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v6a20|A silenciosa Highway no Improvisado Hospital Campanha em tempo de pandemia de Covid-19

Por Albênia Maria Faustino de Sousa. Nutricionista. Especialista em Nutrição Materno-Infantil e adolescente pela Escola de Saúde Pública do Ceará. Pesquisadora colaboradora do Grupo interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e intervenções em Psicologia Social Crítica (PARALAXE), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).



Photo by Diego Jimenez on Unsplash



“Escute garota, o vento canta uma canção

Dessas que a gente nunca canta sem razão”


A garota escutou, pois o seu primeiro dia de trabalho em um hospital campanha improvisado em tempo de pandemia, ela desmoronava. E assim para seguir o dia de experiências terríveis, a música a resgata mantendo sua sanidade, o consciente traz a canção, acionada pela memória, no meio do desespero, porque o olhar alcançava somente os carros levando corpos. O sofrimento do sujeito produz resiliência e talvez uma resistência. O corpo vagueia por aqueles corredores e a canção fala de uma infinita Highway. De que se trata essa letra de tantos anos atrás? Curiosamente ao pesquisar no Google vem uma explicação bem conveniente, essa Highway vem de uma palavra inglesa que significa autoestrada, uma obra da banda dos Engenheiros do Havaí nos anos 80, a estrada solitária com direção ao desconhecido sem visão de um fim ou seria na verdade “o fim”?


“E a sombra do sorriso que eu deixei

Numa das curvas da highway”


Havia um sorriso bobo e fácil deixado no dia que o dedo passou pelas folhas do jornal de época, papel fino e cheiro forte, um nome estava na lista de aprovação do vestibular, curso de saúde de concorrência alta, universidade pública e o sonho seria realizado: primeira formação daquela família de várias gerações, e um sangue miscigenado de negro e índio, povo do Brasil de vulneráveis. As curvas foram tamanhas podendo ter bagagens perdidas, porém o mais importante é que não se perdeu a esperança, tão clichê e tão necessária em provocar a luta.


“É sobretudo a lei

Da infinita highway”


Se fosse possível extrair um pedaço da desordem que vivia o Brasil por conta da pandemia e analisar, então você pega um punhado de terra do nordeste, um município do Ceará e coloca uma lente de aumento por dentro do “hospital campanha” improvisado. Uma cidade com pouco mais de 50 mil habitantes com uma gestão atrapalhada. Para melhor compreensão basta lembrar que é ano de eleições municipais e um patógeno assassino assola o mundo, é o suficiente para acabar desajustando todo um plano de campanha eleitoral? Ou seria mais uma oportunidade de promoção?


“Você me faz correr demais

Os riscos desta highway”


O contexto assustador de pandemia e uma população confusa, eis que surge a gambiarra, termo muito utilizado por nordestinos para improviso. A Secretaria de saúde, direção e coordenadores todos em uma correria para encontrar a solução para um caos no que refere “cuidado” ao paciente, mais uma vez entre aspas, porque o conhecimento sobre cuidar, pensando no cuidado de um objeto é de não quebrar; é de ter um plano no transporte para não derrubar ou não arranhar ou não danificar, cuida da integridade. No que refere um Hospital o cuidado é com vidas e nada foi planejado para manter a integridade do sujeito. Um desmembramento de serviços essenciais de saúde como a maternidade e a emergência clínica foi desinstalado para se obter um hospital campanha para o tratamento da Covid-19. Uma ação que exemplifica bem no que diz respeito a fechar um buraco abrindo outro.


“Eu não tinha nada, nada a temer

Mas eu tinha medo, medo desta estrada”


E, assim, segue o primeiro dia de trabalho neste improvisado serviço hospitalar: despertador toca; organiza os pertences e a mente; escolhe a roupa mais resistente à contaminação, se é que isso seria possível; bebe um café forte para afastar o sono e outros sentimentos, a infusão desce na garganta como fosse um pedaço de tijolo. A luta contra o medo e a insegurança é travada.


“Ninguém por perto, silêncio no deserto

Deserta highway”


O cenário da rua enfrente ao hospital era curiosamente diferente. Há anos que o movimento é intenso, havia comércio de lanches diversos em quase todas as casas com fachada para instituição, dezenas de motoqueiros fazendo fretes, muitas pessoas desciam dos “paus de arara” vindos de vários distritos do município. Nada disso mais estava lá, havia um vazio. As janelas e portas das casas estavam trancadas, uma rua fantasma.


“Estamos sós e nenhum de nós

Sabe exatamente onde vai parar”


O pátio do hospital sempre lotado com carros de diversos profissionais estava dando lugar a uns poucos transportes e a facilidade em estacionar era intrigante. O pequeno jardim ao redor dos muros dava lugar ao lixo que voava das lixeiras lotadas de máscaras, vestimentas de proteção descartáveis, gorros, pró-pés encardidos e copos de plástico. O vento tomava conta do que o jardineiro de atestado não tomava mais.


