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v3a27| Um vírus como agente

Atualizado: Jul 30

Por Alix Didier Sarrouy. Músico, Sociólogo da Arte e da Cultura Projecto ArtCitizenship, Investigador Integrado no CICS NOVA, FCSH-UNL.


Pensar um vírus como agente, que age e faz agir. Em poucos meses o SARS-CoV-2, mais conhecido por coronavírus ou COVID-19, deu-nos a sentir e entender o quão local é o global. Nos primeiros tempos, devido ao efeito surpresa da propagação, quebrou fronteiras, reduziu distâncias físicas, rompeu o hermetismo das classes sociais e inverteu os danos entre países dos chamados primeiro e terceiro mundos. Mexeu no planisfério, partindo da China e voltando sempre a ela num dos maiores transferes financeiros de todos os tempos para oriente, território central das deslocalizações industriais do século XXI.  


Foto: Indepest.com


Ao mesmo tempo, tal como salientou o escritor Moustapha Dahleb, um vírus microscópico foi capaz de mobilizar seres humanos que estavam divididos e individualizados, conseguiu pôr em pausa guerras no médio oriente, questionar o descontrolo do neoliberalismo e evidenciar o papel do Estado Providência democrático. Um exemplo concreto e que nos é próximo, a Associação Habita!, defensora do direito a ter casa apoiando as pessoas mais vulneráveis, nota que, tendo sido uma das suas lutas durante anos, só neste contexto viral é que os despejos pararam. Deste ponto de vista, é um vírus ativista, útil na luta por causas sociais, malgré lui.  

O coronavírus age sobre e através corpos individuais e sociais. Tem material genético, tem personalidade viral, perturba certos biótipos mais do que outros. É um vírus que mata pela reação dos organismos nos quais se instala. O descontrolo dos anticorpos criados pelo ser humano contra o vírus acaba por ser a causa do maior número de óbitos. Mas a agência deste vírus não se fica pelo corpo humano, interfere no “pulmão do corpo social”. Propaga-se em sociedades, cada uma com a sua forma de “respirar”, ritmada por uma cultura, por um ethos. É também nesses contextos macro, que a reação ao vírus pode enfraquecer os pilares mais fundamentais de uma sociedade. Há que garantir imunidades, há que definir os “anticorpos sociais” na sua intensidade, no tempo e no espaço. 


Foto: Van Gogh Face Mask Kirsten Beitler


É nestes momentos de luta contra a pandemia, tal como acontece em tempos de guerra ou de ditadura, que somos intensamente postos à prova, individual e coletivamente. São sensações e reações novas para muitos. Recentemente, Tiago Rodrigues, homem do teatro, parafraseando o sociólogo Bruno Latour, dizia que estes meses de pandemia servem de “ensaio geral” para um futuro que se adivinha em palcos de crise. Juntemos a essa imagem as palavras de Antonin Artaud em O Teatro e seu Duplo, quando escreveu que a epidemia “faz cair a máscara”, tendo em comum com o teatro o facto de revelar os homens tal como são. Nesta fase em que somos obrigados a pôr mascaras, elas caem. Relembra-me uma outra frase do subcomandante Marcos, líder dos encapuzados subalternizados do movimento Zapatista no México: “Para que nos vejam foi preciso taparmos a cara.”    


Servir-se da pandemia


Com a recente instalação permanente do COVID-19 no planeta e nas nossas vidas, começamos a notar que o vírus se torna uma razão, um argumento, e por vezes até uma justificação para todo o tipo de decisões, tanto individuais como coletivas. Presidentes, governos, ministérios, movimentos políticos, movimentos sociais, lobbies, mercados financeiros, sectores de trabalho, ONGs, ativistas… todos tentam apoiar-se na nova realidade viral para decisões radicais que devam ou queiram tomar. Há uma luta entre forças de poder e entre possíveis “verdades”. Os mundos da ciência e da medicina não escapam a estas discussões. Por um lado, provam quotidianamente a sua importância no salvamento de vidas e na busca de soluções de prevenção, de cura e de vacinação. Por outro, provam a sua relatividade no conhecimento da dita “verdade” científica e expõem as lutas internas, baseadas em egos e agendas.   


