• antropoLÓGICAS

v6a18| “O vírus é de Deus, mas o presidente não pensa na saúde do povo”

sobre sofrimento, doença e teodiceias


Por Réia Sílvia Gonçalves Pereira. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora.



Figura 1: Muro da localidade de moradia de Maria

Fonte: arquivo pessoal



Neste texto, trago o relato de Maria2, uma mulher de 41 anos, de pertença pentecostal e moradora de uma favela de Campos dos Goytacazes, norte do Rio de Janeiro, onde atuo como pesquisadora. Em seus relatos, Maria conta como está vivenciando a quarentena. Entre a crença da origem divina do coronavírus e a preocupação pela preservação da saúde, Maria encontra novas possibilidades de exercício da crença longe dos templos. Atenta às disputas políticas travadas no período, contesta a postura do presidente Jair Bolsonaro na condução da crise sanitária. Maria apresenta algumas das controvérsias entre os evangélicos nos tempos de pandemia, colocando em perspectiva os conceitos de teodiceias (Das, 2008).

Integrante de uma das dezenas de igrejas pentecostais situadas na localidade onde mora, Maria teve a rotina alterada com a propagação da doença. Devido à suspensão dos eventos religiosos, Maria adaptou suas práticas devocionais. Antes, acostumada a frequentar os cultos cerca de quatro vezes por semana, Maria tem um cargo destacado na hierarquia da igreja. É uma diaconisa, responsável pela supervisão dos cultos. Maria também é considerada uma profetisa. Durante os rituais, é ungida pelo dom da “revelação”, o que lhe garante o saber profético de dizer sobre o futuro.

Seu reconhecimento como profetisa ultrapassa os muros do pequeno templo em que congrega. Antes da pandemia, ao circular pelos estreitos becos da favela, a religiosa era procurada pelos vizinhos para que fizesse orações de cura contra supostas feitiçarias e invejas.

Com a decretação do isolamento social e a partir do conselho de uma assistente social, Maria, que é diabética, pouco sai. Atualmente, lê a bíblia com os seis filhos na casa de quatro cômodos. Eventualmente, recebe a visita de algum vizinho para receber suas orações. Também assiste às lives de cultos.

Embora acredite que a doença seja uma forma de “correção” divina para que “o povo volte à santidade”, Maria defende a quarentena e critica as últimas ações do presidente Jair Bolsonaro.

Eu vejo o presidente com um pouco caso em relação ao povo. Ele vai nas entrevistas e fala que o povo está muito apavorado. Como se essa doença fosse uma coisa não muito grave. E a gente sabe que é grave. Eu vejo que ele não está agindo como deve agir. Acho que é pela própria índole dele (informação verbal)3

Sobre a demissão do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, Maria enxerga uma suposta postura autoritária do presidente: “Isso de ele ter despedido o outro ministro foi porque ele não estava aceitando sair do isolamento (...) Eu vejo que ele não está pensando na saúde do povo” (informação verbal)4.

Maria não é um “retrato” dos evangélicos. Ao contrário disso. Suas posturas demonstram como o campo religioso é complexo. As opiniões da religiosa apontam que os adeptos não formam um bloco homogêneo e muito menos são justas as comparações comuns, mas preconceituosas e apressadas, de que os evangélicos formariam um “rebanho de ovelhas” sem criticidade.

Percebe-se tal criticidade justamente porque as posturas de Maria contrariam o esforço de aproximação do presidente aos religiosos. Nessa estratégia, contando com a adesão de líderes de grandes denominações como Silas Malafaia e Valdemiro Santiago, Bolsonaro chegou a conclamar um jejum nacional contra a pandemia na semana da Páscoa.

Prática religiosa comum entre os pentecostais como Maria, o jejum é instrumento que possibilitaria ao crente um fortalecimento de sua fé na luta contra o mal, travada cotidianamente. Essa luta diária é o que os religiosos chamam de batalha espiritual. Por essa teologia, o mundo estaria em uma constante peleja entre representantes do bem, os anjos, e entre os demônios. Nessa racionalidade, Deus, onisciente, permitiria que, por vezes, o mal afligisse os humanos para testar a fé. É por acreditar na batalha espiritual que Maria interpreta a pandemia de coronavírus como fruto da “vontade de Deus”. Ao conclamar o jejum, era aos cristãos conservadores conhecedores da batalha espiritual que Bolsonaro acenava. Possivelmente, seu intuito era se colocar como um guerreiro da batalha espiritual.

