• antropoLÓGICAS

v7a15| Identificação partidário-ideológica e o COVID-19: evidências recentes

Por Bruno Marques Schaefer. Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com pesquisas na área de financiamento eleitoral, organização e surgimento de partidos políticos e estudos legislativos.


"Distanciamento social = comunismo". Disponível aqui



Desde o início da pandemia do novo coronavírus, governos, em diferentes países e a nível subnacional, têm tomado uma série de diferentes medidas em torno da ideia de isolamento social1. O isolamento social, entendido como quarentena, lockdown, fechamento de setores econômicos não essenciais em meio à maior crise de saúde dos últimos tempos, tem por intuito a redução do estresse de sistemas de saúde e o achatamento da curva de contágio2.

Para garantir que as pessoas fiquem em casa, medidas de simples coerção, principalmente em países democráticos, são impraticáveis. São necessárias garantias financeiras – como renda básica e empréstimos subsidiados – para que pessoas não tenham que voltar a circular por questões laborais, bem como empresas não entrarem em falência. Aliado a isso, é imprescindível, como apontam pesquisas, que lideranças políticas emitam mensagens claras e confiáveis para a população acerca dos cuidados necessários para a superação da pandemia3 4. O que parece ser consenso entre especialistas de saúde pública, no entanto, não o é quando se fala da questão em termos da disputa partidário-ideológica, principalmente considerando como a questão do coronavírus tem sido enfrentada por diferentes lideranças ao redor do mundo. A partidarização, ou polarização, das medidas de isolamento social é um fenômeno que deve ser considerado na análise sobre o efeito deste tipo de política pública. Bem por isso, o ferramental teórico e metodológico das Ciências Sociais, em geral, e da Ciência Política, em particular, são importantes para perceber a variação – entre os indivíduos – do nível de aceitação de medidas que alteram radicalmente o comportamento da população5.

Diversas lideranças políticas populistas de direita têm oscilado, ao redor do mundo, entre o negacionismo dos efeitos do novo coronavírus e o discurso de que o remédio - isolamento social, enquanto não há tratamentos medicinais confiáveis e/ou uma vacina - seria “pior” do que a doença - queda da produção econômica, desemprego, entre outros fatores. Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, têm sido proeminentes neste tipo de estratégia, inclusive apoiando manifestações contra o isolamento social6 7. Algumas investigações recentes têm explorado o efeito do partidarismo sobre reações individuais ao novo coronavírus nos Estados Unidos e traçam panoramas que podem ser extrapoladas para o caso brasileiro a partir de pesquisas de opinião recentes e futuras investigações acadêmicas.

Gadarian, Goodman e Pepinsky (2020)8 analisaram dados em um survey aplicado para 3000 estadunidenses realizado entre 20 e 23 de março, uma semana após o presidente do país declarar estado de emergência. As autoras encontraram evidências estatísticas robustas de que a identificação partidária, controlada por variáveis como renda, gênero, idade, localização geográfica e raça/cor, afeta as maneiras como as pessoas se comportam perante a crise. Existem diferenças significativas, considerando a amostra pesquisada, entre indivíduos identificados e filiados ao Partido Democrata (de oposição e mais à esquerda em relação ao presidente) e identificados e filiados ao Partido Republicano (partido de Trump e mais à direita nos EUA), no que concerne a aspectos como: lavar as mãos mais frequentemente, buscar informações sobre o vírus e o apoio a, por exemplo, o fechamento de escolas (2020, p.06).

Allcott e colaboradores (2020)9 trabalharam com dados de GPS10 que mensuram o nível de distanciamento social em distritos dos Estados Unidos e resultados de um survey aplicado com 2000 respondentes. Os dados de GPS foram coletados através do site SafeGraph que mede, a partir de dados de smartphones, a circulação de pessoas em pontos de interesse como: shoppings, supermercados e aeroportos. O cruzamento do padrão de circulação de pessoas entre janeiro e abril na maioria dos distritos eleitorais estadunidenses e o voto em Trump em 2016 foi significativo: quanto maior o voto no atual presidente menor o distanciamento social. A partir dos resultados do survey, os autores encontram evidências da variação, por exemplo, entre a crença de que a pessoa irá pegar o novo coronavírus sem isolamento social e a identificação partidária: uma diferença de mais de 10 pontos percentuais entre democratas e republicanos.

Os dois papers, apesar de ainda não revisados pelos pares, apontam questões importantes para pesquisas posteriores e para a própria efetividade de determinadas políticas públicas. Afinal de contas, se há um gap partidário entre cuidados básicos como lavar as mãos, como emitir mensagens que cheguem de maneira unificada nas pessoas e evitem maior contaminação? A resposta a esse problema passa pela necessidade de maior investigação científica.