Ilustração de Mike Luckovich


Dividir para reinar continua a funcionar. Os números de mortes associadas ao COVID-19 são comparados entre países de fronteiras reforçadas, entre gerações, entre corpos. Profissionais da economia confrontam os seus modelos sobre as futuras mortes relacionadas com o desemprego,  pobreza e falta de recursos públicos, com os modelos de epidemiólogos que prevêem a evolução do vírus. Comparar para relativizar a seu favor, também continua a funcionar. Enquanto isso, pacientes com outro tipo de sintomas hesitam em ir ao hospital, enfermeiros e socorristas disfarçam a sua exaustão, professores escondem o seu mal-estar com as tecnologias, e trabalhadores independentes refazem contas à vida precária, uma vez mais. Estes contextos, junto com muitos outros, tornam-se causas, sobre as quais há que pensar, planificar e atuar. 


Em grego antigo, a primeira sílaba da palavra pandemia quer dizer “todo”. De facto, os impactos são globais e macroscópicos nesta fase de chegada e propagação. O vírus tomou conta de tudo, nomeadamente do tempo de antena. Mas a ideia de pan também permite evidenciar a interseccionalidade como necessidade na análise na tomada de decisões e na sua aplicação. Ao facto de se ter mais de 80 anos, junte-se o género, a condição social, a identidade cultural, as consequências físicas e psicológicas do labor exercido, as condições de habitação, entre outros factores. Este vírus é mais uma das lentes reveladoras das discrepâncias sociais e do peso dos diferentes dados a conectar. 


Com a devida ampliação da consciência surge a sensação de urgência, tanto face aos números de óbitos apresentados quotidianamente nos nossos ecrãs, como frente às questões práticas e existenciais. Instintivamente as primeiras urgências são pessoais, próprias a si e aos seus. Mas elas estão profundamente relacionadas com o “corpo social”. Impossível separar as duas, somos parte de um ecossistema complexo com variáveis múltiplas. As decisões devem resultar da integração do máximo de dados, com tempo, buscando um equilíbrio sustentável. No sexto volume do seu livro La Méthode, Edgar Morin, intelectual francês com 98 anos de vida, formulou elegantemente os perigos subjacentes à ação na urgência: “De tanto sacrificar o que é essencial por aquilo que é urgente, acabamos por esquecer o que há de urgente no essencial.”


Inspirar-se dos ativismos 


Para a maioria de nós, a primeira adaptação forçada ao confinamento consiste na “virtualização da vida”. Do espaço público passámos para o virtual como única forma de escapar dos espaços privados que são as nossas casas. A constante “pixelização das faces” dá muita saudade de sorrisos ao vivo e de olhares límpidos. As conversas virtuais têm uma encenação e um tempo diferentes. Estamos submetidos aos clicks no rato e aos glitchs informáticos. Mesmo assim insistimos, são a ponte do pessoal ao social, tão crítica em momentos de pandemia marcada pela angústia das estatísticas, pelas inseguranças laborais e pelas incertezas de um futuro que se adivinha difícil. 


Foto: The Lovers - Pobel - Noruega


No entanto, por estarmos vivos, procuramos sobreviver espiritual e fisicamente. Urge (re)agir. Para isso temos muito a aprender dos jovens ativistas portugueses, especialmente de uma nova geração que, depois de ter passado a sua adolescência em contexto de Troika, está consciente de uma crise climática que poderá ser ainda maior que qualquer outra. Poucos, como os ativistas, nas suas mais diversas causas, estão tão habituados a adaptar-se, a resolver problemas inesperados, a inventar soluções, dependendo inteiramente da sua criatividade individual e coletiva. Ser ativista é estar na ação, vivê-la como única forma de contestar e de alterar a realidade socioambiental. O falhanço e a desilusão fazem parte do seu crescimento, mas a utopia e a energia aditiva do coletivo mantém-nos na linha da frente.


De máscara obrigatória todos parecemos ativistas. No entanto muito nos separa quanto à da natureza da luta, à quantidade de trabalho e ao impacto das nossas ações. Ao seguir os jovens ativistas nas mais variadas causas, apercebemo-nos que as suas lutas são viscerais e cerebrais ao mesmo tempo. O nível de organização surpreende e motiva. Depois de escolherem estratégias definem um sem-número de táticas, cada uma mais original e disruptiva que a outra. Muito antes da pandemia, já dominavam todas as ferramentas digitais que permitem fazer reuniões, comunicar, aglomerar forças, planear ações concretas no espaço e no tempo. A sua expertise na virtualização serve-lhes para garantir ações concretas na vida real, em pleno espaço público ou privado. 


