• antropoLÓGICAS

v6a4| A gélida pandemia nos trópicos

Por Cynthia Maria Jorge Viana. Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG). Doutora em Educação (PPGE/UFG). Psicóloga e Mestre em Psicologia (PPGPSI/UFSJ).


Foto: Silvia Cristina dos Reis, Mestre em Artes, Urbanidades e Sustentabilidade (UFSJ).


Não estão sendo dias fáceis. Os processos de sociabilidade nestes (não tão) novos tempos vêm nos trazendo enormes desafios. Palavras e expressões como em tempos de pandemia, isolamento social, quarentena, trabalho remoto, ensino emergencial, entre tantas outras, expressam, como emblemas linguísticos de um tempo obscuro, marcas de uma socialização cada vez mais sufocante. As novas formas de relacionamento entre as pessoas põem em questão a capacidade humana para o cuidado, de si e do outro, como traço e exercício de civilidade. Civilidade, nesse sentido, aproxima-se do sentido de humanidade: em sua substancialidade histórica, ambas resguardam a possibilidade de realização do humano no contato com o outro.


Para o filósofo alemão Theodor W. Adorno (1903-1969), a civilidade contém a ideia da consideração da diferença como possibilidade de experiência universal e particular em uma humanidade cuja tarefa histórica é a realização de uma vida justa e sem sacrifícios desmedidos a todos e a cada um de nós (ADORNO, 1951/1993). Como a humanidade vem se estabelecendo como exercício da frieza e da suposta necessidade de dominação, o que se tem é o que lhe é mais contrário: indiferença e incivilidade. No limite, a falta de cuidado vem se revelando como (des)humanidade e, nestes tempos, como desespero diante da morte.


A pandemia da Covid-19, entre tanta tristeza, dor e morte, põe-nos diante de, pelo menos, três elementos óbvios. O primeiro elemento é o de que somos seres sociais e históricos, o que significa dizer que a constituição humana se faz exclusivamente na relação com o outro, sendo a história a síntese entre continuidade e rupturas do que nós humanos – ainda natureza, natureza transformada – fomos capazes de realizar, material e espiritualmente. Nossa necessidade constitutiva de afeto, de contato com o outro, de socialização e, ao fim e ao cabo, de amor, mostra a força e a fragilidade humana. A constituição do que somos se faz na introjeção da cultura – na apropriação subjetiva da cultura – e na objetivação diferençada dos elementos culturais (ADORNO, 1966/1996). Somos o que somos ao participarmos da coletividade, ao nos identificarmos com os demais participantes desta coletividade e, a partir disso, sermos capazes de nos diferenciar dela. É nesse movimento de apropriação da cultura, de contato afetivo e troca genuína, que reside a possibilidade de não nos conformarmos com a vida tal como ela se apresenta, de nos unirmos ao sofrimento alheio e de não nos prostrarmos cegos diante dos outros. É isso que nos faz singulares e, ao mesmo tempo, universais em semelhança humana com os demais participantes da cultura – e o que faz também sentirmos tanta falta de tantas pessoas queridas e insubstituíveis nestes tempos de isolamento.


O segundo elemento, também óbvio, é o fato de que a barbárie acompanha a civilização, como já sinalizava Sigmund Freud (1956-1938). Quando afirma no texto “O futuro de uma ilusão” que “[...] todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização, embora se suponha que esta constitui um objeto de interesse humano universal” (FREUD, 1927/1974, p. 16), o autor deixa claro a oposição inevitável entre os desígnios pulsionais e os alicerces da cultura. Esta última – como conhecimento humano acumulado, normatização da vida comunitária entre os homens e possibilidade de controle da natureza, interna e externa, para satisfação das necessidades – se estabelece como repressão e luta constante pela sobrevivência, psíquica e material. A cegueira dos homens com relação a isto mostra, de modo latente, o grau de repressão da cultura e sua capacidade de se estabelecer como uma racionalidade substanciada pela dominação e pela barbárie. Enquanto luta e tensão, civilização e barbárie se mantêm numa relação tênue e prestes a irromper (HORKHEIMER; ADORNO, 1947/1985). Em nossos dias, a pergunta que se repõe é: quantas mortes, quantas vidas, quanto descaso por parte do governo, quanta falsa “normalidade” conviverá em suposta “harmonia” com aspectos civilizatórios? O curso da história nos dirá, de modo implacável, o preço da concessão ao progresso irrefreado da produção material que se coaduna com a barbárie.


