, v. 24, n. 68, 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142010000100010&script=sci_arttext&tlng=pt>.

BOURDIEU, P. Razões práticas. Rio de Janeiro, Papirus, 1993.

BURGOS, M., TROINA, A dupla cegueira para lidar com a pandemia nas favelas. Le Monde Diplomatique, 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-dupla-cegueira-para-lidar-com-a-pandemia-nas-favelas/

CARVALHO, M. A. R. de. Cidade escassa e violência urbana. Série Estudos, Rio de Janeiro, v. 91, 1995.

JACOBI, P. São Paulo metrópole insustentável – como superar esta realidade. Cadernos Metrópole (PUCSP), v. 15, 2013.

LEFEBVRE, H. A revolução Urbana. Belo Horizonte: UFMG, 1999.

POLANYI, K. A grande transformação. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

RIBEIRO, L. C. de Q. Metamorfoses da Ordem Urbana da Metrópole Brasileira: o caso do Rio de Janeiro. Sociologias (UFRGS), v. 18, 2016.

SAID, E. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990

SIMMEL, G. A metrópole e a vida mental. In: O Fenômeno Urbano. OTAVIO Guilherme VELHO (org). Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

TORRES, P., LINKE, C. Covid-19 e a política urbana: a densidade não é a vilã. Le Monde Diplomatique, 2020. Disponível em https://diplomatique.org.br/covid-19-e-a-politica-urbana-a-densidade-nao-e-a-vila/

Notas:


1 O artigo “Coronavírus e o território: disseminação regional e desigualdades”, de Luciana Travassos e Bruna de Souza Fernandes, discute dados da propagação do vírus no território de São Paulo (Macrometrópole), Estado de Maharashtra (Índia) e na Ilha de Java (Indonésia). Disponível em: <http://pesquisa.ufabc.edu.br/macroamb/dialogos-socioambientais-na-macrometropole-paulista-no-5-covid19/>.



Texto originalmente publicado na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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