• antropoLÓGICAS

v6a9| As imagens e as experiências da quarentena

Por Ana Beatriz Mieka Fujimoto. Estudante de Bacharelado em Ciências Sociais na FFLCH-USP.




Introdução


A pandemia da Covid-19, declarada no início de 2020, trouxe impactos diretos sobre o cotidiano da maior parte da população no mundo e no Brasil. Algumas das consequências foram o isolamento social trazido pela quarentena, a recessão econômica, a crise sanitária e hospitalar, dentre outras. Sentimentos tais como a solidão, o tédio, a ansiedade e o medo se tornaram cotidianos, trazidos pelas incertezas e pela impotência diante de uma pandemia global. A experiência da quarentena originou uma descontinuidade em nosso dia a dia, a partir do momento em que o espaço da casa se tornou o todo. Espaço no qual se trabalha, estuda, descansa, alimenta, consome (através de compras online, delivery) e no qual as interações sociais ocorrem, seja presencialmente, com os moradores da residência, ou virtualmente, com amigos e parentes ou até desconhecidos.


À medida que as experiências cotidianas se alteraram com a quarentena, as imagens divulgadas nas redes sociais e na mídia também acompanharam tais alterações e as distintas percepções da quarentena e da pandemia como um todo. As imagens são uma das formas de expressão mais utilizadas contemporaneamente, seja através de fotografias publicadas nos jornais, nas redes sociais, através das “selfies”, dentre outras possibilidades. Logo, as imagens trazem consigo as narrativas das experiências vividas, desejadas, lembradas e até mesmo inventadas.


Portanto, o objetivo do presente trabalho é explorar quais são algumas dessas imagens e as experiências vividas neste momento de quarentena trazidas pela pandemia da Covid-19, tanto na visão macro (de fora) quanto na visão micro (de dentro). São distintas as narrativas contadas deste período: se por um lado se encontram expressões do tédio e da impaciência durante o confinamento dentro de casa, por outro, revela-se puramente a crise sanitária que vivemos, e uma consequente intensificação das desigualdades sociais, que geram a falta de itens mais básicos como o alimento e produtos de higiene. Deste modo, refletiremos sobre as seguintes questões: O que será lembrado da quarentena da Covid-19? Quais serão as memórias e impressões deixadas por este período? Como as imagens e as expressões deste momento ímpar podem montar narrativas? E por fim, qual será a narrativa, ou narrativas contadas?


Tais questões serão refletidas a partir dos conceitos e características das “imagens” e das “experiências” de longe e de perto, do mundo e do Brasil, do Brasil e de São Paulo, da rua e da casa. Também será feita a análise de imagens divulgadas publicamente na mídia deste período, que mostram tanto percepções distintas da quarentena, quanto sentimentos compartilhados por muitos.


A quarentena do macro


Ao refletir sobre uma visão macro, buscamos compreender como o isolamento social se deu em um espaço afastado fisicamente do cotidiano do interior de um domicílio ou vizinhança local. Durante as primeiras semanas da quarentena ao redor do mundo (entre março e abril de 2020), juntamente com os informativos diários e números de contaminados, recuperados e mortos pela Covid-19, os noticiários divulgavam fotos dos principais pontos turísticos frente ao isolamento social. As imagens de locais que outrora se encontravam repletos de turistas e moradores, agora refletiam o vazio causado pela pandemia. Tal como afirma Didi-Huberman (1998), podemos ver o invisível e tocar o intocável através de uma visão atrelada aos sentimentos. Quando nos deparamos com tais imagens, vemos além do que é físico, e nossa visão acaba por nos remeter uma perda e a própria experimentação do invisível, do vazio.

Quadro 1[1]


As imagens acima representam o isolamento social nos seguintes espaços: no Arco do Triunfo e na Torre Eiffel, ambos em Paris, na Times Square, em Nova York, e a missa do Papa Francisco, sozinho na Praça São Pedro, no Vaticano.


