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v7a1| Desestabilização da rede e empoderamento científico na crise do coronavírus no Brasil

Por Renan Gonçalves Leonel da Silva. Pesquisador colaborador em Sociologia do conhecimento biomédico no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e bolsista do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Avaliação de Tecnologia em Saúde CNPq/INCT-IATS. É Doutor em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP.


Photo by Michael Schiffer on Unsplash


A partir de março de 2020, vimos surgir importantes iniciativas oriundas de instituições de pesquisa do estado de São Paulo, como as três Universidades estaduais paulistas (USP, UNESP e UNICAMP), o Instituto Adolfo Lutz e Instituto Butantan, no sentido de implementar uma rede qualificada de suporte para a produção de testes diagnósticos moleculares para o novo coronavírus. O objetivo foi auxiliar o governo paulista no combate à pandemia da Covid-19, dando mais agilidade ao processo de testagem da população e, assim, informar a tomada de decisão das autoridades sanitárias também em âmbito nacional1.

Toda essa movimentação da comunidade de pesquisa para prover soluções de combate à pandemia é, naturalmente, muito importante. Mostra que a Universidade pública é uma entidade dinâmica e fundamental para o desenvolvimento da sociedade brasileira e que, além disso, pode ser chamada a ocupar espaços com competências intensivas em conhecimento, onde a política de saúde muitas vezes não detém condições de atuar.

Mas, se a Ciência é resultado de interações sociais complexas, ela é também um empreendimento político. É uma atividade sujeita a interferências de processos que vão além de fatores meramente técnicos e epistemológicos. Ou seja, a comunidade científica não é desprovida de interesses, como supõem as narrativas de neutralidade do conhecimento científico2.

A produção de conhecimento científico como prática social tem sido objeto constante de investigação das Ciências Sociais há mais de um século. As ferramentas sociológicas aplicadas ao estudo da ciência nos mostrou que o conhecimento científico se estabelece e se modifica numa dinâmica complexa. Assume-se que a evidência científica se estrutura, cresce e se fragmenta sob a forma de uma densa rede heterogênea de atores – composta por cientistas, governos, indústria, instituições, ideias, processos, visões de mundo e configurações materiais e tecnológicas situadas no tempo e no espaço. É, então, uma rede de natureza sociotécnica, em que seus players perseguem a redistribuição de recursos sempre numa disputa por mais poder, autoridade ou influência nos circuitos das corporações acadêmicas (e para além delas)3.

Eventos como a pandemia do novo coronavírus mostra quão instável é a rede que governa as relações e resultados científicos. É comum que especialistas dialoguem com outros atores para compor redes técnicas e políticas que favoreçam o redirecionamento de suas agendas de investigação para temas emergentes. Para tanto, novas alianças são feitas, outras são abandonadas, e novos atores emergem com maior ou menor nível de autoridade para falar em nome da ciência, ainda que sejam figuras não-científicas. Um exemplo prático disso ocorreu em abril de 2020, quando das diárias coletivas de imprensa liderada pelo ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), que, ao se opor à narrativa oficial do presidente da república Jair Bolsonaro, utilizou o bordão “ciência, disciplina, planejamento e foco” como sendo as supostas bases ideológicas de sua gestão – num claro movimento de certificação tecnocientífica da Política4. Na crise da Covid-19, verifica-se o quão dinâmico é esse jogo de poder entre conhecimento, política e sociedade. A área da Saúde avança na interface entre expertises médicas e biológicas, e a ciência está posicionada muito bem na teia de relações que qualificam os regimes contemporâneos de controle do conhecimento biomédico e epidemiológico. Também ao longo da história do século XX, episódios de triunfo das corporações acadêmicas coincidiram com momentos de intersecção de expertises na busca de soluções para momentos críticos da sociedade brasileira. Pandemias são exemplos comuns para ilustrar tais contextos5.