Para complexificar esta proposta de reflexão é possível evidenciar alguns dos paradoxos. A China, país mais poluidor do mundo, no qual se concentram as industrias deslocalizadas em contexto laboral pouco protetor, tomou o lugar dos EUA como líder mundial e limpa o seu capital simbólico. Quanto à causa climática, ela baseia-se no respeito pela natureza, criticando a tendência milenar que o ser humano extrativista tem em querer dominá-la. No entanto o coronavírus, ser microscópico, é alvo de todos os ataques e tentativas de dominação. Essa luta antiviral é liderada pelas comunidades da saúde e da ciência, as quais estão na base da fundamentação para todos os ativismos climáticos. Continuando nos paradoxos relacionados com a própria ação, pilar estrutural do ativismo, em tempos de pandemia a melhor ação para o cidadão comum é a “não-ação”, exigida pelo Estado de Emergência e o confinamento obrigatório. Esta camisa de forças enlouquece muitos ativistas do clima que já vinham com balanço, nomeadamente quando 2020, em particular a COP26 de novembro em Glasgow, são vistos pelas Nações Unidas como the last best chance face às alterações climáticas. Um último exemplo provocador dos paradoxos no ativismo climático: a juventude ativista não pode sair às ruas para evitar de contagiar os seus ascendentes mais vulneráveis, aqueles que por efeitos de “banalidade do mal” (H.Harendt) e de “sonambulismo social” (G.Tarde), também foram cúmplices das causas às alterações climáticas.


Reinventar modos de ação direta


Relendo criticamente Beautiful Trouble, um manual de desobediência civil, o capítulo sobre ação direta refere que esta implica o coletivo para mudar as circunstâncias existentes, mas sem que se transfira poder a um mediador. Na causa da Justiça Climática por exemplo, os ativistas portugueses, tal como os seus parceiros internacionais com os quais estabelecem fortes redes, agem em grupo, tendo o Do It Yourself como mote para garantir que o previsto vai acontecer. O que não falta é criatividade e humor, com engenho e arte. No entanto, o coronavírus e as repercussões que teve a nível de confinamento, reduziram fortemente a Greve Climática de 13 de Março 2020, planeada há meses. Este primeiro embate foi recuperado e convocaram-se reuniões nos grupos de trabalho espalhados pelo país. Havia que definir novas táticas ativistas adaptadas às condições impostas. Obviamente que o mundo virtual se tornou um campo de batalha, espaço de digital takeovers, digital strikes, digital hugs, love, solidarity… complementados por twitterstorms, mail bombings e instalives.

Estes ativistas vinham de um ano 2019 muito intenso a nível de ações diretas, tal como foram a Greve Climática Estudantil (março e maio), a ação Camp in Gás (julho), a Greve Climática Global (setembro), as boas vindas a Greta Thunberg e seu seguimento até à COP-25 em Madrid (dezembro). Em fevereiro de 2020 foi organizado o 5º Encontro pela Justiça Climática na Universidade Nova de Lisboa, para aí reunir o máximo de organizações. Definiram agendas e articularam táticas divididas por “ondas”. Março teria sido o início de 9 meses de ações diretas, coordenadas entre si, com possível clímax na COP26. 


Foto: Cartaz Galp Must Fall


O vírus abanou mas não paralisou os ativismos climáticos. A prova da readaptação resultou numa ação direta online. No dia 24 de abril realizou-se a primeira manifestação virtual sob a insígnia #GalpMustFall. O pretexto para mobilizar ativistas foi a Assembleia Geral da Galp, que acontecia ao vivo em Lisboa. A plataforma manif.app, foi complementada com ações no Twitter, no Facebook e com direito a 3h de live no Instagram. Cada manifestante criava um ícone e um slogan na manif.app, a serem posicionados num mapa do mundo. Eram centenas, convidados a estar nos locais onde a Galp tem bases, nomeadamente Maputo e Sines. Enquanto isso havia entrevistas, concertos e três ativistas do Coletivo Climáximo participaram na Assembleia Geral da Galp graças à compra de três ações. 


