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v7a12| Pequeno ensaio sobre o cansaço

Por Ilka Boaventura Leite. Antropóloga, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas (NUER)


Photo by Maria Teneva on Unsplash


Lendo o último livro da escritora Noemi Jaffe “O que ela sussurra” (Cia das Letras, 2020), passo a compreender melhor porque um regime totalitário não convive bem com a Arte.

Nadejda, a narradora do romance de Jaffe, existiu na vida real com esse mesmo nome, Nadedja Iákovlevna Mandelstam, esposa do poeta Óssip Mandelstam (1891-1938) um dos mais importantes poetas russos, perseguido pelo regime de Stálin, faleceu aos 47 anos, depois de ser perseguido, preso e torturado, a caminho de um campo de trabalhos forçados na Sibéria em 1938. Nadedja passou boa parte de sua vida decorando os poemas de Óssip, memorizando os poemas através do sussurro, até conseguir publicá-los nos anos 70.

O livro de Jaffe mistura ficção e realidade de forma admirável e isto é o que nos permite estabelecer os muitos paralelos com o que estamos vivendo nesse nosso tempo tão exaustivo. Através da narrativa dessa personagem, inspirada naquela que viveu na Rússia na primeira metade do século passado — vejo com muito mais nitidez o que tem sido descrito hoje como necropolítica, a soberania que consiste na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer, e mais ainda, os diversos métodos desenvolvidos para distrair a atenção das vítimas, facilitados pelo racismo de classe. Trata-se de um conjunto de táticas que operam pela ameaça, pelo medo e pela chantagem, para naturalizar a morte em todas as dimensões, para banalizá-la (Mbembe, 2001, 2018). Os regimes totalitários odeiam a Arte porque almejam apagar as imagens geradoras de sentido e solidariedade coletiva, fundadoras da comunidade. Esses regimes operam pela imposição de um vazio simbólico, através da progressiva atomização da sociedade, a perda do lugar, a debilitação dos vínculos que geram agregação social (Byung-Chul Han, 2020).

Nadejda nos ensina, com precisão, porque a poesia foi tão rejeitada pelo regime stalinista. Antes da morte de Óssip, ela consegue visitá-lo no Gulag e ele, já muito debilitado, lhe diz algo como: “veja, nós pensamos que as pessoas não estão mais interessadas em poesia nesse país. Em todo caso, há pelo menos uma que leva a poesia à sério, é Stalin”. Óssip foi condenado à morte porque escreveu um poema, apenas um poema, um único poema sobre o ditador.

Na Rússia de Stálin, Nadejda identifica o cansaço como um método específico e cotidiano de exercer poder. Para resistir contra esse monstro totalitário, após matarem o seu Óssip, ela passa a sussurrar o tempo todo os poemas dele e o faz muito mais para se manter viva, para reunir forças. A luta contra o esquecimento e a luta pela vida passam a ser a mesma coisa. Ela constata, dia após dia, o quanto viver nesse regime é cansativo, pois, mais do que a própria opressão, é preciso lutar contra algo que é permanente: a humilhação, que pode levar à destruição lenta e completa da pessoa. E conclui: - a humilhação diária é o que mais cansa.

Identifico esse tipo de cansaço com o que vivemos nesse momento trágico no Brasil com a Covid-19. O mais custoso não tem sido seguir os protocolos da OMS ou nos ater aos inúmeros posts e vídeos que chegam a cada minuto com alertas e conselhos os mais diversos, e até os falsos medicamentos distribuídos pelo governo. O mais exaustivo não é lutar contra esse inimigo perigoso e invisível. O que mais cansa é o escárnio da humilhação diária promovida pelo atual regime fascista implantado no Brasil em 2018, um desdobramento do golpe de 2016.

A violência dessa humilhação diária começou quando tentaram nos fazer crer que houve crime de responsabilidade, que nossos líderes eram criminosos e deviam ser afastados, presos e banidos da vida pública. A dor dessa humilhação prosseguiu quando liquidaram os direitos trabalhistas, quando deceparam as conquistas previdenciárias, quando arrancaram os recursos que mantêm as instituições voltadas para as políticas de saúde e educação. Intensificaram a humilhação quando substituíram as políticas de segurança por políticas armamentistas. A humilhação lancinante continuou quando censuraram a arte e a ciência, golpearam as ações culturais, quando tentaram sufocar o grito dos artistas, quando adulteraram os livros escolares e negaram saberes científicos, filosóficos. A humilhação mórbida também foi quando alteraram as leis que garantiam equidade de oportunidades educacionais em todos os níveis. Nos humilharam quando fecharam escolas nas periferias, quando suspenderam as regularizações dos territórios tradicionais de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, entre outros. Quando criminalizaram os movimentos sociais e mataram impunemente muitas lideranças locais. Quando cometeram crimes raciais impunemente. Nos humilharam quando destruíram os órgãos de reforma agrária, de criação de moradias, os órgãos sanitários e as ações de renda mínima. Nos humilharam quando agiram com ignorância nas relações diplomáticas com outros países. Nos humilharam quando se ajoelharam aos interesses predatórios, entregando à ganância de grupos econômicos nacionais e estrangeiros as riquezas da nação, comprometendo a soberania nacional. Nos humilharam quando declararam guerra aos mais fracos, frágeis e aos que lutam por reconhecimento e respeito à diversidade. Como nos humilharam quando também humilharam as mulheres, os homossexuais, as crianças, as religiões afro e os povos e as comunidades étnicas. Nos humilharam quando aceitaram que o nosso solo, nossas águas fossem contaminados com todos os tipos de venenos, inclusive aqueles já proibidos em outras partes do mundo, apenas para aumentar os lucros sobre o que teria que ser para nós o alimento. Nos humilharam quando queimaram e derrubaram nossas florestas, deteriorando o ar que respiramos e transformando a vida em algo banal, em mera estatística a fundo perdido, sendo as milhares de mortes consideradas um lucro para o Estado. Nos humilham ao mentir e manipular parte da população que se comporta como rebanho escravizado e inerte. Nos humilharam com a morte ao nos expor a milícias armadas, bandidos, capazes de macular símbolos e bandeiras e de dançar sobre caixões. Nos humilharam ao mentir, ao não investigar as pistas do roubo descarado, por homenagear assassinos e pelas chuvas ácidas carregadas de ofensas e palavrões.