Compreendendo o exercício do poder na Ciência como prática cotidiana de negociação da produção e das vias de circulação do conhecimento científico, pandemias como a do novo coronavírus representaram, ao mesmo tempo, caos e oportunidade (como ilustra Pyro 1984 de Jean-Michel Basquiat). Caos, pois há intenso reposicionamento de interesses em torno do vácuo de conhecimento, que gera uma desestabilização pronunciada da rede sociotécnica em busca de respostas emergenciais, com reprodução de incertezas, custo de milhares de vidas e desinformação. Oportunidade, pois há empoderamento relativo da organização médica e científica, assim como das narrativas de progresso tecnocientífico.

Para se ter uma ideia sobre como essa lógica de empoderamento na ciência e fortalecimento das narrativas do progresso possuem uma dinâmica particularmente complexa, no Brasil dos anos setenta, em plena ditadura militar, tivemos importantes programas nacionais de investimento em pesquisa em saúde pública, dirigidos ao estudo de doenças tropicais e negligenciadas. É o caso do chamado Programa Integrado de Doenças Endêmicas do CNPq de 1973. Na ocasião, ampliou-se o parque científico em genética e biologia molecular aplicadas ao estudo da Doença de Chagas e outras endemias brasileiras. Nessa onda, criaram-se condições para o avanço da pesquisa sobre o Trypanossoma Cruzi, que gerou ciência de impacto mundial.

Anos depois, a epidemia da AIDS representou um novo desafio global. Cientistas no mundo todo direcionaram suas agendas de pesquisa para o tema, que permitiu equipar e ampliar laboratórios, contratar novos pesquisadores e buscar novas terapias para tratar indivíduos acometidos pelo vírus HIV. Com o conhecimento fundamental de sua transmissão por via sexual, políticas públicas foram implementadas e tecnologias foram desenvolvidas, como a Zidovudina (AZT). No Brasil, pode-se dizer que houve sucesso nessa empreitada, e nesse tema é comum associarmos a eficácia das ações ao papel de especialistas que, até hoje, são motivos de orgulho para o país em Saúde Pública.

Mais recentemente, a epidemia da microcefalia associada à infecção pelo chamado Vírus da Zika no Brasil, já abordada por esse Boletim6, também chamou a atenção para a movimentação política dos cientistas. Algum investimento nacional em ciência e tecnologia direcionou recursos para o tema, com capacitação de cientistas em diversas partes do País. Os resultados foram mais que satisfatórios em termos da qualidade da produção científica, que posicionou cientistas brasileiros entre as principais referências de impacto global.

Colegas mais experientes insistem que os dias atuais marcarão para sempre as nossas carreiras como cientistas. Aos que estudam a dinâmica social da ciência, salta aos olhos a força dos processos políticos que têm desestabilizado as tradicionais redes sociotécnicas sobre o tema, e a emergência de novas onde se produzirá mais conhecimento sobre o novo coronavírus e a Covid-19. Perguntas são inevitáveis: quem irá fazer parte dessa nova plataforma de conhecimento biomédico? Quem irá controlar o acesso e uso de material genético humano e de amostras de coronavírus de pacientes? Há impedimentos éticos para a pesquisa e comercialização de bioprodutos de pessoas infectadas e que foram à óbito? Sob qual regime político-legal esses materiais serão compartilhados ou “editados”? A conjuntura é, portanto, um laboratório rico para a sociologia do conhecimento.

Notas:

1 http://agencia.fapesp.br/laboratorios-da-usp-unicamp-e-unesp-integram-plataforma-de-testes-para-covid-19/32924/

2 LACEY, HUGH. Is science value free?: values and scientific understanding. Londres e Nova York: Routledge, 1999.

3 https://www.thenation.com/article/society/sheila-jasanoff-interview-coronavirus/

4 https://exame.abril.com.br/brasil/mandetta-diz-que-fica-na-saude-para-enfrentar-o-inimigo-o-coronavirus/

5 https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/especial-epidemias-uma-historia-das-doencas-e-seu-combate-no-brasil/

6 http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2345-boletim-n-31-cientistas-sociais-e-o-coronavirus



Texto originalmente publicado em 01 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.


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