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v6a17| Como apoiar o início da vida em tempos de morte?

Pensando sobre o ofício das doulas durante a pandemia


Por Giovana Acacia Tempesta. Doutora em antropologia social, pesquisadora-colaboradora vinculada ao PPGAS/UnB e integrante do CASCA (Coletivo de Antropologia e Saúde Coletiva)/UnB.


Photo by 🇸🇮 Janko Ferlič on Unsplash


A pandemia de Covid-19 tem suscitado ou acentuado relevantes reflexões em torno do tipo de apoio oferecido à mulher gestante e puérpera. Nesta breve nota eu gostaria de focalizar o ofício das doulas e educadoras perinatais, profissionais que prestam informações qualificadas e apoio físico e emocional durante a gestação, o trabalho de parto e o pós-parto. A doulagem associada à educação perinatal vem se consolidando como uma ocupação nas duas últimas décadas, e ganhou força no bojo do movimento de “humanização” do parto e nascimento, que inicialmente visava denunciar o alarmante número de cesarianas realizadas no Brasil. O fundamento do suporte provido pelas doulas – cuja importância é endossada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – consiste em tratar a mulher como protagonista da gestação, do parto e do puerpério, partindo da premissa de que ela pode viver essas experiências de maneira segura, digna e satisfatória, respeitando sempre as singularidades de cada situação.

Uma das características mais conhecidas da atuação das doulas é a utilização de métodos não farmacológicos de alívio da dor, tais como massagens, chás e exercícios físicos e respiratórios, porém os estilos de doulagem são múltiplos e este universo abrange tanto doulas que celebram contratos individuais com mulheres que terão o parto numa instituição privada ou em sua casa (parto domiciliar planejado), como doulas que atuam de forma voluntária em hospitais e maternidades públicas. Hoje existem associações de doulas em todas as regiões do país e a sua representação em nível nacional é feita pela FenadoulasBR. Nos debates sobre a regulamentação da profissão desponta a proposta da doulagem como política pública, ou seja, está no horizonte assegurar o acompanhamento de doula para todas as mulheres, incluindo aquelas em situação de maior vulnerabilidade (adolescentes, mulheres com deficiência, pessoas LGBTQI+, moradoras do campo, indígenas, encarceradas, em situação de rua), de modo a favorecer a saúde e o bem-estar da mulher e do bebê, em termos abrangentes.

No último mês de março, assim que as autoridades brasileiras reconheceram a eclosão da pandemia, a decisão de vários hospitais e maternidades foi a de proibir a entrada das doulas, alegando que a diminuição do número de pessoas circulando nas instalações seria uma medida para reduzir as chances de contaminação das pacientes, dos bebês e dos profissionais. Num segundo momento, de modo semelhante ao que aconteceu, por exemplo, nos Estados Unidos e no Reino Unido, a proibição foi flexibilizada.

Até a data de hoje (26.04.20), não houve qualquer alteração nas legislações municipais e estaduais que asseguram o direito ao acompanhamento de doula, tampouco há menção às doulas nas notas técnicas específicas elaboradas pelo Ministério da Saúde. Entretanto, muitas doulas estão relatando que, se antes da pandemia já enfrentavam dificuldades para conseguir acompanhar suas clientes em instituições públicas e privadas, agora os obstáculos se amplificaram; há notícias inclusive de violação da Lei do Acompanhante (lei federal n.º 11.108, de 2005). Por outro lado, elas observam que residentes continuam circulando livremente nesses locais.

As doulas estão conversando sobre os riscos diversos que elas próprias correm e estão criando estratégias para continuar apoiando as mulheres de forma segura, tais como compra coletiva de equipamentos de proteção individual e priorização de encontros virtuais com a doulanda. Além disso, a FenadoulasBR está divulgando o documento Doulas e Covid-19. Guia prático para doulas, tradução do material elaborado pela associação de doulas DONA International. Outrossim, as doulas estão tecendo ponderações importantes, conscientes do fato de que os direitos das mulheres são sempre os primeiros a serem subtraídos em situações de crise.

