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v6a16| A preponderância da sociabilidade do telefone em rede na quarentena brasileira

Por Bárbara Garcia Ribeiro S. da Silva. Doutora em Sociologia na Unicamp, mestre em Sociologia na USP, e professora de Sociologia desde 2010.


Photo by Rodion Kutsaev on Unsplash


Há cerca de quatro semanas ou mais, em decorrência da pandemia causada pelo coronavírus, boa parte da população brasileira entrou em confinamento. De acordo com informação dada pelo governador paulista em coletiva de imprensa em 13 de abril de 2020, São Paulo apresentou uma taxa de confinamento social de 59%.

Neste período de confinamento social de boa parte da população no Brasil, é importante destacar que as interações sociais estão sendo realizadas cada vez mais à distância, fazendo com que a sociabilidade que se tornou mais comum e frequente no cotidiano das pessoas seja a sociabilidade do telefone em rede. Essa população, que cotidianamente realizava face a face boa parte dos contatos sociais de trabalho, de estudos e de lazer, passa a se comunicar principalmente à distância com o auxílio do telefone celular com acesso à Internet. De acordo com a reportagem do jornal O Estado de São Paulo de 2 de abril de 2020, a ferramenta que permite realizar reuniões online, o aplicativo de videochamadas Zoom, cresceu 19 vezes em meio à quarentena, e vem sendo usado por empresas e escolas. Essas realizam aulas pela Internet.

A sociabilidade do telefone em rede corresponde à nova sociabilidade comum, à sociabilidade urbana no mundo contemporâneo. Essa forma de sociabilidade foi identificada pela mudança nas relações de amizade causada pela interferência das novas tecnologias, e estudadas em minha pesquisa de doutorado. Nela, destacam-se a rapidez, a instantaneidade e a frequência da comunicação feita à distância pelo telefone celular e pela Internet. Também houve a mudança da "sociabilidade tradicional" para uma "sociabilidade do telefone", pois o aparelho de telefone celular é cada vez mais popular e consumido na sociedade contemporânea, com interesse profissional, e, sobretudo, ligado às relações interpessoais, nas quais as amizades duradouras se sobressaem. A "sociabilidade em rede" é vista como outra mudança na sociabilidade das amizades nesta sociedade, já que se observou a utilização da comunicação pela Internet, ou a "comunicação eletrônica", por todos os entrevistados e entrevistadas com seus amigos/(as). Portanto, há uma tendência de se somar à "sociabilidade do telefone" a "sociabilidade em rede". Há um novo paradigma, diferente da "sociabilidade em rede mediada por computador" identificada na década de 1990 por Santaella e Lemos (2010), com base na análise qualitativa, que é a experiência da "sociabilidade em rede" mediada pelo telefone celular, ou seja, a sociabilidade do telefone em rede. Tal conceito representa a nova sociabilidade vista na sociedade brasileira considerando-se principalmente a segunda década dos anos 2000.

A sociabilidade do telefone em rede, desde aproximadamente o primeiro semestre de 2013 (ano em que realizei a segunda fase de minha pesquisa), vem sofrendo um avanço em nossa sociedade, se tornando mais comum. Neste período, entrou em cena o aplicativo para comunicação interpessoal de mensagens de forma instantânea: WhatsApp Messenger. Também, os (as) entrevistados (as) afirmaram que passaram a acessar as "redes sociais na Internet", como o Facebook, por meio do telefone celular para estabelecer uma comunicação com o outro.

A situação de quarentena fez com que essa sociabilidade se tornasse ainda mais comum no dia a dia dos brasileiros, sendo agora a única forma de sociabilidade por dias para aqueles que vivem sozinhos em suas casas ou apartamentos Brasil afora. Há os que vivem com pessoas em suas casas, sejam ou não familiares, que acabam não saindo para fazer as compras necessárias, como ir ao supermercado, e de fato não desenvolvem o contato face a face com pessoas diferentes daquelas com quem dividem o seu teto.

É possível refletir sobre esta situação em que o mundo se encontra para destacar a importância do uso da tecnologia nas interações sociais, pois sem o uso das novas formas de comunicação dadas pela Internet, boa parte das pessoas estaria em situação de isolamento total por dias, considerando as que vivem sozinhas, tendo contato com outros indivíduos apenas nos momentos de ida às compras de itens para a sobrevivência. Com isso, o telefone celular e a Internet são peças chave para a manutenção dos contatos sociais dos indivíduos na quarentena. Considerando este aspecto, vê-se quão importante é a tecnologia para a vida social, pois, sem ela, milhões de seres humanos estariam completamente solitários em suas casas.

As ferramentas tecnológicas em questão permitem hoje em dia, na quarentena, fazer com que os indivíduos desenvolvam sentimentos de empatia, amor, solidariedade, união, alegria, felicidade, que são fundamentais à natureza humana. Elas servem de apoio para todos nós, sem elas muitos estariam solitários sob seus tetos. Seu papel é, portanto, fundamental e ímpar na quarentena, amenizando toda essa situação de isolamento que se faz necessária; porém, de forma alguma substitui ou substituirá a interação face a face.


Referências:


CAPELAS, Bruno. Como o app de chamadas de vídeo Zoom cresceu 19 vezes em meio à quarentena. O Estado de São Paulo, São Paulo, 2, abril, 2020.

RIBEIRO, Bárbara G. S. S. A sociabilidade do telefone em rede na sociedade contemporânea . In: Simpósio Nacional ABCiber, 12, 2019, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre/Brasil: ABCiber 2019.

SANTAELLA, L.; LEMOS, R. Redes sociais digitais: a cognição conectiva do Twitter. São Paulo: Paulus, 2010.



Texto originalmente publicado em 26 de maio de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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