Maria chegou a fazer o jejum, mas ressalva: “Eu jejuei, mas foi pelo Brasil, não pelo presidente. Acho que falta para ele sinceridade” (informação verbal)5. Se com o jejum a intenção de Bolsonaro era se colocar aliado dos pentecostais na batalha espiritual, pelo menos para Maria, o intuito falhou. Se para Maria faltou sinceridade na atitude do presidente, outros tantos evangélicos continuam a compor sua mais forte base (ALMEIDA, 2019), mas o que os depoimentos apontam são a heterogeneidade e fissuras desse apoio.

Muitas dessas fissuras ao apoio a Bolsonaro se relacionam com o modo como Maria experiencia a fé. Como dito, concorda com a origem divina e espiritual da doença. Entende que suas orações, mesmo longe dos templos, são importantes na batalha contra a doença (PEREIRA, 2018). “O povo tem que clamar o nome de Deus para sarar nossa terra. Até hoje o homem não encontrou um remédio, uma vacina. Então, temos que colocar todos os dias os joelhos no chão e clamar ao Senhor” (informação verbal)6.

Contudo, mesmo em suas crenças, Maria demonstra que entende as veleidades das relações das políticas dos homens. Compreende que, mesmo na origem espiritual da Covid-19, a saúde e a vida do povo estão nas decisões humanas.

Argumento que o relato de Maria coloca em relevo as reflexões de Veena Das (2008) sobre teodiceia. Com o conceito, apropriado pela autora de Leibniz e Weber, Das reflete sobre as justificativas para o sofrimento. Primeiramente em Weber, percebe-se no autor o esforço em se debruçar sobre a ideia de teodiceia ao formular que a racionalização das religiões possibilitou uma “explicação” para a injustiça (Das, 2008). Deus permite o sofrimento. Essa é a grande teodiceia das religiões. Em suas reflexões, porém, Das concebe que o Estado também se apropria jurídica e burocraticamente do sofrimento coletivo em nome de um projeto de sociedade. Um sofrimento pedagógico. Uma teodiceia secular (Das, 2008).

Dessa forma, me parece que Maria, ao questionar a índole do presidente pelo “pouco caso” à doença e, ao mesmo tempo, conceber a epidemia como obra de Deus, negocia com as duas possibilidades de teodiceias. Uma negociação possível. Mas, para Maria, o sofrimento permitido por Deus se legitima. Quanto à apropriação do sofrimento pelo Estado investido pelo nome do presidente, Maria contesta. Em sua visão, o descaso à saúde do povo não se justifica. Nem mesmo como teodiceia.


Figura 2: Viela da localidade de moradia de Maria

Fonte: arquivo pessoal


Referências:

ALMEIDA, RONALDO DE. Bolsonaro President: Evangelicals, Conservatism, and Political Crisis. Novos estudos CEBRAP, v. 38, n. 1, p. 185-213, 2019. DAS, Veena. Sufrimientos, teodiceas, prácticas disciplinarias y apropiaciones. Sujetos del dolor, agentes de dignidad, p. 437-458, 2008. GONÇALVES PEREIRA, Réia Silvia. "Juventude é curtição, o problema é se jesus voltar": cultura funk, pentecostalismo e juventudes nas camadas populares. Religião e Sociedade, v. 38, n. 3, 2018. MARIZ, Cecília Loreto. A teologia da batalha espiritual: uma revisão da bibliografia. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, v. 47, n. 1, p. 33-48, 1999.


Notas:

1 O podcast Cientistas Sociais e Coronavírus n.7 traz o relato de Dona Maria https://anchor.fm/cienciassociaisecorona/episodes/Cincias-Sociais-e-Coronavirus---Dona-Maria-eef955

2 Nome fictício

3 Entrevista com Maria, obtida em 20 de abril de 2020

4 Entrevista com Maria, obtida em 20 de abril de 2020

5 Entrevista com Maria, obtida em 20 de abril de 2020

6 Entrevista com Maria, obtida em 20 de abril de 2020



Texto originalmente publicado em 28 de maio de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.


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