Apesar das imagens refletirem espaços e momentos distintos, quando reunidas, refletem uma condição em comum: o vazio das cidades causado pela pandemia da Covid-19. Sendo que tais representações ainda são recentes em nosso imaginário, pode ser desafiador concebermos que ao longo do tempo elas podem se tornar distantes e dispersas. Diante desse possível cenário, Didi-Huberman afirma que as lacunas deixadas na história são preenchidas tanto pela imaginação quanto pela montagem, ou seja, o historiador, ao contar “[...] ‘uma história’ consegue mostrar que a história não é senão todas as complexidades do tempo, todos os estratos da arqueologia, todos os pontilhados do destino” (DIDI-HUBERMAN, 2012, p. 212). Neste mesmo sentido, Rouillé (2009) afirma que a fotografia pode ter tanto a função de fragmentar o mundo, ao se portar como um documento, quanto de ordená-lo, ao ser organizado em álbum ou arquivo. Quanto à função da fotografia pela imprensa, esta seria utilizada com a função de difundir o saber e informar.[3]


Outro quadro de imagens em que podemos observar o impacto do isolamento social, é composto por alguns dos principais pontos turísticos da cidade de São Paulo. Logo abaixo se encontram: a Ladeira Porto Geral (25 de março), Teatro Municipal de São Paulo, Viaduto do Chá e a Avenida Paulista.

Quadro 2[2]


Em todos estes espaços observamos como o papel do fotógrafo é essencial para captar o melhor ângulo da paisagem, além de saber combinar os equipamentos, a luz e os volumes presentes na fotografia. (SAMAIN, 2012) Apesar de não estarmos fisicamente presentes nos referidos pontos turísticos, entramos na relação do ‘viver o mundo através da imagem’, assim como afirmado por Rouillé (2009). Ou seja, podemos observar de maneira cômoda e distante aquilo que representou uma experiência vivida pelo fotógrafo. Bruner (1986) afirma que a experiência vivida é pessoal e interior, no entanto, pode ser transmitida aos outros através da interpretação das expressões. No caso do fotógrafo, suas fotografias são as expressões de suas experiências, que por sua vez não se encontram isoladas, mas acompanhadas com um contexto histórico. O observador, ao refletir diante de imagens da cidade e seu vazio, experimenta em si algo distinto do fotógrafo, mas a partir das expressões do mesmo. Isso reflete o pensamento do autor, em que as experiências estruturam as expressões e as expressões estruturam as experiências.


Há muitos sentidos para “experiência”. De acordo com Frederick Turner (1986), se trata de uma palavra volátil com uma ampla variação de significados: a experiência vivida, a experiência lida, o conhecimento de algo etc. Diante de tantas notícias, decretos, opiniões médicas, políticas, civis e informações visuais, nossas experiências vividas durante a quarentena acabam transpondo nossa individualidade, e se confundem às experiências de outros, pelas expressões e informações que chegam até nós. Não se trata de um isolamento social espontâneo, em que o objetivo é refletir acerca da vida e de suas nuances, e sim, de um isolamento obrigatório, repleto de inquietação, incertezas e sobrecarga de informações.


Ao nos depararmos com as imagens da cidade esvaziada de movimento, de pessoas, de carros, nos encontramos em uma situação de descontinuidade, que é revolucionária, criando uma nova realidade e novos arranjos sociais (BRUNER, 1986). As narrativas mudam conforme o contexto vivido. O “novo normal” do que tanto se fala, é justamente proveniente da quebra das narrativas antigas, que passam a ser desacreditas, e novas regras são constituídas. Os decretos que regulam tanto a rigidez quanto a flexibilização da quarentena, dos comércios, das empresas, do rodízio de carros, da obrigatoriedade da máscara, dentre outros, são os principais responsáveis pelas alterações cotidianas frente à pandemia da Covid-19. As diversas imagens dos locais turísticos esvaziados ao redor do mundo e também em São Paulo, reforçam o pensamento de que as imagens podem ser mais relevantes que as palavras (SAMAIN, 2012). Assim como a ideia de que a fotografia contribui na modernização da ciência, no sentido de atestar e comprovar uma situação até então desconhecida (ROUILLÉ, 2009).

A quarentena do micro


Ao nos propormos à reflexão de uma visão micro da quarentena, buscamos compreender como o isolamento social se deu dentro do espaço domiciliar e nos arredores. As imagens nas quais faremos a análise das experiências vividas representam, respectivamente, um sentimento partilhado por muitos nas redes sociais, as várias faces e perspectivas frente à pandemia da Covid-19 e as ansiedades e sobrecargas de informações durante a quarentena.


