• antropoLÓGICAS

v6a8| Trabalhadores rurais em tempos de pandemia

Por Maria Aparecida de Moraes Silva. Professora do PPG/Sociologia da UFSCar e pesquisadora do CNPq


Colhedeira de laranjas. Foto: Maria Moraes (2017)


Uma leitura atenta das notícias veiculadas pelos diversos meios de comunicação aponta para a ausência de referências sobre os trabalhadores rurais. Num país, considerado o maior produtor de commodities do mundo, isto pode causar certa estranheza num primeiro momento. Na verdade, os trabalhadores rurais são ofuscados, negados pela sociedade mais ampla. Meu intento é contribuir para que esta névoa que os encobre seja retirada para que as pessoas possam enxergá-los como essenciais neste momento de pandemia que nos assola.

Acompanhando as pesquisas produzidas no México (Flores, 2010) com trabalhadores rurais que migram para os EUA para a colheita de vários produtos, sobretudo frutas e hortaliças, percebo que há muitas similitudes em relação aos migrantes do nordeste e do Vale do Jequitinhonha (MG) que labutam nos canaviais, cafezais e laranjais das terras paulistas. Nos EUA, os migrantes mexicanos, hondurenhos, guatemaltecos são, em muitos casos, considerados ilegais, portanto, tratados como criminosos. No entanto, se há uma maior demanda deles para as áreas de produção agrícola, as porteiras se abrem e os guardas fazem vista grossa às suas travessias. O importante é não prendê-los, mas vigiá-los e garantir que, finda a colheita, eles sigam a rota do caminho de casa. Tudo ocorre no contexto de um faz-de-conta. Nos tempos do coronavírus, quando as pessoas estão com medo de saírem de seus confinamentos, têm aumentado a procura por estes trabalhadores “ilegais”. O importante é que eles estejam munidos da declaração de alguma empresa assegurando-lhes o trabalho. Tal como antes, o jogo do faz-de-conta e da hipocrisia se repete. 

Nas cidades paulistas rodeadas pelas plantações acima mencionadas, o controle policial também ocorre, com outras nuances. Assim que as safras terminam são também vigiados e obrigados a retornar. Nas duas situações, trata-se de pessoas discriminadas e negadas. Pessoas que, segundo um processo histórico perverso, foram arrancadas de seus lugares de origem e obrigadas a viver eternamente perambulando de um lugar a outro em busca de trabalho para a garantia da própria sobrevivência e de suas respectivas famílias. Os trabalhadores mexicanos, representados por várias etnias indígenas, além do processo de expropriação realizado por grandes empresas, sofrem as perseguições de grupos paramilitares e do narcotráfico. Em ambos os casos, guardadas as diferenças, são encobertos pelo nevoeiro que os transforma em meras silhuetas vagantes de um lugar a outro.

Ademais das razões estruturais que sustentam a base da concentração da propriedade da terra e da produção, é necessário considerar que, no caso brasileiro, são negros e pardos, além de indígenas, que colhem maçãs no Rio Grande do Sul (Motta, 2019). Não se trata de considerá-los excluídos, bem ao contrário. São incluídos, porém invisibilizados e negados. É uma forma de reduzir o valor de suas forças de trabalho, de negar-lhes os direitos básicos, de submetê-los às condições degradantes de trabalho, de arrancar-lhes a dignidade humana. Nos canaviais paulistas, entre 2003 a 2007, registramos 21 mortes por exaustão. Nos laranjais, ademais do excessivo esforço, são obrigados a conviver com os inseticidas utilizados para o combate das pragas.

Em tempos desta pandemia, milhares de homens e mulheres estão no momento nos campos paulistas laborando na colheita de cebola, laranja, manga, granjas etc. Estão também nos canaviais exercendo tarefas duras como catação de pedras antes da entrada das máquinas colhedeiras, a fim de não danificar as “facas” que ceifam a cana. Estão recolhendo os restos de cana (bitucas) deixados pelas máquinas. Trabalham também na distribuição da vinhaça (resíduo da fabricação do etanol), empregada como fertirrigação. Em todas estas atividades (exceto na distribuição da vinhaça), as mulheres são maioria. Os estereótipos de gênero são responsáveis para esta preferência. São consideradas mais responsáveis, mais atentas, além de possuírem maior destreza manual. No caso das granjas, são tidas como mais carinhosas e mais cuidadosas com os pintainhos, que chegam aí aos milhares, com apenas três dias de vida. São cuidados pelas mulheres que os têm como seus “bebês”, que estão sem as mães, que necessitam calor adequado, por isso, o cuidado com a regulação da temperatura ambiente. 

É um mundo do trabalho que permite ao outro mundo de parcela da população estar confinada em suas respectivas casas, seguindo as normas sanitárias de isolamento ou distanciamento social. É este mundo (invisível) que permite que o outro mundo, embora confinado, seja visível. Recentemente, a atual ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) declarou que não há e nem haverá desabastecimento de produtos alimentícios. No entanto, omitiu em seu discurso que os alimentos que chegam às nossas mesas são produzidos por mãos de trabalhadores/as rurais, cujas jornadas iniciam-se ainda durante a madrugada, quando preparam a comida que levam consigo para a roça, já que vivem nas periferias das cidades. São também produzidos pelos camponeses da agricultura familiar, em pequenos espaços, hortas sítios e assentamentos rurais.

A segurança sanitária é fundamental, mas a segurança alimentar também o é. Os/as trabalhadores/as rurais são essenciais nestes tempos sombrios causados pela pandemia. Em razão das condições de trabalho às quais são submetidos/as, não é difícil prever que a situação social em que vivem, além da não observância das normas sanitárias vigentes, poderá ser um elemento agravante dos riscos à sua saúde e de seus familiares.

As notícias veiculadas revelam que a covid-19 atinge milhões de pessoas em todo o mundo. Porém, não se trata de uma doença “democrática”, como já foi demonstrado. As pessoas que vivem em condições sociais vulneráveis serão as mais atingidas. A pandemia, sem sombras de dúvida, aprofundará mais ainda o fosso das iniquidades sociais de países como o Brasil. 

Espera-se que as pessoas que vivem no mundo do trabalho visível passem a enxergar aquelas que fazem parte do mundo do trabalho invisível e que haja políticas de renda mínima para diminuir suas angústias e sofrimentos. São invisíveis, mas são essenciais. De suas mãos, provêm os alimentos que nos permitem viver.

Referências:

FLORES, Sara María Lara (Coord.). Migraciones de trabajo y movilidad territorial. México: Miguel, Angel Porrua, 2010. 

MOTTA, Grasiela da Silva. A cadeia produtiva da maçã: trabalho e empresas no Rio grande do Sul. Tese de doutorado. PPG/ Sociologia e Antropologia, UFRJ, 2019.



Texto originalmente publicado em 19 de maio de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

58 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES