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v7a11| Cientistas à beira da pia

Por Cibele Aguiar. Jornalista da Universidade Federal de Lavras e doutoranda do Programa de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências/Unicamp.


Imagem de autoria própria


Em meio à pandemia decretada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2020, um dos temas que ganharam destaque no noticiário e em debates sociológicos foi a importância da comunicação pública da ciência e a falta que ela faz. Paralelo à corrida para o desenvolvimento de estudos e publicação de artigos sobre diferentes facetas do vírus e seus efeitos na população mundial, o que se viu foi um conjunto expressivo de pesquisadores renomados tentando explicar para a sociedade a necessidade da lavagem das mãos, procurando metáforas para explicar as formas de transmissibilidade e esquemas simplificados para apontar o efeito da curva em crescimento exponencial. Instituições de referência em pesquisa tiveram que encontrar uma fórmula para adaptar a linguagem e convencer a população dos riscos e desafios de um inimigo poderoso e invisível.

Para parte dessas pessoas, a ciência, até então colocada em questionamento e passível de cortes orçamentários, foi novamente alçada ao espaço comumente dedicado ao sagrado: à esperança. Caberia à Ciência e Tecnologia a entrega de uma vacina, uma barreira de imunidade ou um tratamento exitoso para salvar vidas. Para a outra parte, mesmo diante das tentativas de explicação em mídias populares e por especialistas em diferentes áreas, o vírus ainda não passa de conspiração. Talvez um superdimensionamento de uma “gripezinha” para atrapalhar as economias das nações. Deixamos os assuntos afetos à epidemiologia ser contaminado por ideologias, abordagens religiosas, políticas e partidárias. E o que parecia danoso, ganha status de confusão.

E onde estaria a falha neste quadro de urgências em que o vírus não espera e os governos têm tanta pressa? Por que a sociedade não entende que a vacina ou um medicamento têm um tempo responsável de desenvolvimento e experimentação? Por que não reconhece os especialistas como representações legítimas para amenizar dúvidas e medos? Por que o negacionismo da ciência e o avanço das pseudociências ganham espaço de forma tão acelerada num festival de compartilhamentos de informações duvidosas e de interesses vil? Onde estaria o erro? Onde estava a ciência que agora é aclamada, mas que a maior parte dos cidadãos ainda não reconhece sua existência ou benevolência?

Sim, ela estava nas bibliotecas, nas melhores universidades, nos institutos e laboratórios de referência, nos artigos em língua inglesa publicados em periódicos cada vez mais especializados e qualificados. Sim, estava guardada em sua torre majestosa e intocada que Michael Polanyi (1962) bem nomeou “República da Ciência”, incluindo toda a autoridade científica que ela representaria. Sim, a ciência estava delegada à discussão entre pares, com avaliações pertinentes para que fosse mantido seu status, em lugar destacado, para o conhecimento e o reconhecimento de poucos. Sim, seguimos ao Ethos da ciência moderna proposto por Merton (1942), mas tornamos seletivo seu conceito de comunismo, no melhor e estrito sentido desta palavra.

Na verdade, o que a comunicação da C&T remonta em tempos de Pandemia é a sua própria ideologia. Em reportagem do New York Times no início do século XX, foi dado destaque a uma observação atribuída a Albert Einstein, talvez o cientista mais popular do mundo, quando comunicou sua Teoria da Relatividade: “No máximo, apenas uma dúzia de pessoas no mundo poderá entender minha teoria”. E essa continua sendo a ideia que sustenta uma concepção ampla e ainda contemporânea: a complexidade das noções científicas e a estratificação de seus públicos.

Segue, portanto, a inferência de que nem tudo precisa ser comunicado a um público leigo, ainda hoje caracterizado pelo modelo de déficit de conhecimento. No máximo, surgem teorias de comunicação “difusionistas”, que visam transportar a informação científica previamente selecionada para um contexto popularizado. Legitima, pois, o papel da mídia como mediadora desta comunicação ao mesmo tempo em que “autoriza os cientistas a se proclamarem estranhos ao processo de comunicação pública” (BUCCHI, 2016).