As fotografias abaixo foram publicadas por diferentes pessoas nas redes sociais no dia 14 de abril de 2020. Imagens similares a esta do pôr do sol de São Paulo foram amplamente compartilhadas, sendo que as observações sobre elas eram referentes à sensação de ‘um respiro’ nesta quarentena, desafiadora para muitos. A simples ação de observar este pôr do sol pode trazer por si só este sentimento de descanso. No entanto, saber que tal sentimento está sendo partilhado por muitos, especialmente na sociedade moderna, é como se tal multiplicidade atestasse a própria experiência pessoal.


Quadro 3[3]


Fernandez afirma que um dos principais problemas contemporâneos é a falta da totalidade, em que a vida moderna se encontra em fragmentos e saturada de informações descontínuas. A consequência seria uma generalização de uma experiência compartilhada em um nível de realidade muito reduzido e empobrecido. No entanto, haveria um argumento para a imagem, em que imagens contrastantes contariam pequenas individualidades, e suas repetidas justaposições, coletivamente nos ajudaria a sentir a “totalidade complexa” no qual ansiamos conectar (FERNANDEZ, 1986). Ou seja, apesar das diferenças sociais e ideológicas que existam entre os milhares de observadores deste pôr do sol, suas afinidades afetivas transporiam por um momento suas particularidades pessoais.


A imagem representa não somente o que foi observado em um passado próximo ou distante. As experiências visuais durante o período da quarentena poderão não se esvair em um curto espaço de tempo, apesar da frugalidade das redes sociais. A legibilidade da imagem leva um tempo, a experiência da observação deve levar um tempo. A imagem é uma impressão, um rastro que se obteve de um período. Por sua vez, esta deve desconcertar e renovar o pensamento (DIDI-HUBERMAN, 2012). Cada vez que nos colocamos a desdobrar a imagem, experimentamos seu lugar em nossa memória, seu sentido no presente e o que pode nos gerar futuramente (SAMAIN, 2012). Assim como afirmado pelo antropólogo Ettiene Samain:

Urge saber que as imagens são nossos olhos passados, presentes e futuros, olhos da história, roupas, nudezas e paredes da história. Roupagens e montagens de tempos heterogêneos. De vivências presentes, de sobrevivências, de ressurgências, de tantas outras memórias (individuais e coletivas). Pensar deste modo as imagens como lugares de questionamentos, lugares dentro dos quais escrevemos, também, nossa história. (SAMAIN, 2012, p.163)

Faz parte do próprio ser humano atribuir sentido a uma imagem ou experiência vivida. O fato da observação de um pôr do sol poder transmitir conforto ou qualquer outra reação, depende do sentido que é posto sobre ele. O sentido surge quando tentamos juntar o que a cultura e a linguagem cristalizaram do passado com o que sentimos (TURNER, V. 1986). Ou seja, cada experiência pessoal irá se distinguir conforme indivíduo, sua cultura, estado emocional e vivências. Contudo, o fato deste singular pôr de sol ter um significado partilhado por tantos e ser classificado como algo a se apreciar e contemplar, nos revela que mesmo havendo uma certa aleatoriedade de onde ou quem sejam tais observadores, é possível haver sentimentos em comum.


No entanto, não encontramos sempre uma semelhança de sentidos e vivências. O que mais observamos durante esta quarentena é como as narrativas dominantes se confundem. Não há um único modelo de se viver a quarentena, mas milhares. As fotografias abaixo nos mostram como este período, dentre tantas outras possíveis situações, pode representar a falta dos itens mais básicos de sobrevivência para alguns, o tédio e a impaciência para outros, ou a dificuldade de se manter firme diante de tantas as dificuldades, como no caso dos profissionais da saúde, e também pode ser uma adaptação do seu dia a dia aliado ao “novo normal”. O fato do contexto das imagens se distinguirem entre si, no entanto, não anula o fato de que a ansiedade, o medo e a adaptação criam um emaranhado entre si. O argumento em questão é quanto às narrativas e impressões deixadas por este período da quarentena da Covid-19.