“Mas não precisamos saber pra onde vamos

Nós só precisamos ir”


Cada passo aumentava aflição e a solidão, corredores desertos e escuros, cheiro de sangue coalhado com fezes e água sanitária, tudo misturado em odores no ambiente. O balcão da entrada vazio, não se alcançava o olhar da funcionária da recepção. O guarda municipal que ficava na porta de correr conversando com o seu companheiro da mesma profissão, ambos não estavam em seus postos de preservação do público, a porta de entrada estava escancarada e dava visão ao corredor principal de pouca iluminação, mas luz suficiente para ver uma maca com uma senhora deitada, sem ninguém ao seu redor, não dava para identificar se tinha vida ou se já era mais um número, inerte ao lado da porta que outrora era a farmácia, distribuidora (EPI). O cômodo estava vazio, não tinha mais nada, o corpo da senhora estava descoberto de um lençol e de proteção.


“Não queremos ter o que não temos

Nós só queremos viver”


O único objetivo de todos é viver, o plano é estar um pouco mais neste mundo, pode até não ter muitos motivos ou objetivos, não se preocupando de ser fútil ou não, mas todos nesta autoestrada exigem o direito de lutar pela vida. Um leito digno ao cuidado e a provisão de uma chance mínima em permanecer. Quantos deste Brasil conseguiram esse direito ao tratamento hospitalar digno garantido por lei?


“Sem motivos, nem objetivos

Estamos vivos e isto é tudo”


Tudo foi mudado, transportado, alterado com rapidez que o cérebro de qualquer funcionário não acompanhava. Um dia trabalhado no hospital municipal e no outro um hospital campanha. E no mesmo corredor central há um balcão com os prontuários espalhados, pia para separação dos medicamentos dos pacientes internados, neste lugar sempre tinha dois ou mais técnicos de enfermagem para informações sobre o paciente e agora só o silêncio e os papéis.


“Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor

Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava”


Mais adiante no corredor segue para o conhecido fundo do quintal do hospital escutava vozes alteradas. Uma cena triste de dois personagens que fazia parte de um espetáculo de horrores, diálogo do absurdo: - Como eu faço para trabalhar sem me contaminar? Maqueiro que não tem nem máscara de proteção? Como irei levantar e transportar pacientes sem me contaminar? O funcionário questionador estava com suas roupas que colocou para ir trabalhar e na sua mão uma máscara de tecido feita artesanal, o seu corpo se movimentava freneticamente demonstrando o terror que o seu oficio o faria encarar naquele dia. A sua colega de trabalho escutava calada, funcionária da lavanderia, acolhia a preocupação de seu colega aflito, no mesmo patamar de dificuldades, sua roupa simples ainda estava manchada com o pingo de café preto que tomara rapidamente em sua humilde residência, pouco antes de sair de moto em ruas de barro de um distrito distante para chegar e assumir um plantão de anos assumidos, mas não tão traumático como aquele dia.

Na entrada da cozinha estava uma profissional do serviço de limpeza, touca fina descartável na cabeça mostrando o louro alaranjado do cabelo, máscara no rosto, luvas de procedimento nas mãos, relatava a copeira mais um fato desumano, a fome dos pacientes. Eles não comiam desde o plantão anterior, somando aproximadas dez horas sem alimentação, para um convalescente significava uma involução no seu quadro clínico. A copa ficou fechada a noite toda, pois não havia equipe para o novo serviço.


“Não queremos lembrar o que esquecemos

Nós só queremos viver”


O plantão noturno passado era para ser esquecido e a enfermeira que tinha assumido, respondeu algumas questões e tudo se resumia a falta de funcionários. A equipe dispôs de um serviço geral, um enfermeiro, um técnico de enfermagem e um médico para o “cuidado” de nove pacientes internados. A primeira noite de um hospital de cuidados intensivos ao paciente fora de intensidade máxima para o colaborador, exaustos, não cabia mais nas suas mentes e corpos cansados o raciocínio de quem era a culpa deste descaso.

Quanto mais os funcionários do serviço iam se apresentando ao trabalho, mais as dúvidas, transtornos e incertezas se instalavam. As perguntas surgiam como enxurrada levando a pouca estrutura dos ânimos, da força, da técnica e da própria dignidade.


“Estamos vivos e é só

Só obedecemos a lei”


Uma confusão desmedida, a construção daquele hospital já não seguia normas técnicas e nem mesmo uma coerência de fluxo. Diante do improviso o que era antes tolerável como transformar um necrotério em estoque dos alimentos, agora era um projeto de riscos sem dúvidas. A porta da cozinha onde saia marmitas para serem transportadas e distribuídas para outros lugares era a mesma saída dos carros da funerária. Os corpos mortos passavam em macas descobertos pelo corredor da distribuição dos alimentos. Alimentação transportada em marmitas de alumínio em caixas de feira, sujas e jogadas em um carro de aluguel particular que servia para outros fins. Tanto descuido com a segurança e integridade de pacientes e funcionários transformava o cenário de pandemia em pandemônio.

