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v6a15| Como pensar a velhice em tempos de coronavírus

Por Simone Pereira da Costa Dourado. Professora associada do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá. Integra o Núcleo de Pesquisa em Participação Política (Nuppol).


Ilustração de Ula Sveik, "Lung Flora". Disponível aqui


Esses dias, como estudiosa do processo de envelhecimento, me dei conta de como as inúmeras notícias sobre a pandemia de coronavírus provocaram reflexões sobre as visões que construímos da velhice. A COVID-19, doença causada pelo vírus SARS-COV-2, provoca sérias infecções respiratórias e levou à morte quase 180 mil pessoas no mundo, até o fim do mês de abril de 2020, sendo os idosos os mais afetados. Me veio à lembrança o trecho de uma crônica de Rachel de Queiroz que reproduzo aqui:

Você contempla no espelho, vê as rugas do seu rosto, do seu pescoço, como se olhasse uma máscara que se desfaz. Vê bem, sabe como está velho, embora não sinta que está velho. Sua alma, seus sentimentos, sua cabeça, nada disso confirma a palavra ou a imagem do espelho. Mas os outros só veem de você o que o espelho vê (Rachel de Queiroz, Não Aconselho Envelhecer.1

A crônica foi escrita por Rachel de Queiroz em 1995, quando a autora tinha 85 anos. Ela viria a morrer em 2003, com 93 anos. A imagem produzida pela escritora sobre a velhice é boa para pensar o processo de envelhecimento nas sociedades contemporâneas, pois evidencia uma contradição: as sociedades criam patamares de definição para quem é o idoso que não são assimilados por quem vive, contemporaneamente, a experiência de ampliação da longevidade humana. Nonagenárias como Rachel de Queiroz, que chegam a essa fase da vida em uma condição ativa, com controle de si, domínio do corpo, da mente e autonomia financeira, confrontam a ideia de que a velhice é um processo natural, o qual acarreta invariavelmente perdas e custos.

O contexto atual exige das ciências sociais uma reflexão sobre outra imagem atribuída à velhice: a fragilidade. Os idosos são nominados como os mais frágeis e vulneráveis nesse contexto de crise sanitária global. Mesmo os ativos, saudáveis, independentes física, mental e economicamente são classificados como grupo de risco, exigindo das sociedades e dos Estados atenção e cuidados.

A ampliação da população idosa no mundo vem sendo avaliada com pareceres que misturam celebração e desafio, como indica importante relatório produzido, em 2012, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) - Ageing in the Twenty-First Century: a Celebration and a Challenge2. As pesquisas reunidas nesse levantamento da OMS, e em outros estudos, tratam a longevidade humana como um fenômeno que pode contribuir para a geração do crescimento econômico e social nas diferentes sociedades. Países europeus, com número expressivo de idosos vencidos pela COVID-19, tinham ampliado a definição etária de quem pode ser considerado idoso de 65 para 75 anos e mais. No início dos anos 2000, quando esse debate foi estabelecido, a questão central era viabilizar a participação efetiva dos mais velhos na vida pública em todas as décadas de vida após os 60 anos. As ações, sobretudo no terreno das políticas públicas, estiveram organizadas em torno de planejamentos que atendessem às demandas, às necessidades e aos direitos da população idosa de participação política e social. Contudo, o avanço da pandemia recolocou a marca dos 60 anos como uma idade de corte para o envelhecimento.

Como nos ensinam vários analistas do processo do envelhecimento, não é adequado falar em velhice no singular e sim em velhices no plural. Ao distinguir o processo de envelhecimento do momento de chegada na velhice, fase em que o risco de ficar doente e de perder as capacidades físicas e mentais aumenta, Simone de Beauvoir, em seu clássico trabalho A Velhice, indica que há algo correspondente às mudanças orgânicas, acompanhando o desenvolvimento do corpo biológico, e há algo relacionado com a definição pessoal, um momento específico no qual cada indivíduo constata que ficou velho. E, portanto, a retomada do marco dos 60 anos como uma idade de risco, em razão do coronavírus, é um passo atrás no caminho de significar de forma mais positiva o envelhecimento. As políticas de isolamento total de pessoas que, a partir dos 60 anos devem, inclusive, ser afastadas de seus postos de trabalho, uniu idosos que experimentam a velhice de muitas formas em diferentes lugares do mundo. O mundo se tornou perigoso para pessoas de diferentes gêneros, categorias profissionais, classes sociais e grupos étnicos que estão com 60 e mais anos. Nos cabe mostrar que essa uniformização etária é, como em vários outros momentos, uma arbitrariedade porque, como alguns dados sobre a pandemia evidenciam, são muito mais vulneráveis homens idosos, que ocupam os postos de trabalho com as menores remunerações, negros e residentes nas periferias do mundo.

Indivíduos que integram os mais diferentes grupos sociais constroem as suas próprias percepções da velhice, para além das definições fornecidas por organismos nacionais e internacionais e das instituições estatais que delimitam os grupos etários para o planejamento de políticas públicas específicas. Por último, inspirada pela crônica de Rachel de Queiroz, é preciso compreender que os idosos resistem a voltar para casa e a sair da vida pública que conquistaram porque não se percebem como sujeitos envelhecidos, o que deveria ser tratado como um avanço e não um problema. Como o isolamento social é a única medida reconhecidamente eficaz para evitar a propagação do vírus e resguardar as pessoas da doença, a tendência é culpar quem se contamina por ter se exposto, como ocorre com outras doenças. Culpar os idosos por terem se contaminado não vai resolver o problema e, talvez, crie outros. Notas:


1  https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/8855/nao-aconselho-envelhecer 2  https://www.unfpa.org/sites/default/files/pub-pdf/Ageing%20report.pdf



Texto originalmente publicado em 27 de maio de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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