Se fossemos contar como se deu este período através das quatro imagens abaixo, poderíamos afirmar que se tratou de um momento desafiador para alguns, e aparentemente nem tão desafiador para outros. Não haveria uma só uma experiência a ser contada, mas várias. Ao se basear na primeira imagem, diríamos que a quarentena possivelmente intensificou as desigualdades sociais existentes, e que a diminuição da renda familiar agravou a insegurança alimentar no país. Já pela segunda imagem, diríamos que o maior problema foi o tédio ocasionado pelo isolamento social. Na terceira fotografia, já daríamos ênfase na crise sanitária e hospitalar que ocorreu, e como a pressão diária sobre os profissionais da saúde os levavam ao seu limite físico e emocional, estando diante de uma doença desconhecida, altamente transmissível e causadora de inúmeras mortes. Por fim, a última imagem nos contaria sobre uma quarentena um tanto flexível, já que seria possível sair de casa para realizar atividades físicas, com ou sem máscara. No final, seriam narrativas de miséria, tédio, morte e atividades físicas, todas podendo ser contadas a partir de um mesmo momento.


Quadro 4[4]


Bruner (1986) acredita que a construção de uma narrativa em uma etnografia depende menos da investigação do presente, do que da predeterminação de um começo e um fim, e consequentemente, em uma interpretação do presente. Entretanto, também menciona que as narrativas não são fixas, mas se alteram constantemente conforme os contextos e audiências presentes. Como afirma em:


As histórias dão sentido ao presente e nos permitem ver o presente como parte de um conjunto de relacionamentos envolvendo um passado e futuro. Mas as narrativas mudam, todas as histórias são parciais, todas significados incompletos. Não há significado fixo no passado, por cada nova narrativa, o contexto varia, a audiência difere, a história é modificada [...]. Descobrimos continuamente novas significados. Todos nós, então, antropólogos e informantes, devemos aceitar a responsabilidade de entender a sociedade como contada e recontada. (BRUNER, 1986. p.153)

Deste modo, o objetivo do autor é refletir sobre a produção da etnografia. Sua tese é que ela é guiada por uma estrutura narrativa implícita e atua como um discurso, como um gênero da narrativa. Também afirma que além das alterações se darem nas próprias narrativas, também o fazem na linguagem. Assim que ocorre uma descontinuidade histórica, uma nova narrativa é construída, e, portanto, um novo vocabulário. Com a pandemia da Covid-19, algumas palavras foram incorporadas ao nosso cotidiano, como: pandemia, quarentena, máscara, isolamento social, distanciamento social, achatamento da curva, ‘lockdown’, ‘home office’, dentre outros. Tais alterações no vocabulário acompanharam as mudanças da rotina e também das relações interpessoais. É possível que diante de um término da pandemia, tais palavras sejam ressignificadas e não utilizadas cotidianamente, mas, por enquanto, tais vocabulários expressam nossa realidade atual e as experiências que vivemos durante a presente pandemia. Segundo o autor, os esquemas narrativos podem nos oferecer uma ciência da imaginação, em que os estudos estruturais e simbólicos se tornam mais dinâmicos, e que nos permite lidar melhor com a questão das transformações narrativas.


A última sequência de imagens que iremos analisar se trata do aprofundamento de um dos possíveis cenários durante a quarentena da Covid-19: os sentimentos de tédio, impaciência, solidão e sobrecarga de informações. As fotografias abaixo fizeram parte de um ‘ensaio fotográfico de quarentena’, produzido por Matheus Bolleti, estudante de design e fotógrafo profissional. O fotógrafo conta que, para planejar o ensaio sobre o isolamento social, buscou, através de um questionário feito por meio do seu perfil no Instagram, saber o que as pessoas mais estavam sentindo nesse período de quarentena. Os sentimentos que mais se destacaram foram o tédio, a insegurança e as incertezas. Além disso, como complemento, se têm a sensação de que o tempo parece não passar, a tecnologia como companheira e o excesso de informação.[9]


Quadro 5

Fotos: Matheus Boletti/ divulgação. Disponível aqui


As imagens são fenômenos, memórias e desejos, pois anseiam por serem criadoras e querem que os fotógrafos se questionem e queiram mais dela, querem ser desdobradas e contempladas (SAMAIN, 2012). Podemos refletir, através deste ensaio fotográfico, como a imagem pode transmitir vida em si. Ou, como afirma Didi-Huberman: "sem chegar a ser um sujeito, a imagem é muito mais que um objeto: ela é o lugar de um processo vivo, ela participa de um sistema de pensamento. A imagem é pensante". (DIDI-HUBERMAN, 2012, p.158)