Nessa concepção, a popularização ainda é vista em termos de distorção, muitas vezes incapaz de representar a grandiosidade dos feitos científicos. Afinal, quantos cientistas preferem o anonimato público, desde que mantido o respeito de sua comunidade? E a sociedade segue sendo vista como agente passivo, receptora de um discurso que pode ou não atrair a sua atenção, mediante traduções simplistas ou mesmo recortes sensacionalistas. Recorrendo a Wynne (1995), temos que a comunicação se entrelaça com o público que participa desse seleto processo, incluindo diferenças no que tange a juízos de valor, confiança, percepção do conhecimento e capacidade de colocá-lo em uso prático.

Portanto, parece estarmos diante de mais um dilema paradigmático: persistimos na obsoleta ideia de linearidade do processo de comunicação ou reconhecemos a validade dos modelos dialógicos de comunicação pública de C&T. O que o momento de crise ensina é justamente o que Bucchi (2016) tentava argumentar pela discussão de teorias, entre elas, a visão da comunicação científica como um processo dinâmico, fruto de um conjunto complexo e coletivo de processos transformadores que, por sua vez, podem ter impacto no próprio debate científico (Wynne 1995). No entanto, diferentemente, o modelo que adotamos ainda parece ser segmentado e restrito.

Fato é que a exceção chega em épocas de crise, quando podemos assistir diariamente os especialistas na TV tentando responder aos anseios da sociedade, seja dos que temem o vírus ou dos que questionam seu poder. O que temos visto em noticiários e programas especiais são tentativas de comunicação como a desejada “conversa cruzada entre discursos”, o que nos faz acreditar na tendência registrada na última década de crescente demanda dos cidadãos por envolvimento em questões científicas, com a quebra das barreiras polanyianas em assuntos afetos à vida e ao bem-estar. Uma luz de que poderia mesmo existir essa desejada perspectiva, evoluindo para um modelo de diálogo e até mesmo de participação (Gibbons et al., 1994, Callon, 2001; Jasanoff, 2014).

Ao mesmo tempo, assistimos passivos às imagens de ataques à ciência, que exigem das representações científicas notas explicativas de profundo repúdio. Cientistas são questionados e até ameaçados em atos públicos.

Portanto, façamos a mea-culpa quando recebemos da tia, em período de isolamento social, uma mensagem no whatsapp falando que gargarejo com água morna pode matar o coronavírus. Enquanto estivermos em pedestais e redomas, contando o fator de impacto do artigo e seu efeito no currículo, a sociedade se fartará da informação que lhe for dada. Vale a reflexão para além dos tempos de crise, para não deixarmos que o discurso científico volte exclusivamente para os periódicos, para as bibliotecas, institutos e diálogos entre pares. Depois de passado esse tempo de temor, que os cientistas, renomados seres humanos de destacada sabedoria, não esqueçam que a sociedade precisa entender a importância do simples ato de lavar as mãos, mas talvez, essa mesma sociedade, deva ser preparada para entender mais profundamente o efeito deste ato, incluindo o significado simbólico, político e histórico que representa.


Referências:

BUCCHI, Massimiano. When scientists turn to the public: Alternative routes in science communication. Public Understanding of Science, 2016. CALLON, Michael. Redes tecno-económicas e irreversibilidad. Redes, v. 8, n. 17, p. 85-126, 2001. GIBBONS, Michael et al. The new production of knowledge: the dynamics of science and research in contemporary societies. London: Sage, 1994 JASANOFF, Sheila. A mirror for science. Public Understanding of Science, v. 23, n. 1, p. 21-26, 2014. MERTON, Robert K. A note on science and democracy. J. Legal & Pol. Soc., v. 1, p. 115, 1942. POLANYI, Michael; ZIMAN, John; FULLER, Steve. The republic of science: its political and economic theory Minerva, I (1)(1962), 54-73. Minerva, v. 38, n. 1, p. 1-32, 2000. WYNNE, Brian. ‘Public understanding of science’, in Jasanoff et al. (eds) Handbook of Science and Technology Studies, Thousand Oaks, CA: Sage: 361–89, 1985.



Texto originalmente publicado em 05 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.


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