Trabalho de Ajzenman et al (2020)11 demonstra, por exemplo, que participações de Bolsonaro em eventos contra o isolamento social tem efeito positivo sobre a diminuição deste. Utilizando como unidade de análise os municípios brasileiros, os autores encontram evidências de que quanto maior o apoio eleitoral a Bolsonaro nas eleições de 2018, maior o efeito de suas declarações sobre o índice de distanciamento social. Em outras palavras, o discurso do presidente tem efeito negativo sobre uma das principais medidas de contenção da pandemia quanto mais “bolsonarista” for a cidade.

Na mesma linha, pesquisa do Datafolha de 17 de abril de 2020 relaciona a aprovação do governo Bolsonaro com tipos de isolamento social durante a pandemia. Os respondentes que avaliam o governo como ruim/péssimo tendem proporcionalmente a levar o isolamento social mais a sério: saindo de casa somente quando inevitável (diferença de 9 pontos percentuais) e não vivendo como antes (diferença de 46 pontos percentuais).

Gráfico 1:

Avaliação do desempenho de Bolsonaro em relação ao surto de coronavírus por tipo de isolamento adotado

Fonte: Datafolha, extraído de Pablo Ortellado (twitter)12


No caso das pesquisas aqui expostas, é possível observar que diferenças de identificação partidário-ideológica têm efeitos significativos sobre comportamentos de grupos e indivíduos. O grau de aceitação de medidas de isolamento social, essenciais neste momento da pandemia, é moldado por visões de mundo, ideologias, apoios políticos. Partidos e lideranças que disputam na esfera pública, neste sentido, acabam por ter um papel essencial na transmissão de informações para a população e leituras sobre eventos, fatos e disputas. No caso dos Estados Unidos e Brasil, os chefes do Executivo têm atuado numa linha tênue entre a desinformação e o negacionismo dos fatos, o que pode e já tem gerado efeitos nas formas de resposta dos indivíduos perante a crise.

Enquanto o número de mortes aumenta nos dois países, o esforço dessas lideranças não converge em um discurso que abranja a maioria da população, mas se centra nos grupos específicos que os apoiam. A aparição e discurso de Jair Bolsonaro em uma manifestação contra a democracia e pelo fim do isolamento social no dia 19 de abril de 2020 reforça esse ponto. Contradisse completamente as normas do próprio Ministério da Saúde e ainda investe na linguagem belicosa em negação da gravidade da crise.



Notas:

1 https://www.bsg.ox.ac.uk/research/research-projects/coronavirus-government-response-tracker, acesso em 21 de abril de 2020. 2 https://www.livescience.com/coronavirus-flatten-the-curve.html, acesso em 21 de abril de 2020. 3 HOLMES, Bev J. Communicating about emerging infectious disease: The importance of research. Health, Risk & Society, v. 10, n. 4, p. 349-360, 2008. 4 VAUGHAN, Elaine; TINKER, Timothy. Effective health risk communication about pandemic influenza for vulnerable populations. American Journal of Public Health, v. 99, n. S2, p. S324-S332, 2009. 5 https://www.sciencemag.org/news/2020/04/crushing-coronavirus-means-breaking-habits-lifetime-behavior-scientists-have-some-tips, acesso em 21 de abril de 2020. 6 https://brasil.elpais.com/politica/2020-04-19/bolsonaro-endossa-ato-pro-intervencao-militar-e-provoca-reacao-de-maia-stf-e-governadores.html, acesso em 21 de abril de 2020. 7 https://www.vox.com/2020/4/17/21225134/trump-liberate-tweets-minnesota-virginia-michigan-coronavirus-fox-news, acesso em 21 de abril de 2020. https://ktla.com/news/local-news/demonstrators-gather-in-huntington-beach-to-protest-states-stay-at-home-order-and-defying-social-distancing-rules/, acesso em 29 de abril de 2020. 8 GADARIAN, Shana Kushner; GOODMAN, Sara Wallace; PEPINSKY, Thomas B. Partisanship, health behavior, and policy attitudes in the early stages of the COVID-19 pandemic. Health Behavior, and Policy Attitudes in the Early Stages of the COVID-19 Pandemic (March 27, 2020), 2020. 9 ALLCOTT, Hunt et al. Polarization and Public Health: Partisan Differences in Social Distancing during COVID-19. Available at SSRN 3570274, 2020. 10 https://www.safegraph.com/, acesso em 21 de abril de 2020. 11 AJZENMAN, Nicolás; CAVALCANTI, Tiago; DA MATA, Daniel. More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior During a Pandemic. Available at SSRN 3582908, 2020. 12 https://twitter.com/pablo_ortellado/status/1252660745189437445, acesso em 21 de abril de 2020.


Texto originalmente publicado em 09 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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