O autor discorre sobre o que faria a ‘imagem arder’, ou seja, o que provocaria este sentimento desejoso, impetuoso, destruidor e audacioso, tudo ao mesmo tempo. Para quem vive a experiência da quarentena sob a perspectiva retratada no ensaio acima, é capaz de reconhecer seus próprios sentimentos nas fotografias, e observar como a imagem arde. Como afirma em: "Para viver enquanto imagem, foi necessária a existência de espectador (es), isto é, de seres vivos, 'aptos a saberem olhar uma imagem [...], capazes de discernir ‘lá onde ela arde’” (DIDI-HUBERMAN, 2006, p. 33)


Samain (2012) afirma que presenciamos nesses últimos 30 anos uma ‘civilização das imagens’, ou seja, uma chuva de imagens que nos provoca, nos ensina, nos inunda e também nos satura. Imagens que nos fazem descobrir lugares e culturas desconhecidas a nós, imagens que nos manipulam, e que até fazem-nos perder a visão e a consciência diante da nossa própria história. O excesso às vezes faz com que sejamos indiferentes com aquilo que não é emocionalmente próximo de nós. Diante disso, precisamos nos redescobrir neste mundo de imagens que nos envolvem, e redescobrir seus valores de uso. O ensaio fotográfico acima retrata a experiência individual de muitos durante a quarentena, mesmo que em meio a uma inundação de informações.


Frederick Turner (1986) acredita na importância das experiências individuais, e consequentemente nas reflexões e questionamentos feitos durante um momento de isolamento social. Para se aprofundar em seus estudos, analisa o que seria uma “experiência” para Thoreau, autor de “Walden”. A obra narra a experiência pessoal de Thoreau e suas reflexões sobre um período em que, vivendo em isolamento social, se retirou de forma espontânea para uma cabana, às margens do lago Walden. Ali, em seu próprio experimento social, buscou uma autossuficiência em relação ao cultivo dos próprios alimentos e a construção dos poucos móveis que tinha, além de refletir sobre a sociedade urbana do século XIX. Para o autor, a sociedade estava continuamente em um processo de desenvolvimento de evolução, e a experiência individual era o que levava ao desenvolvimento, era como as instituições sociais eram testadas e enraizadas.


No entanto, como já foi afirmado, o isolamento social causado pela pandemia da Covid-19 não foi espontâneo, como com Thoreau, e sim obrigatório. Por outro lado, isso não impede que as experiências pessoais ocorridas durante este período provocassem reflexões e questionamentos acerca do mundo, e consequentemente, uma produção de conhecimento. Ao refletir sobre a quarentena na visão micro, nos deparamos com diversas perspectivas e experiências tanto individuais como coletivas, que em conjunto, irão construir as narrativas deste período de isolamento social.

Conclusão


Buscamos neste trabalho explorar quais são as imagens e as experiências vividas neste momento de quarentena, trazidas pela pandemia da Covid-19. As memórias e impressões deixadas por este período vão se basear tanto nas experiências individuais quanto nas experiências coletivas. A descontinuidade histórica vivenciada pela pandemia nos impulsiona para a construção de novas narrativas, em que as expressões de nossas experiências são traduzidas em imagens e linguagem. Seja ao observar as fotografias de famosos pontos turísticos esvaziados ao redor do mundo, ao expressarmos por meio de um ensaio fotográfico nossas ansiedades e incertezas, pelo compartilhamento de um único sentimento através da contemplação de um pôr de sol ou por nos depararmos com imagens que nos revelam as distintas e duras faces da pandemia. Seja como for, as imagens nos provocam e nos revelam experiências distintas, que se tornarão narrativas também distintas.


Provavelmente será construída uma narrativa dominante sobre o período da quarentena da Covid-19, em que a ênfase se dará no número de mortes, na crise econômica ou até mesmo nos sentimentos de tédio, incerteza e insegurança. No entanto, não podemos nos esquecer que a narrativa não é fixa, e tal como afirma Bruner (1986), sua alteração vai depender do contexto e das audiências presentes. Se no início da quarentena a narrativa dominante nas mídias voltava-se ao medo do desconhecido e o acelerado número de mortes, no início de julho nos deparamos principalmente com a preocupação da recuperação econômica do país, enquanto que, para os profissionais da saúde, a narrativa dominante continua a ser a crise sanitária e hospitalar.