Doulas estão em contato direto com os sentimentos de ansiedade e insegurança experimentados atualmente por gestantes e puérperas, além da apreensão das mulheres em relação ao local do parto , e sabem que as circunstâncias presentes levam ao delineamento de cenários bastante preocupantes. Por receio de se contaminar, a mulher pode esperar tempo demais em casa, antes de se dirigir à maternidade, e acabar tendo complicações; sozinha num ambiente estranho, sendo atendida por profissionais sob forte estresse, a mulher pode acabar sendo induzida a aceitar analgesia ou cesariana intraparto com o objetivo de abreviar a duração do trabalho de parto; os profissionais podem negligenciar o contato pele a pele e a amamentação na primeira hora de vida. Práticas como essas, que podem ser classificadas como violência obstétrica, levariam a um alto índice de desfechos desfavoráveis, gerando sofrimento mais ou menos intenso e duradouro, o que certamente favoreceria quadros de depressão pós-parto e síndrome de estresse pós-traumático. O puerpério em contexto pandêmico é outra inquietação, uma vez que a rede de apoio certamente será ainda mais reduzida; e, no caso de mulheres negras e pobres, há que se considerar a intensificação de sua vulnerabilidade socioeconômica.

Muitas doulas e outros profissionais de saúde críticos do atual modelo de atenção obstétrica estão de acordo em relação aos efeitos negativos da hospitalização massiva do parto e apontam como alternativa viável o modelo dos centros de parto normal, que opera de acordo com uma lógica menos intervencionista. A outra alternativa no radar, o parto domiciliar planejado, continua sendo acessível para poucas, tendo em vista seu alto custo.

Parece-me que, no contexto da pandemia, a proibição ou a colocação de empecilhos para a entrada das doulas nas instituições se deve menos ao fato de elas serem um potencial agente de transmissão do vírus e mais ao fato de serem efetivamente um “vetor” de conscientização de que a mulher não é um organismo isolado, tampouco o parto é, a priori, um evento médico. Tudo indica que a ameaça objetiva trazida pelo vírus vem sendo mobilizada pelo saber-poder biomédico no sentido de priorizar a mera sobrevivência da mãe e do bebê, por meio da atualização de imagens e pressupostos culturais fragmentadores, que alimentam a lógica patologizante hegemônica à qual o parto e todos os aspectos da reprodução são assimilados. Se é assim, havemos de reconhecer o valor da persistência das doulas em recusar a imagem da “mulher-organismo” e em colocar em prática uma ética do cuidado articulada a uma tecnologia leve, uma ética e uma tecnologia que configuram um contraponto à redução da relação de cuidado a uma série rígida de atos padronizados ou a um produto de mercado.

Conheceremos a dimensão do impacto desse cenário sobre a saúde mental das mulheres nos próximos meses e anos. Por ora, é fundamental seguir reafirmando, juntamente com as doulas e muitas outras pesquisadoras e ativistas, que a pessoa que gesta e dá à luz deve ser reconhecida como um sujeito pleno de direitos e desejos, ponto nodal de uma rede de relações que compõe e sustenta a vida – mesmo (ou sobretudo) em momentos de intensa ameaça de morte.

Notas:

Recentemente, o Grupo de Estudos Feministas em Política e Educação (GIRA) da UFBA realizou pesquisa com mulheres em todo o país; os resultados indicam a magnitude e a complexidade dos impactos da pandemia entre gestantes e puérperas (https://diplomatique.org.br/as-gestantes-em-meio-a-pandemia-de-covid-19/?fbclid=IwAR3k6XJxYbtfrJdB4aHBJ7DYhUgM_7gDaAqEuiJPUcZHFGWnoP54L6vpuNA).


Texto originalmente publicado em 27 de maio de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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