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v7a2| Da fosfoetanolamina à cloroquina: notas sobre a politização da ignorância

Por Lenin Bicudo Bárbara é formado em Ciências Sociais (2008) pela FFLCH-USP, com mestrado (2012) e doutorado (2018) em Sociologia, pela mesma instituição. Atualmente, é pesquisador de pós-doutorado junto ao Departamento de Sociologia da FFLCH-USP, com bolsa PNPD/CAPES. Neste semestre, está ministrando nessa instituição a disciplina “Sociologia da ignorância e do conhecimento: uma introdução”.



No dia 19 de março, Trump anunciou à imprensa seu otimismo com o potencial terapêutico da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19. Dois dias depois, Bolsonaro engrossou o coro, garantindo que as Forças Armadas aumentariam a produção da cloroquina. Depois disso, falou ou tweetou quase diariamente sobre o assunto, por semanas. Numa de suas lives, disse com convicção que a hidroxicloroquina não tem efeitos colaterais, se “ministrada corretamente” – contrariando a informação da bula das caixinhas do remédio que agitava no ar enquanto falava.

A onda da cloroquina só assumiu tais proporções graças à potência do microfone da Casa Branca; mas não surgiu ali, e sim na própria comunidade médica. Diante de novas epidemias, é comum recorrer ao reposicionamento de fármacos. E o que se sabe do mecanismo de ação da cloroquina1 – eficaz como medicamento para certas condições – faz dela uma substância sempre lembrada nessas situações. Ela chegou a ser cogitada no combate à microcefalia causada pelo Zika vírus, em 2016, como, aliás, lembrou Bolsonaro, ao postar em seu canal do Youtube uma reportagem do Jornal Nacional que então anunciava – em tom otimista – que a cloroquina estava sendo testada para esse fim.

A postagem de Bolsonaro era uma de suas “alfinetadas” na imprensa, que visava minar sua credibilidade. Não lhe interessava mencionar que a pesquisa sobre o uso da cloroquina no combate à microcefalia ficara só na promessa. Passados quatro anos, não temos comprovação clínica de sua eficácia em humanos para essa condição.

Esse é o destino da maioria das drogas em algum momento tidas como “promissoras” por membros da comunidade médica. Mas, Bolsonaro não é o único que extrai só o que lhe interessa da história. O passo específico do processo científico no qual uma substância desponta como “promissora” tem a qualidade do noticiável: para um jornalista, é mais interessante transformá-lo em notícia do que noticiar seus desdobramentos posteriores.


Foto: Captura de tela da gravação de uma live de Bolsonaro, mencionada no texto

(live feita no dia 26 de março, disponível em seu canal do Youtube).

Diante disso, é quase irresistível comparar o caso da cloroquina com o da sua rima pobre: a fosfoetanolamina. Sintetizada no laboratório do Instituto de Química da USP de São Carlos, e dispensada de maneira informal por duas décadas, em 2015 a fosfoetanolamina virou objeto de comoção nacional. Ganhou o apelido de “pílula do câncer” e tornou-se pauta no Congresso, no Planalto e no Supremo.

Há várias diferenças entre os casos. O que se sabe sobre o mecanismo de ação da cloroquina, por exemplo, fornece uma justificativa plausível para testá-la como remédio para pacientes com Covid-19 – ausente no caso da fosfoetanolamina. Além disso, o Conselho Federal de Medicina, que se posicionara de modo decididamente contrário no caso da fosfoetanolamina2, adotou uma posição ambígua diante da cloroquina, bem no momento em que ficava claro que a aposta nela não parece muito auspiciosa.

Essas diferenças são importantes para entender a peculiaridade de cada caso. O parecer nº 04/2020 do CFM3, de 23 de Abril, que autoriza o uso da substância para casos leves – mesmo reconhecendo ausência de evidência de eficácia –, revela uma maior transigência da instituição diante da pressão vinda do Executivo e de parte da sociedade civil, em um momento de crise sanitária. Mas, são as semelhanças que saltam à vista, quando tais substâncias deixam de ser assunto “de especialistas” para se tornarem objeto de comoção popular.