Ao longo do tempo as imagens serão revistas, assim como o vocabulário será repensado. O normal dará lugar ao “novo normal”. As experiências vividas se transformarão em expressões e em conhecimentos. As adaptações serão feitas, e as narrativas construídas e desconstruídas.

Referências:


BRUNER, Edward. Introduction - Experience and its expressions. In: Turner, Victor & Bruner, Edward: The Anthropology of Experience. Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1986.

BRUNER, Edward. Ethnography and Narrative. In: Turner, Victor & Bruner, Edward: The Anthropology of Experience. Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1986. DIDI-HUBERMAN, Georges. A inelutável cisão do ver + O evitamento do vazio. In: O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1998. p. 29-48.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tocam o real. Pós: Belo Horizonte, v.2, n.4, 2012, pp. 204-219. FERNANDEZ, James W. The argument of images and the Experience of Returning to the Whole. In: Turner, Victor & Bruner, Edward: The Anthropology of Experience. Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1986.

ROUILLÉ, André: A fotografia, entre documento e arte contemporânea. Editora SENAC. São Paulo, 2009. Ps. 82-134. SAMAIN, Etienne. As peles da fotografia: fenômeno, memória/arquivo, desejo. VISUALIDADES, Goiânia v. 10 n. 1, jan-jun 2012, p. 151-164.

TURNER, Victor W. Dilthey and Drama: an essay in the anthropology of experience. In: Turner, Victor & Bruner, Edward: The Anthropology of Experience. Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1986. TURNER, Frederick. Reflexivity as Evolution in Thoreau´s Walden. In: Turner, Victor & Bruner, Edward: The Anthropology of Experience. Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1986.

Notas: [1] Imagem 1 e 2: Disponível em <https://oglobo.globo.com/economia/os-eua-ja-estao-em-recessao-por-causa-do-coronavirus-dizem-economistas-24366295> Acesso em 28 de maio de 2020. Imagem 3: Disponível em <https://oglobo.globo.com/economia/os-eua-ja-estao-em-recessao-por-causa-do-coronavirus-dizem-economistas-24366295> Acesso em 01 de julho de 2020. Imagem 4. Disponível em <https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/pela-1a-vez-papa-faz-rito-sozinho-e-da-indulgencia-plenaria/> Acesso em 30 de junho de 2020. [2] Imagem 5. Disponível em <https://exame.com/brasil/sao-paulo-tem-1o-dia-de-quarentena-por-coronavirus-veja-fotos/> Acesso em 30 de junho de 2020. Imagem 6: Disponível em < https://outraspalavras.net/crise-brasileira/um-caminhada-na-cidade-dos-nao-confinados/> Acesso em 01 de julho de 2020. Imagem 7: Disponível em < https://ponte.org/sp-tem-queda-de-33-em-roubos-e-35-nos-registros-de-estupros-na-quarentena/> Acesso em 01 de julho de 2020. Imagem 8: Disponível em <https://exame.com/brasil/estas-fotos-mostram-sao-paulo-vazia-apos-doria-prorrogar-a-quarentena/> Acesso em 30 de junho de 2020. [3] Imagem 9: Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/ceu-de-sp-fica-avermelhado-e-domina-redes-sociais-entenda-o-fenomeno.shtml > Acesso em 15/06/20 Imagem 10: Disponível em <https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/04/14/isolados-em-casa-paulistanos-vao-fotografar-por-do-sol-da-janela.ghtml > Acesso em 15/06/20 Imagem 11: Disponível em <https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2020/04/15/por-do-sol-colorido-encanta-no-litoral-de-sp-e-meteorologista-explica-o-fenomeno.ghtml > Acesso em 15/06/20. Imagem 12: Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/ceu-de-sp-fica-avermelhado-e-domina-redes-sociais-entenda-o-fenomeno.shtml > Acesso em 15/06/20 [5] Imagem 13: Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/quarentena-em-sao-paulo-reduz-dieta-de-criancas-na-periferia-a-arroz.shtml > Acesso em 02/07/20 Imagem 14: Disponível em <https://93noticias.com.br/noticia/49704/6-dicas-para-afastar-o-tedio-na-quarentena > Acesso em 02/07/20 Imagem 15: Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/medica-da-linha-de-frente-contra-coronavirus-comete-suicidio-nos-eua.shtml > Acesso em 02/07/20 Imagem 16: Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/medica-da-linha-de-frente-contra-coronavirus-comete-suicidio-nos-eua.shtml > Acesso em 02/07/20

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