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v7a19| Essas são as perguntas certas? Vírus, doenças e seus contexto sociais

Por Amanda Domingues. Doutoranda no programa de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia da Universidade Cornell e co-editora da seção Sul Global do blog Backchannels da Society for the Social Studies of Science (4S).


Photo by CDC on Unsplash


Enquanto lia as notícias e publicações no meu feed de notícias do Facebook há algumas semanas, me deparei com uma antiga colega de classe da faculdade que se perguntava o que os antropólogos que criticam a ciência moderna estavam falando sobre o Coronavírus e sobre as possibilidades que esta mesma ciência estava criando para curas. Sua pergunta – e a crítica contida nela – se baseava principalmente em uma leitura desses antropólogos que vê a ciência moderna em conflito com outras formas de práticas de cuidados com a saúde, sejam elas formas institucionalizadas de práticas medicinais (como a acupuntura) ou formas que são entendidas pelo ocidente como magia e ritual.

Estes tipos de dilema – o mesmo que minha colega se deparou recentemente – são situações que frequentemente encontro como pesquisadora na área de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ESCT), um campo ainda pouco conhecido no Brasil. Fundado inicialmente como uma junção da Sociologia e Antropologia da Ciência e da História da Ciência, hoje, o campo é independente e vem crescendo no Brasil1. Acredito que muitos dos autores que vêm contribuindo para esse canal também se consideram pesquisadores da área. No entanto, ainda há muita confusão, mesmo por parte de outros cientistas sociais, a respeito dos argumentos que apresentamos sobre a ciência moderna. E muitos dentre esses cientistas sociais ainda veem nossa crítica à ciência como uma crítica ao “progresso” e à “modernidade”. Afinal, se a ciência está salvando tantas vidas, quem poderia ser contra ela? E é exatamente esse tipo de posição que nós, pesquisadores de ESCT não temos e não reivindicamos. O nosso trabalho não é criticar a iniciativa de instituições de pesquisa em investir na cura para o coronavírus ou, como esta minha colega pensa, reificar curas alternativas em detrimento dos usos da medicina ocidental. Nosso trabalho é abrir os olhos para as premissas e suposições que estão nas entrelinhas de projetos científicos e artigos acadêmicos. É revelar a narrativa por trás das leis naturais da biologia e da física, mostrando como o encontro do espermatozóide e do óvulo também pode ser lido como uma estória, um discurso (para saber mais sobre esta estória sugiro a leitura de Martin, 19912). E até mesmo a forma como pensamos vírus e bactérias (como uma guerra contra o inimigo) revela mais sobre nossa obsessão com fronteiras e propriedade do que sobre germes. O artigo de Napier3 explica melhor essa ideia.

E em meio a uma pandemia, quando a ciência é venerada como instituição provedora do conhecimento salvador da humanidade, nós nos perguntamos qual humanidade estamos salvando. Ser um pesquisador de ESCT não é de forma alguma ser apoiador do movimento antivacina ou da redução de investimentos em ciência e tecnologia (C&T) como acontece hoje no Brasil4 . Nós, na verdade, somos os que mais defendemos o investimento em C&T e sua popularização e a inclusão social que tecnologias sociais promovem. Mas as perguntas que as ciências (incluindo as sociais) se fazem às vezes estão erradas. O que os nossos “objetos de pesquisa” responderiam se lhes perguntássemos as perguntas certas5? A questão não é chegar à verdade sobre qual visão de mundo salva mais vidas: a ocidental, a oriental, a indígena ou a tradicional. Isso porque a própria forma como vivemos hoje – e que foi fundamental para a proliferação do vírus – é inseparável da ciência que produzimos. As perguntas nas quais deveríamos nos concentrar são: que tipo de humanidade estamos salvando? Quais os impactos de nossos métodos científicos para esta humanidade? Em um dos seus clássicos artigos6, Susan Craddok – que estuda como doenças são vivenciadas pela sociedade – diz: “entender [somente] epidemiologia e patologia refina o escopo [de nossa] percepção, mas não priva uma doença de seu contexto social.” Minha resposta para minha colega tinha isso em mente. Notícias de pesquisadores colaborando para desenvolver uma vacina que salvará muitas vidas é tudo que queremos agora. Também queremos ver a ciência brasileira mostrando sua capacidade, como a pesquisa realizada pelos pesquisadores de Manaus a respeito dos efeitos da cloroquina7. Porém, esse conhecimento, essa tecnologia não são produtos isolados. Com eles, vem o contexto social que é tão familiar ao cientista social, mas que é muitas vezes negligenciado pelo biólogo, pelo médico ou patologista. E a justificativa que estes oferecem para o desinteresse em explorar o contexto social está baseado na premissa de que estes contextos estão no domínio das humanidades e portanto, separados da ciência que é neutra. E muitas vezes o próprio cientista social se deixa negligenciar por não entender de reações moleculares, isótopos ou genômica.

Se este artigo se revela mais como um desabafo e um apelo do que um argumento, isso não é coincidência. Os Estudos Sociais da C&T precisam crescer no Brasil e isso deve começar por um reconhecimento, nas ciências sociais, da importância do estudo de C&T. A iniciativa deste boletim e, mais especificamente, o grande número de artigos aqui publicados já revela uma demanda pela produção e consumo de conhecimento sobre ciência, tecnologia e sociedade. O encontro da ANPOCS também tem um GT dedicado ao tema8. Temos que estimular discussões que lidem com ciência e sociedade juntos; não como faces da mesma moeda pois, como reflexo uma da outra e em lados distintos, estas faces nunca se encontram; mas que pensem ciência como um produto social e ao mesmo tempo sua matéria prima; ciência e sociedade como co-construções9: a ideia de que ciência e tecnologia se desenvolvem conjuntamente com representações, identidades, discursos e instituições.



Texto originalmente publicado em 11 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.


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