Essa humilhação diária é o que mais nos cansa, exaure nossas forças, resseca nossa esperança, que seria fundamental para erguer nossas defesas e energias vitais, nos debilitaram em plena luta contra um vírus desconhecido e ainda os que se anunciam como ação direta das predações, dos desequilíbrios sistêmicos e descontrolados, em dimensões planetárias.

Tendo nascido nos anos cinquenta do século XX, fui criança nos resquícios das grandes guerras mundiais, das políticas genocidas e da invenção dos campos de morte; fui uma jovem no período da ditadura militar, que torturou, matou e desapareceu com muitas pessoas que sonharam com um país mais justo. Em minha vida adulta estive ao lado das lutas pela liberdade de expressão, da ampliação dos direitos sociais e pela redemocratização. Acompanhei todas as etapas da elaboração da Constituição, a Carta Magna, que agora vejo sendo pouco a pouco desfigurada. Assistimos agora ao desmoronamento do mais desumano neoliberalismo periférico que arrasta o país ao rápido empobrecimento e, com ele, o nosso descontrolado ingresso deste mundo na era da virulência: os vírus que penetram nas redes de comunicação, dominando e até destruindo nossas memórias virtuais, nossa autonomia científica, tal como as fogueiras nazi que no passado engoliram milhares de livros; os vírus que invadem nosso sistema biológico, destruindo nossos corpos e os atirando aos milhares em valas comuns, sem direito a despedidas, sem qualquer cerimônia, sem ressonância e na crua brutalidade. Que cansaço, que exaustão!

Como disse a personagem Nadejda, cujo nome significa em russo “esperança”, a Revolução é algo muito distinto, é um acontecimento erótico, que opera pelo desejo, pela alegria, pela utopia. E o que vemos em nosso país agora é a necrofilia: a falta de empatia, de solidariedade, de amor, é a própria impotência que se expressa pelo ódio, pelo desmonte, pela destruição, pela política de terra arrasada.

Não podemos permanecer nesse cansaço, precisamos começar como Nadejda, precisamos sussurrar, sem parar, nossos melhores exemplos de luta, mesmo que seja para reconhecer que em estado de isolamento, até o fazer nada pode ser um outro tipo de fazer alguma coisa. Como séculos atrás faziam os africanos e africanas escravizados, para vencer a exaustão do trabalho forçado de sol a sol, descansavam movendo o corpo nas danças, nos cantos e no toque dos atabaques. Essas formas de luta e resistência são sussurros, por se proliferarem secularmente, por ecoarem nos quilombos, nos terreiros, nos redutos negros, em todos os cantos desse país (Leite, 1996). É o sussurro que renova o ar, refunda a resistência, ilumina a memória e alivia o cansaço. Há poucas semanas, a voz de um jovem negro do Haiti, ecoou na porta do palácio: você não é mais presidente! Essas palavras percorreram o país e o mundo, preencheram o vazio simbólico que nos é despejado diariamente, ecoaram como uma espécie de poema, reverberando mais e mais em nossos ouvidos, como um Slam, ativando nossa memória, renovando nossas forças para vencer o cansaço e para ir à luta.

Aprendemos que o vírus pode ser menos letal que um regime opressor. Em meio à pandemia, ainda que estejam entre os mais atingidos pelo vírus, o povo negro nos ensina que a luta contra o racismo é muito maior que a ameaça viral, que essa batalha é gigantesca e não pode, não deve e não vai parar, ainda que haja cansaço e dor.


Referências: Jaffe, Noemi. O que ela sussurra. São Paulo: Cia. das Letras, 2020.

Han, Byung-Chul. La desaparición de los rituales. Uma topología del presente. Barcelona: Herder Editorial, 2020.

Leite, Ilka B. Antropologia da Viagem: escravos e libertos em Minas Gerais no Século XIX. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1996.

Mbembe, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. (2001) São Paulo: n-1 edições, 2018.


Texto originalmente publicado em 08 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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