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v7a17| Da educação presencial à educação remota: a experiência docente em tempos de coronavírus

Neiva Furlin. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC) e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais (NUPE).


Photo by Gery Wibowo on Unsplash



O coronavírus vem impactando todas as dimensões das nossas vidas. As questões econômicas e sociais, embora insuficientes e tratadas com lentidão, foram colocadas na ordem das políticas emergenciais. Já a educação ficou no descaso. O MEC emitiu portarias, como a de n.345 em março e a de n.395 em abril, dispondo sobre a substituição de aulas presenciais por atividades de aprendizagens remotas, por meio do uso de tecnologias digitais. Não houve um debate público sobre as desigualdades de recursos técnicos e de acesso à internet e à informação por parte dos estudantes e, inclusive de professores/as, além da realidade de preparação desses profissionais para enfrentar uma realidade imposta. Como garantir o direito de educação de qualidade, em tempo de pandemia, com situações sociais tão desiguais quando, segundo o professor Sérgio Hadadd5, 40% da população não tem conexão à internet, muitos não têm espaço de estudo em casa e pais sem condições de acompanhar os processos de aprendizagem de seus filhos, seja por ter que trabalhar ou por não ter formação suficiente. Nesse período, as desigualdades de acesso ao direito de uma educação de qualidade ficam mais evidentes, tanto na rede privada e, mais ainda, na rede pública de ensino.

A pandemia nos impôs um isolamento social, sem nenhum preparo prévio, fazendo com que profissionais da educação e estudantes tivessem que lidar com questões materiais e emocionais, tendo que, ao mesmo tempo, se reinventar como docente, discente, e também nas outras tantas posições de sujeito que cada pessoa ocupa no seio das famílias e no mercado de trabalho.

Relato, aqui, a experiência de ser docente diante desse processo de mudanças que nos deixou sem saídas. Trabalho em uma universidade comunitária no Estado de Santa Catarina. Assim que as aulas presenciais foram suspensas, no dia 17 de março, a universidade assumiu a Portaria nº343 do MEC, propondo a substituição das aulas presenciais por remotas durante todo o período da pandemia do novo coronavírus . Professores e estudantes tiveram que se adaptar, da noite para o dia, à modalidade de ensino remoto, por meio do uso de tecnologias. Ninguém estava preparado para tal situação. Houveram resistências tanto de discentes como de docentes. Os professores/as precisaram se tornar, rapidamente, especialistas no uso das tecnologias para atividades online.

A universidade tem algumas condições a seu favor. Conta com um Ambiente Virtual de Aprendizagem, utilizado para a modalidade de ensino em EAD e MIX (cursos com aulas presenciais e on-line), de modo que se recorreu às ferramentas dessa plataforma. No entanto, os professores/as dos cursos presenciais não tinham preparo técnico para o uso de todas as ferramentas disponíveis. O aprendizado foi acontecendo na medida em que as atividades de ensino eram preparadas. A todo o tempo, a equipe do Núcleo de Apoio Pedagógico deu suporte técnico aos/às docentes, com encontros virtuais e envio de tutoriais sobre as ferramentas da Plataforma de ensino, profissionais esses que foram submetidos a jornadas exaustivas de trabalho, sem hora predeterminada e disponíveis a todo o momento para dar atendimento personalizado aos professores/as.

Os/as docentes foram orientados a planejar atividades síncronas (webconferências) com a presença simultânea de professores/as e estudantes, realizadas no mesmo dia e hora da oferta da disciplina e atividades assíncronas em que os estudantes deveriam realizar atividades, sem data e horário estipulado, e entregar no prazo determinado via plataforma de ensino.

Buscou-se manter uma aparente normalidade, diante de uma crise sanitária que desestabilizou famílias, a situação econômica e questões de ordem emocional. Como professora, no mestrado em educação e do componente de sociologia Jurídica, no curso de Direito, realizei a experiência dessa passagem da educação presencial à educação remota, vendo a jornada de trabalho se ampliar, tendo que lidar com outras situações de ordem pessoal e interagir com dificuldades técnicas e emocionais de estudantes.

Grande parte dos estudantes da universidade são de pequenas cidades da região ou de comunidades rurais e muitos dividem o tempo de estudos com o trabalho profissional. Algumas vezes foi necessário readequar as atividades ou gravar as aulas porque havia estudantes que não tinham como acompanhar as webconferências, seja por ter sinal fraco de conexão ou por possuir equipamentos inadequados. Devido a essa realidade e pela pressão emocional em ter que reconfigurar o cotidiano da vida com o cuidado de filhos e pais idosos, houve desistência de estudantes, sobretudo do sexo feminino. Isso, de certa maneira, evidencia que os impactos da pandemia sobre a vida dos estudantes são diferentes, quando se leva em consideração as questões sociais e de gênero. Também me deparei com mensagens de estudantes no site da instituição pedindo redução de mensalidades, tanto por terem seus salários reduzidos, como por considerar que estavam tendo aulas na modalidade de EaD, que tem um custo mais reduzido no “mercado da Educação”, mesmo que a instituição usasse a terminologia de aulas presenciais mediada pela tecnologia para distinguir da modalidade em EaD.

Na modalidade de ensino remoto, vi o trabalho se triplicar. Além de dispor tempo e paciência para o aprendizado de ferramentas tecnológicas, foi necessário repensar metodologias e práticas pedagógicas, detalhar o desenvolvimento das atividades de ensino nas plataformas digitais e responder a muitas mensagens de estudantes no WhatsApp, fora do chamado “horário de trabalho”.

O reinventar-se como docente online e o aprendizado no uso das tecnologias são um ganho desse tempo de pandemia, que pode fortalecer o processo de ensino e aprendizagem presencial. Contudo, isso não pode servir como uma espécie de laboratório de um projeto de educação que visa expandir a modalidade de EaD e ampliar os processos de privatização do ensino, segundo os interesses do capital internacional.

O cenário de pandemia coloca em evidência que ampliar essa modalidade de ensino seria aprofundar ainda mais as desigualdades de condições e de acesso ao direito da educação de qualidade e submete a profissão docente a processos mais precarizados, ampliando a jornada de trabalho, sem que isso signifique ganhos salariais.

Uma pergunta que se coloca: o que será da educação pós-pandemia? As novas experiências e o debate político sobre os impactos do coronavírus à educação nos ajudará a ampliar o direito humano da educação pública e de qualidade ou seremos submetidos/as a processos que ampliam as desigualdades sociais e a precarização da docência? Oxalá que possamos nos unir, resistir e contribuir na formulação de políticas educacionais que garantam o direito de acesso à educação pública e de qualidade para todos/as, pautada em princípios equitativos, de políticas educacionais que promovam a valorização profissional da docência. Sonhar é manter viva a esperança de dias melhores e de uma sociedade mais humanizada, justa e plural, em que a educação seja a principal ferramenta para materializar essa utopia.



Texto originalmente publicado em 10 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.


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