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Uma Antropologia da Educação em tempos de (in)segurança virtual

Por Marcus Bernardes. Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Goiás. Professor de Ciências Sociais do Centro Universitário FG – UniFG. Membro da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS).


Photo byJonas JacobssononUnsplash


O espaço da sala de aula, independente da área do conhecimento refletido, é também o espaço do encontro. É o reconhecimento de um amplo espectro de racionalidades. A construção de saberes dialógicos e artesanais, microscópicos e universais. A alteridade, conscientemente trabalhada, é fundamental para as relações entre professores e estudantes. Através do contato, convívio e experiência é urgente desnaturalizar discriminações de toda ordem (raça, classe, gênero, sexual, etc.).

A alteridade na educação é a dialética de Paulo Freire de ensinar e aprender[1]. É a visão que o trabalhador da educação é o profissional das interações humanas, como diz Maurice Tardiff[2]. A sala de aula e a escola, por consequência, são mais do que instituições formais de ensino. São espaços de encontro e socialização e, por isso mesmo, inevitavelmente de conflitos. É o local a serem discutidas questões sobre diferenças e como equalizar os conflitos.


Diante do exposto em relação à necessidade do contato para o nosso desenvolvimento cognitivo e cultural, como fica a educação em tempos de confinamento devido à pandemia de COVID-19?


A educação à distância e a educação remota on-line em suas múltiplas ferramentas têm se mostrado uma alternativa para a continuidade de atividades em escolas e universidades. Professores das mais diversas áreas estão se debruçando sobre tecnologias nunca antes utilizadas por eles. Estudantes se esforçam para continuar os estudos sem uma rotina coercitiva do ambiente escolar. Habituam-se também a novas plataformas virtuais. Os ambientes virtuais antes paliativos ou complementares, agora se transformam no palco principal. Dessa forma, pensemos brevemente sobre questões de segurança.


O que realmente sabemos sobre a rede mundial de computadores? O que sabemos sobre hardwares e softwares? Universidades têm setores de Tecnologias de Informação, mas os professores estão munidos de conhecimentos técnicos sobre o funcionamento básico de computadores e programas? Quais as vulnerabilidades de utilizar equipamentos pessoais (notebooks, celulares) para a continuidade do trabalho docente?[3] Temos discussões antigas sobre questões de segurança na internet[4]. O momento exige que repensemos o nosso conhecimento (ou a sua falta) em relação as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs).


Destarte, é fundamental que, enquanto professores, cada vez mais estejamos atentos às propostas de softwares livres, por exemplo[5]. Pelo menos por cinco razões. Primeiro, os softwares livres não estão vinculados a uma empresa no sentido do Capital monopolista (não há vendas de informação, por exemplo[6]). Segundo, possuem código aberto, isso implica que ao entender o funcionamento do programa é possível modificá-lo, adaptar a um uso mais específico. Terceiro, o código aberto permite uma maior curiosidade de funcionamento por parte dos estudantes e uma maior possibilidade de aprendizado em Linguagem de Programação. Quarto, fortalecer o movimento software livre significa democratizar o conhecimento de uma linguagem extremamente comum, porém praticamente desconhecida em termos de funcionamento por grande parte da população. Quinto, implicam em valores derivados da perspectiva de educar para a alteridade: compartilhamento e responsabilidade social.


Eis o momento crucial para refletir de forma sistemática sobre a Linguagem de Programação e a Cibercultura como conteúdos curriculares obrigatórios na educação básica brasileira e suas efetivas relações transdisciplinares, reafirmando a importância da Sociologia Escolar que atualmente tem sido alvo de reduções de carga horária e imprecisões legislativas.


Precisamos ainda vencer fortes barreiras de inclusão digital. Nossas múltiplas desigualdades também envolvem diferentes acessos (ou ausências) em torno de computadores, aparelhos telemáticos, acesso à internet e conhecimento destas ferramentas. Contudo, a falta de estrutura e precarização da nossa escola pública não podem ser argumentos – ainda que importantes e urgentes – ceifadores de uma reflexão dessa natureza. Em paralelo a uma efetiva política pública de inclusão digital, é possível iniciar tais discussões a partir de celulares utilizados por estudantes de zonas urbanas e rurais. Como toda educação, esta adequação às novas tecnologias é um processo, demanda tempo e vontade política. Estamos diante de uma escolha. Continuar com a utilização desenfreada e cega dessas novas tecnologias ou começar a compreender como este novo mundo está funcionando e ir além do aparente. Ou seja, deixar o universo multicores de lado por um momento e entender como se organizam o zero (0) e um (1), através de uma nova linguagem. Se a proposta não começar pelos trabalhadores da educação (e movimentos sociais em geral)… De onde virá?


Notas:


[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. [2] TARDIF, M.; LESSARD, C. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Petrópolis: Editora Vozes, 9. Ed., 2014. [3] A ferramenta Zoom foi bloqueada pela Anvisa por apresentar falhas graves de segurança nas últimas semanas: http://portal.anvisa.gov.br/noticias/-/asset_publisher/FXrpx9qY7FbU/content/solucao-zoom-bloqueada-na-anvisa/219201 [4] Sobre segurança e democracia: https://apublica.org/2019/03/como-a-internet-esta-matando-a-democracia/ [5] Software livre e Educação: https://www.gnu.org/education/education.pt-br.html

[6] O Google tem investido em vários tipos de ferramentas específicas para o mundo da educação. Sobre grandes empresas e monopólio de informações: https://wikileaks.org/google-is-not-what-it-seems/



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