O terceiro elemento, e não menos importante, é a recomposição do trabalho como expropriação da vida humana e sua invasão abrupta em nossas casas – isso para aqueles que, nessa pandemia, conseguiram trabalhar desde suas casas. O velho Karl Marx (1818-1883), já no século XIX, registrava em uma obra magistral a relação entre os homens e a natureza mediada pelo trabalho. Por meio dele, os homens transformam a matéria natural em meios de satisfação de suas necessidades, recriam-nas e produzem meios de satisfazê-las, estabelecendo formas específicas de relações humanas (MARX, 1867/1988; 1932/1979).

Como objetivação humana, o trabalho no modo de produção capitalista, como trabalho alienado, transforma a vida humana em vida estranhada, em relações de troca ocultadas, em relações humanas fetichizadas: empobrecidas, gélidas e adoecidas. Quando, nos trabalhos que ainda nos restam – e vale lembrarmos que estes não estão assegurados, já que o perigo da perda do que garante a sobrevivência está posto a todos e a cada um de nós –, participamos de reuniões de trabalho infindáveis via plataformas de videoconferência, e vemos nossas casas (física e psíquica), e quase todas as instâncias de nossas vidas serem invadidas, refletimos sobre o lugar que cada um ocupa em um mundo tão desumano e desigual. Vale lembrarmos que isso escancara a naturalização da expropriação do trabalho e da violência e expõe (ou deveria expor) à vergonha aqueles que ainda têm algo a perder e a ser invadido por alguma coisa: aqueles que têm uma porta de uma residência para deixar o trabalho entrar, enquanto a outros muitos nem isso está garantido.


A pandemia da Covid-19 também expõe problemas sociais estruturais falseados em cisões insustentáveis que misturam todo e parte, coletivo e singular, público e privado, saúde e economia, e hipostasia uma vida em que o não medo da morte parece expressar uma vida sem sentido. Uma vida que transforma a vida de pessoas em números, e números em estatísticas diárias. A frieza do cálculo do incalculável expressa a marca desta sociedade: uma vida balizada no medo e na desesperança. O fino véu da racionalidade técnica que nos domina, da qual somos tributários, estampa uma contradição implacável, especialmente nesses tempos em que a vida se encontra tão ameaçada. Entre destroços que resguardam calor humano e indiferença temos um clima cultural cujos vestígios de tempos de guerra faz-nos lembrar a luta diária pela vida em nossos dias de pandemia, de fascismo e de ataque a democracia. Tudo isso com sensações especialmente gélidas nos trópicos brasileiros.


Esta situação social exacerba e expõe esses e outros elementos que, mesmo antes da crise provocada pela pandemia, já se encontravam desenvolvidos a ponto de revelarem a história como desencadeamento lógico e histórico de relações sociais (des)humanas pautadas pela troca, pela exploração e pelo individualismo. Para Walter Benjamin (1892-1940), estamos pobres em experiência – e isso há muito tempo – posto que a história vem arrastando a vida como expressão da morte; o progresso técnico como retrocesso humano. Para o autor, “Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio humano, tivemos que empenhá-las muitas vezes a um centésimo do seu valor para recebermos em troca a moeda miúda do ‘atual’” (BENJAMIN, 1933/1987, p. 119). Essa miudeza traduz uma atualidade que, hoje, ao caminhar para um “novo normal”, promete desafios impensáveis que nos remetem à superação do que foi e está sendo bárbaro: um passado que não passou, “um avesso do mesmo lugar”[1] que ainda nos assombra, recolocando questões humanas, sociais e éticas. Os desafios, gélidos e trópicos, para a teoria e para a práxis, estão postos!

Referências:


ADORNO, Theodor. Minima moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução Luiz Eduardo Bicca. 2. ed. São Paulo: Ática, 1993 (Original publicado em 1951).

______. Teoria da semicultura. Tradução Newton Ramos-de-Oliveira; Revisão Bruno Pucci e Antônio A. Soares Zuin. Educação & Sociedade, Campinas, v. 17, n. 56, p. 388-411, 1996 (Original publicado em 1966).

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. In:______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 114-119 (Obras Escolhidas, v. 1) (Original publicado em 1933).

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21. p. 13-71 (Original publicado em 1927).

MARX, Karl. Manuscritos: economía y filosofía. Tradução, introdução e notas Francisco Rubio Llorente. 7. ed. Madrid: Alianza Editorial, 1979 (Original publicado em 1932).

______. O Capital: crítica da economia política. Tradução Régis Barbosa; Flávio R. Kothe. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. v. 1. Tomo 1. (Original publicado em 1867).



Nota:

[1] Samba enredo “História para ninar gente grande”, Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira/RJ, vencedor do Carnaval 2019.

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