• antropoLÓGICAS

v7a10| Por uma ciência que escute

Por Juliana Marques de Sousa, Juliana Borges de Souza e Damaris de Oliveira Santos. Mestras (2018) em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e Doutorandas em Ciências Sociais pela mesma universidade.


Título: Velas de irmã

Foto: Renata Marques de Sousa, arquivo pessoal, Meruoca/Ceará, 2020



A polarização é um componente da razão pós-moderna, disse Harvey (1994). A ciência não ficaria imune a tal processo. A pandemia de Covid-19, no Brasil, chega ao seu estado agudo, sintomático de uma condição crônica: o fascismo. A paranoia dos inimigos nacionais é forjada para retroalimentar o poder político bolsonarista, a lista de perigosos só cresce; a ciência – quem a produz ou mesmo quem a admite – está sob ataque de uma fascistização generalizada.

A república “repartida” do Brasil tem recorrido à ciência, não como recurso de compreensão e ação para a diminuição de danos da vida concreta daqueles que, histórica e racialmente, morrem no invisível. Tem operado admitindo a morte sem constrangimento, numa razão da desrazão, encarnada na ideologia bolsonarista mais infame.

Desde já, queremos dizer, estamos do lado da ciência, somos cientistas. Mas não da ciência palavra ao vento, distorcida e manipulada pelos ministros da saúde de Bolsonaro; da ciência de pose superior ao povo pobre, que é convicta demais para ouvir aqueles que rezam quando sofrem, que não defende as universidades públicas; da ciência ausente do Sistema Único de Saúde; da ciência apartada daqueles que a faziam antes, fazem agora e farão depois da Covid-19.

É preciso, como defende Darcy Ribeiro (2019), dizer o óbvio, mais do que nunca. Primeira obviedade científica: toda conclusão é provisória e, por isso, potencialmente capaz de evoluir ou responder melhor às preocupações que a forjaram. Segunda obviedade: o cientista é uma pessoa, e por sê-la é dotado de juízo de valor, crença, família, contas para pagar, medos e tudo aquilo que é humano. A ciência opera no conjunto, admite o sangue, o corpo, a trajetória, o afeto, a história, as relações sociais, a política, a economia, a natureza, a estática, os “caçadores de vírus”, a aritmética e, até, a própria negação.

A ciência é um jogo que pode produzir um ser humano unidimensional, disse Rubem Alves (1999), refém de sua alta especialização em uma linguagem única e por isso mouca ao acervo de linguagens múltiplas, que é irrepartível, dos sujeitos e das coisas de sua sociedade e, portanto, do próprio fazer científico. Façamos o contrário, uma ciência que escute.

Uma experiência, um bilhete

Um corpo. Quatros dias de febre alta 38.5, dor de garganta aguda, cansaço e o mal-estar. Quinto dia, era uma infecção visível. Tormento! Possibilidade de mais um corpo infectado pelo novo coronavírus. Um hospital fez como deveria, atendeu esse corpo com o protocolo máximo de proteção. Diagnóstico: sem diagnóstico. Remédio: repouso e isolamento social total. Mas como tratar a angústia e o medo? Como cuidar sem uma clara receita médica?

A cura pode ser a reação forte do corpo para com aquilo que o ataca, mas pode ser por causa das velas acendidas? Os sucos de cenoura e linhaça? Os chás? Outra obviedade: existem linguagens em que a ciência não é fluente, porém pode ser uma boa ouvinte e, por isso, permitir uma ação reflexiva e ampliar a capacidade humana de diálogo e enfrentamento do que adoece o indivíduo e a sociedade.

É estéril a oposição da ciência em relação aquilo que é “demasiadamente humano”. Isso gera uma hierarquização do ato de poder dizer e, por esse motivo, fragiliza a capacidade de agência diante dos desafios que se impõem. Advogamos, portanto, que a ciência não é um extraterrestre incompreensível, parido numa região espaço-tempo distante, batizado pelo nome de técnico. A ciência é um dos muitos modos de compreender a realidade, porém carrega o excepcional, o absurdo: a capacidade de pensar como as coisas são, como foram e como podem vir a ser num processo de experimentação coletiva e apoiada no rigor metodológico. Sim, nenhum cientista está propriamente só. Cada ideia é resultado laboral coletivo, ainda que cada ser humano, cientista ou não, tenha em si uma genialidade particular.

A ciência é feita de dúvidas e questões, mais do que de respostas. Mesmo quando respostas são alcançadas, sabe-se que elas são apenas temporárias. Toda teoria, por mais geral e universal que seja, sempre pode - e imagina-se que será – refutada ou complementada por outras. Desta forma, o conhecimento científico espelha o ser humano: imperfeito e sempre aberto a melhorar.

Antes de tudo, a ciência é feita de gente. Não é compatível com dogmas e só é possível através da razão científica simples: a ação reflexiva crítica, como defendeu, incansavelmente, Paulo Freire. O inimigo da ciência não é a nossa tia que faz um chá de alho, limão e gengibre para tratar uma gripe; nem nossa irmã que acende velas para o Nego Gerson ou Zé Pilintra (entidades sagradas da Umbanda); ou nossa avó que ora e jejua; tampouco uma mãe que mesmo na televisão assiste, de pé, a missa gravada, intercedendo o bem-estar dos seus, em fé.

A ciência não é inimiga dos que cuidam, dos que têm fé, dos que insistem, dos que reclamam, dos que trabalham, dos que não a leem, dos que não a escrevem, dos pobres. Mas é, ou deveria ser, daqueles que racionalizam a ignorância para se desresponsabilizar diante da fome, da dor e do sofrimento, que aceitam a morte para resguardar o poder destrutivo e a ganância.

Os inimigos são os adoradores da morte ou, como diz Rubem Alves, os demônios da convicção “[que] têm atributos de deuses: são onipresentes. Escorregam da religião. Emigram para a política” (1999, p. 106). A sociedade brasileira vem sendo rasgada por uma psicopatia fascista que corrói nosso direito de vencer o que nos adoece. Para tanto, é urgente potencializar nossa capacidade múltipla, razoável e solidária enquanto sociedade para reagir a um dos desafios do nosso tempo: a pandemia do novo coronavírus.

Aos isolados, queridos, andem armados da ciência que escuta. E como diz Gilberto Gil, andem “com fé, a fé não costuma faiá”. Com amor, cientistas sociais.

Agradecemos a leitura, as sugestões e os afetos da nossa querida professora Flávia Braga Vieira (PPGCS/UFRRJ) que faz coro às mulheres que lutam por uma ciência que escute.

Referências: ALVES, Rubem. Entre a ciência e a sapiência: o dilema da educação. São Paulo: Loyola, 1999. GILBERTO, Gil. Andar com fé. Álbum: Perfil. Gravadora: Som Livre, 2005. https://www.youtube.com/watch?v=QddyErzc9ig Acesso: 21/04/2020. HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Ed. Loyola, 1994. RIBEIRO, Darcy. Sobre o óbvio. Marília: Lutas Anticapital, 2019. https://lutasanticapital.milharal.org/files/2019/02/2019_darcy_final.pdf Acesso: 21/04/2020.



Texto originalmente publicado em 05 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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