O virtual aliado ao real, faz pressão simbólica, cria debate e aumenta os níveis de consciência. Mas fundamentalmente, nesta fase crítica e instável, permite manter a força dos elos entre ativistas, juntando sensibilidades em torno de causas comuns. Comparativamente a uma manifestação ao vivo, o impacto parece ser menor, mais restringido a um certo tipo de ativistas em rede. Dana Fischer, socióloga especializada em ativismo e movimentos sociais, salienta que existe o risco deste tipo de manifestações ser apenas uma forma de congregação entre pares. Por si só já é um resultado positivo, pois esta fase corre o risco de esfriar os ativistas. É-lhes fundamental manter a união e a motivação porque o ativismo climático a vir dependerá muito de ambas. Tal como relembra o médico Vishal Chaudan, membro dos Extinction Rebellion UK, “contrariamente ao coronavírus, a crise climática não terá pico”. 


Arte da cidadania


No Projecto ArtCitizenship, coordenado por Ricardo Campos na área das ciências sociais e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, procuramos entender de que forma a cidadania é expressa e desenvolvida através de ferramentas artísticas pela juventude portuguesa. A vivência da cidadania em sociedade é possível por um conjunto de direitos e deveres resultantes da lei, da ética e dos costumes culturais. Esse facto, tomado como adquirido, também depende das ações quotidianas dos cidadãos, particularmente dos mais jovens, garantes do seu futuro. 


O ativismo relaciona-se de duas formas à cidadania: resulta dela e mantém-na viva, numa eterna procura do bem comum com sentido crítico. Esse “comum” tem diferentes escalas e múltiplas naturezas a interseccionalizar. O que o ativismo nos ensina sobre a arte da cidadania é a exigência de ação coordenada, que esta requer muito trabalho e dedicação imersa em consciência crítica. A clássica definição do génio artístico – 1% de inspiração e 99% de transpiração – é aplicável à arte da cidadania. Os direitos e deveres estruturam-na, são ferramentas de cada cidadão, tal como os artistas têm pincéis, palcos, instrumentos, lentes, figurinos, textos, cenários…, mas a sua garantia e desenvolvimento são o que exige a maior percentagem de ação.  


Mesmo que as possibilidades da cidadania resultem do passado e que a urgência do presente nos faça perder a sua consciência, somos agora levados a ter de pensar o futuro. Também os jovens ativistas portugueses receiam o que poderá vir, mas a maioria não se deixa levar por um discurso fatalista. Estão informados sobre o que já foi escrito e pensado, estão ao corrente do que é feito noutras latitudes, e debatem sobre o futuro que idealizam. Todas as lutas pela Justiça Climática são visionárias, verdadeiras ações de antecipação. Voltar ao que éramos seria uma derrota. 


Ilustração de Abigail Gray Swartz (com célebre lema de Florynce Kennedy)


Pensar e idealizar o futuro permite sobreviver ao presente. Os mundos do ativismo estão habituados a isso, levam-no muito a sério. Por exemplo, no último livro de Lola Olufemi, jovem feminista negra, a autora escreve: “O feminismo é um projecto político sobre o que poderá vir a ser. Está sempre a olhar para a frente, investindo em futuros que ainda não podemos alcançar.” A arte da cidadania, como todas as outras, precisa de inspiração. Inspiremo-nos na juventude ativista! 


Entre muitos outros acontecimentos marcantes, os atuais mundos do ativismo inspiram-se no que fez a Geração à Rasca em Portugal, o Occupy Wall Street nos EUA, a Primavera Árabe na Praça Tahrir, a insurreição pró-europeia na Praça Maïdan e a ocupação de uma gigantesca mina de carvão alemã, coordenada pelo movimento Ende Gelände. Mas o risco recorrente da falta de resultados concretos continua real. Num recente ensaio sobre a pandemia e o capitalismo numérico, o filosofo português José Gil, alertava: “(…) este período de luta pela sobrevivência física não gerou até agora nenhum sobressalto político ou espiritual, nenhuma tomada de consciência da necessidade de mudar de vida. Não gerou esperança no futuro.”  


Não farei aqui prospetiva, ainda é impossível prever o futuro mas podemos imaginá-lo e tender a um certo ideal. A esse objetivo, o vírus ativista pode servir de aliado paradoxal. A pandemia como gota de água, o confinamento como fonte de reflexões e consciências mais profundas. Depois de muitos passos dados na maratona que é o ativismo, o desconfinamento dos corpos e das mentes como trampolim para provocar tão esperados (sobre)saltos. 



Texto originalmente publicado em: https://www.buala.org/pt/a-ler/ativismo-viral?fbclid=IwAR1PBystj9NnLIFmC0F58E8s6uJajaBMuR6Prt1i5sl34dvXkbwgk_v9tNQ

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