Nos dois casos, autoridades políticas e especialistas mencionaram experiências clínicas não-controladas e pesquisas de baixa qualidade metodológica como se fossem provas contundentes de eficácia terapêutica. Nos dois casos, programas de tevê e jornais veicularam depoimentos pessoais, por vezes com forte apelo emocional, de médicos ou pacientes convencidos de que tais substâncias salvam vidas. Nos dois casos, formadores de opinião buscaram pintar a atitude cautelosa da comunidade científica e de agências reguladoras como um “obstáculo” para a cura, como algo contrário à “esperança”. Nos dois casos, o público leigo no assunto se depara com afirmações contraditórias de diferentes especialistas. Nos dois casos, representantes eleitos pressionaram instituições públicas a produzir tais substâncias e incentivaram seu uso, mesmo sem comprovação adequada de segurança e eficácia, gerando atrito entre os sistemas político e científico. Nesse ponto, até algumas das figuras públicas que pautaram o debate se repetem. Bolsonaro foi um dos mentores do projeto de lei favorável à fosfoetanolamina, em 2016, quando era deputado. Nessa época, formadores de opinião influentes – como o médico Dráuzio Varella – opunham-se à iniciativa, pedindo cautela.

Nesses dois casos, temos todos os ingredientes para a politização da ignorância – para ecoar o termo proposto por Ulrich Beck & Peter Wehling, para tratar de situações em que a ignorância se torna objeto de controvérsias públicas e disputa política4. Vale notar que “ignorância” não tem aqui o sentido pejorativo que o termo possui no senso comum. “Ignorar” é não saber, e a vida em sociedade é marcada pela circunstância de que frequentemente temos de agir mesmo sem saber o que precisaríamos saber, para agir de maneira consequente. A maior parte do que sabemos, sabemos não com base em uma consideração atenta dos fatos, mas porque confiamos na palavra de outra pessoa que, supostamente, examinou a questão. E, como um dos critérios de que nos servimos para atribuir credibilidade à palavra de alguém é a afinidade ideológica, temos aqui o caminho aberto para a politização da ignorância.

Precisamos, claro, conduzir com cuidado tal discussão. Nesse ponto, é útil destacar outra diferença entre os dois casos. Devido ao papel de destaque de Trump e Bolsonaro no caso da cloroquina, a discussão sobre o tema rapidamente refletiu a polarização ideológica em torno dessas figuras: representantes da esquerda – e, com eles, também alguns setores da direita contrários a Trump ou Bolsonaro – logo criticaram a recomendação do uso da substância, diante da ausência de evidências científicas adequadas para tal. Mas a história foi outra no caso da fosfoetanolamina: o projeto, que teve entre seus mentores Bolsonaro, recebeu apoio de todo o espectro político; foi sancionado pela então presidenta Dilma Rousseff; e mesmo adversários diretos de Bolsonaro na Câmara, como o então deputado Jean Wyllys, em dado momento manifestaram apoio ao projeto. Não deixa de ser digno de nota que esse gesto pontual de superação das cismas ideológicas tenha se dado, justamente, em torno de algo que, no frigir dos ovos, não passava de “pílula mágica”. Esse é um gesto, claro, que já não tem espaço no cenário atual, marcado por um grau ainda maior de polarização política.

Neste momento, em que depositamos nossa confiança em epidemiologistas engajados em investigar a circulação do novo coronavírus, cabe a nós, cientistas sociais, aprofundar a discussão da politização da ignorância; investigar como a desinformação circulou no passado e circula hoje; comparar o maior número possível de casos e identificar os padrões que daí emergem; e dialogar com pesquisadores que se debruçam sob o mesmo tema de uma perspectiva diferente da nossa, como é o caso da ampla literatura hoje existente sobre vieses cognitivos. Dessa forma, num futuro talvez não tão distante, estaremos melhor preparados para lidar com uma nova onda de desinformação. Que ela chegará, é uma aposta tão certa como a de que a crise atual não será resolvida com injeções de desinfetante.

Agradeço ao Leopoldo, por me estimular a escrever sobre o assunto, e à Ellen, pelos comentários valiosos que ajudaram a melhorar o texto.


Notas:

https://cienciasfarmaceuticas.org.br/notice/acfb-informativo-as-bases-cientificas-do-uso-da-cloroquina-e-da-hidroxicloquina-sobre-a-covid_19/ 

https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=26100:2016-04-14-19-57-54&catid=3 

http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=28672:2020-04-23-13-08-36&catid=3 

4  Cf. Beck & Wehling (2012). “The politics of non-knowing: An emerging area of social and political conflict in reflexive modernity”. In: Rubio & Baert (ed.), The Politics of Knowledge.



Texto originalmente publicado em 01 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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