Tão deserto quanto à música fala é o serviço único de saúde do Brasil, uma construção de um sistema planejado para servir os mais vulneráveis, mas por que a morte desses são os que mais crescem nessa pandemia? Não precisa ser especialista em gestão pública para saber que a conta não bate do tamanho montante de impostos surrupiados de todos os dropes comprados e nada retornado em cuidado, não há sombra de uma palmeira para a sociedade pobre, pessoas morrem por falta de equipamentos básicos hospitalares, município turístico do nordeste com suas dunas exploradas pelos parques eólicos, em meio a uma doença como a Covid é indisponível um respirador ou o que dirá um desfibrilador. O hospital supracitado foi construído, inaugurado e exibido como um grande feito do prefeito da época, um Oasis no deserto, na verdade uma miragem.

A vida estava ameaçada e a estrada somente se trafegava sozinho, nenhuma visita, somente os odores e horrores de um hospital mantido pela vaidade de gestores, usando o público para autopromoção. Necessitava de muita estratégia psicológica para não sucumbir à insanidade provinda da revolta. Ninguém precisava morrer tão sem amparo como as mortes neste país, uma indignação moral surge diante dessas circunstâncias.


“Não queremos aprender o que sabemos

Não queremos nem saber”


A lembrança de um povo que anos sofre é falha, assim como fica um indivíduo que sofre de desnutrição, sua memória é fraca. Este país vive tantas privações numa desnutrição crônica coletiva que não percebe mais a fome de assistência. Não distingue mais o que o cuidado provê e aceita o “não cuidado” como normal e pior como um favor. Não exige o direito ao tratamento, agindo numa alienação, não querem nem saber e aceitam qualquer coisa. Mas a lente da pandemia não falha e ainda mostra os desajustes de prioridades e a discrepância dos favoritismos. A vida dos desmemoriados não vale muito, se não conseguem produzir, melhor morrer, apenas números. Esse é o país que é melhor mesmo é ficar sem saber.


“Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre

Se tanta gente vive sem ter como vive”


Obviamente, o objetivo desta escrita nunca foi analisar a letra de uma música, mas quão forte o mergulho em cada estrofe, inevitável não provocar questionamentos. Dessa forma mais pensamentos surgem diante do contexto atual. O momento de descrever um dia difícil vivido toma forma na escuta da música. A mente não estava cantando sem razão esta música, nunca letras tão filosóficas não estariam latejando assim sem motivo. A highway do paciente e do funcionário era suas prisões nessa pandemia. Qual escolha um morador daquele município tinha em escolher o leito? E o servidor público escolhia onde poderia trabalhar? O colaborador de saúde deve estar disponível e pronto para o trabalho, mesmo diante dos riscos?


“Mas nem por isso ficaremos parados

Com a cabeça nas nuvens e os pés no chã”


Seria melhor mesmo ficar com a cabeça nas nuvens? Infelizmente os pés tocam o chão e este afunda a cada passo quando se olha para o Sistema Único de Saúde. Uma engrenagem corrompida e assim a morte é inevitável. Neste primeiro dia três corpos mortos antes do plantão findar e o pensamento provoca a pergunta: qual a escolha que tiveram ao serem tratados? Escolheram usar ou não respirador? A equipe de colaboradores era suficiente para remediar cada morte? Melhor não pensar muito na responsabilidade. O correto é aceitar que muitos não têm como viver e ponto?


“Eu vejo um horizonte trêmulo

Eu tenho os olhos úmidos”


As palavras se escondem da boca e não são verbalizadas e assim o corpo que não fala, promove uma escrita de dores somatizadas. O grito de basta é contido porque a represália política e o boicote do serviço eram certos. O manifesto não tem lugar quando se é servidor de um sistema formatado pela política, o serviço serve para promoção do candidato a uma reeleição. Não pode barulho de revolta, segue uma silenciosa estrada de conformidade. Um falso controle deve ser apregoado, no entanto essa falsidade se estampa nos dados estaduais, índice de morte elevado nos primeiros dias de contato do município com o vírus.


“Por isso, garota, façamos um pacto

De não usar a highway pra causar impacto”


Tantas teorias, tantos pensamentos, ensaios críticos, uma necropolítica instalada. Racionalizar todo o esquema seria viável, leitura de um livro com toda a psicologia crítica do grupo de pensadores da escola de Frankfurt poderia ser a introdução de alguma ação para evadir a alienação. Mas não cobre a responsabilidade de cada atitude catastrófica daquele dia. Obvio não poder fazer impacto, uma política de morte e ascensão do poder precisa continuar, até quando e a qual custo?

“Mas a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza”


Como manter a ética com tantas vertigens de verdade, ações e atitudes corruptas. Não fazer nada é colaborar, mas a vida de insegurança e de perseguição no trabalho público é um preço alto, então corre para o lado errado. Toda a orientação dessa nova auto-estrada de morte dispõe de placas não fale, não pare e não morra.


“Eu vejo as placas dizendo

Não corra, Não morra, Não fume”



Photo by Nick Fewings on Unsplash



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