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v7a18| A pergunta difícil: permanecemos socialmente vivos?

Por João Teixeira Lopes. Sociólogo e professor catedrático da FLUP.


Photo by Max Bender on Unsplash


Este texto aborda a situação da pandemia em Portugal que, neste momento (início de maio), parece controlada, após um período de confinamento severo (há pouco mais de mil mortes e cerca de 27 mil infetados). Para além da crise sanitária, grassa uma crise social e económica, particularmente permeável às desigualdades sociais.

Enquanto sociólogo, não poderia deixar de partilhar convosco algumas preocupações. A primeira prende-se com os riscos de um prolongado período de reclusão, devido a medidas excecionais decretadas pelo Estado. Nestas conjunturas, as atenções são monopolizadas pela exaltação da urgência e largas franjas da nossa sociedade resvalam ainda mais abruptamente para zonas de sombra e de invisibilidade. O risco é sempre desigualmente distribuído, inclusive em alturas de generalização e massificação das ameaças. Não tenho dúvidas: mesmo sendo necessárias, tais medidas vão afetar os mais frágeis, social e economicamente falando. Desde logo, os socialmente vulneráveis (idosos, doentes mentais, presos, população sem abrigo), com poucos laços, isolados e incapazes de mobilizar redes de apoio. Ou as instituições de solidariedade social se adaptam com rapidez, sendo capazes de levar bens, medicamentos, informação e consolo aos mais confinados, ou estes poderão ver a sua saúde física e mental debilitar-se significativamente. Sugiro, aliás, que se reforcem as medidas de monitorização do funcionamento dos lares, pois sabemos como alguns deles funcionam em situações precárias a roçar a ilegalidade. Do mesmo modo, as associações de defesa dos Direitos Humanos devem poder assistir aos presos e as comissões de proteção de crianças e de jovens, para prevenir situações de abuso e de violência. Terão de ativar recursos e forças. As autarquias e serviços de saúde poderão proteger a população sem teto. Repito: em reclusão, o laço social debilita-se e podem multiplicar-se casos de relegação social.

Mas não esqueço, igualmente, os economicamente frágeis: sabemos o montante do salário mínimo (635 euros) e conhecemos o valor do salário médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem, que é de 970 euros. Salários reduzidos a 2/3 do rendimento habitual vão causar dificuldades a muitas pessoas, já para não falar dos trabalhadores a recibo verde que somente auferirão 1/3 da média dos últimos meses.

Penso, em segundo lugar, no agravamento das desigualdades de género. Como mostram os estudos sobre os usos do tempo coordenados por Heloísa Perista, do Centro de Estudos para a Intervenção Social, elas, as mulheres portuguesas, sofrem de uma sobrecarga de tarefas domésticas. Ou as relações sociais de género sofrem uma revolução, o que infelizmente não é plausível em tão pouco tempo, ou as mulheres, de novo, vão sofrer mais com a crise. De resto, toda a situação de emergência funcionará como teste aos modos de organização e relação da estrutura familiar.

Gostaria, em terceiro lugar, de salientar o meu repúdio pela expressão tão desenfreada de sentimentos excludentes gerados pelo medo. Em Portugal, como na Europa, repetem-se os apelos para o fecho de fronteiras, esquecendo como é essencial que as mercadorias circulem e que as pessoas doentes possam ser assistidas com dignidade. Ao contrário do pânico irracional, os vírus ignoram os muros.

O clamor por “vozes de comando” e atitudes musculadas é um sinal de como a incerteza pode ser canalizada para o suporte a falsas soluções autoritárias. A Europa, assolada desde há muito pelos espectros dos novos fascismos, agita-se, ululante, por medidas coercivas, estigmatizantes e securitárias. Estará o velho continente à altura para coordenar respostas solidárias, fornecendo segurança social aos cidadãos e cidadãs, colocando na gaveta o dogma do défice e apostando em medidas de investimento público e de apoio social? Mais importante do que a ilusão de segurança de autoridades soberanas, que cavam um fosso entre os que decidem e os súbditos que obedecem, é a aposta em fortalecer os laços sociais. O pior que poderia acontecer era um cenário pós Covid-19 em que as sociedades se oferecessem, sem resistências democráticas, aos arautos do racismo, do eugenismo e da higienização social.

Neste tempo em que a alegria é uma sombra e em que os abraços se suspendem no ar, não podemos renunciar à mais difícil e urgente das perguntas: quando chegar, o vírus vai encontrar-nos ainda socialmente vivos?



Texto originalmente publicado em 11 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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