• antropoLÓGICAS

v7a20| Não estamos em Guerra! A retórica belicista no enfrentamento ao COVID-19

Por Gabriel Fernandes Caetano. Doutorando pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-RIO) e membro da Rede de Pesquisa em Paz, Conflitos e Estudos Críticos de Segurança (PCECS).


Fonte: Nathalie Lees – The Guardian1

Com o aumento exponencial dos casos de COVID-19 pelo mundo, vários líderes têm comparado a pandemia a uma guerra. Em pronunciamento à Nação francesa, Emmanuel Macron adotou um discurso extremamente belicista: “Estamos em guerra... o inimigo está lá - invisível, ilusório - e está avançando”2. Donald Trump, ao invocar o Defense Production Act declarou-se um “presidente em tempos de guerra”3. Para o presidente da China, Xi Jinping, o país estaria passando por uma “guerra popular”4 pelo controle e prevenção da epidemia. Nas palavras de Boris Johnson, “esse inimigo pode ser mortal, mas também é derrotável”5. Narendra Modi afirmou que médicos e enfermeiros indianos são “guerreiros Corona” que defendem a Nação6. Já o Primeiro-ministro Viktor Orbán declarou que a Hungria estaria travando uma “guerra em duas frentes”: contra a migração e agora contra o COVID-197. Por que, afinal, líderes mundiais estão adotando retórica de guerra diante da pandemia ocasionada pelo COVID-19?

O tom marcial invocado por tomadores de decisão é politicamente eficaz, mas socialmente perigoso. A utilização da linguagem militarista no enfrentamento ao COVID-19 é potencialmente persuasiva e possibilita distrair a opinião pública diante de uma resposta global descoordenada e ineficaz. Além disso, a analogia da guerra que atravessa os discursos mundo afora é perturbadora e transmite medo, ansiedade e incerteza sobre o futuro8. Diante dessa sensação de insegurança, é possível que as pessoas se tornem mais tolerantes às estratégias de exceção que subvertem a normalidade política, levando à suspensão das normas que regulam as relações sociais em tempos pacíficos.

Historicamente a palavra “guerra” é ativada como principal tropo de estratégias securitizantes. Exemplos não faltam: a bem-intencionada Guerra à Pobreza iniciada por Lyndon Johnson foi rapidamente subvertida, e nos governos Reagan e Clinton tornou-se uma guerra contra o bem-estar social9; a Guerra às drogas de Richard Nixon deu início a um conjunto de práticas sanitaristas, xenofóbicas e racistas10; a Guerra ao Terror, lançada por George W. Bush, redefiniu as linhas da política internacional a partir de um paradigma civilizacional em que bárbaros estariam ameaçando os valores e o modo de vida ocidental11. Agora, estamos novamente sendo informados por meio da linguagem militar. Na maior crise sanitária dos últimos 100 anos, estamos aprendendo mais sobre a pedagogia da guerra do que sobre os motivos que levaram ao fracasso da saúde pública global. Essa situação, além de inverter a realidade, nos coloca diante de novos desafios e novas dinâmicas de relacionamento.

A linguagem de guerra é divisível e nos obriga a escolher um lado. Essa escolha vai do local ao global, afeta nossa rotina diária e nossa percepção sobre a política internacional. No primeiro caso, podemos estar do lado daqueles que se voluntariam para oferecer comida aos idosos e pessoas em condições de vulnerabilidade, ou podemos nos juntar às hordas que invadem supermercados para estocar alimentos. Ambos os lados temem a fome e o racionamento, comuns em tempos de guerra. Geopoliticamente, podemos escolher qual discurso vamos ecoar. Na frente ocidental, os críticos acusam a China de montar um sofisticado esquema de controle social e supressão de direitos para mostrar como o modelo de governança centralizada do Partido Comunista Chinês é mais eficiente que os modelos democráticos menos organizados12. Na frente oriental, a China tem aumentado sua influência global, sobretudo após a suspensão do financiamento dos EUA à OMS. Enquanto Trump rompeu 70 anos de consenso bipartidário com relação à ONU, equipamentos e médicos chineses desembarcam na Itália, na França e em outros países do Oriente Médio13. A guerra divide e nos obriga a encontrar razões que nem sempre são coerentes para apoiar um lado ou outro.

Retórica e metáfora circulam e adquirem significados distintos em meio à atual crise sanitária. A retórica, como definiu James B. Herrick, “é o estudo sistemático e a prática intencional de expressões simbólicas eficazes"14. Por outro lado, a metáfora exerce uma função comparativa, frequentemente empregada para simplificar questões complexas ou abstratas15. Por exemplo, quando profissionais da saúde, como no caso do Amazonas, relatam que lidar com o COVID-19 é “como ir para a guerra sem nenhuma arma”, a metáfora tem como objetivo expor uma situação precária em que faltam equipamentos de proteção individual (EPI’s), Álcool 70, maca, respiradores, máscara e testes16.

Por outro lado, a retórica da guerra emerge como uma construção discursiva perigosa. Narrativas dramáticas, carregadas de apelo emocional, buscam construir uma realidade de guerra que autorize medidas de exceção para combater uma ameaça existencial. Na Hungria, o Covid-19 foi a excusa perfeita para que o ultradireitista Viktor Orbán pudesse obter poderes irrestritos para governar via decreto17. Agora, os históricos ataques de Orbán à imprensa húngara podem fazer com que o vírus circule mais rápido que a própria informação18. Para combater o “inimigo”, várias lideranças políticas estão adotando um populismo punitivo que reprime violentamente as camadas mais vulneráveis da sociedade. Em Nairóbi, capital do Quênia, um garoto de 13 anos foi baleado e morto enquanto a polícia fazia cumprir o toque de recolher19. Nas Filipinas, Rodrigo Duterte ordenou que seus soldados “atirem para matar” contra aquelas pessoas que violarem a quarentena20. A retórica da guerra contra um inimigo invisível está servindo aos interesses de figuras populistas e autoritárias que inflamam e dividem a opinião pública.

A linguagem de guerra exige a identificação de um inimigo, mas sendo o vírus abstrato demais, são as pessoas infectadas que se tornam ameaças à sociedade. Em clara manifestação racista, Trump e seus adeptos passaram a chamar o COVID-19 de “vírus chinês”. Para alguns comentaristas, essa é uma estratégia do partido republicano para melhorar suas chances na corrida pela Casa Branca em novembro21. Contudo, a retórica xenofóbica de Trump fez com que aumentassem os crimes de ódio contra asiáticos-americanos como alertou o FBI22. Na Índia, trabalhadores migrantes foram submetidos a uma pulverização forçada para que pudessem entrar em sua província natal23. Em Punjab, a polícia impõe castigos humilhantes a quem violar o isolamento social. Vídeos mostram pessoas forçadas a fazer agachamento enquanto cantam “Somos inimigos da sociedade”24. Na província de Quezon, nas Filipinas, um motorista de ambulância foi baleado após estacionar em uma área residencial. O morador responsável pelo disparo acusou o motorista de estar transportando pessoas infectadas pelo COVID-19, o que colocaria em risco a vida das pessoas da comunidade25.

Diante de tais arbitrariedades, devemos lembrar que isso não é uma guerra! O COVID-19 não é nosso inimigo. Estamos falando de um agente parasitário como muitos outros. Nós, humanos, não somos a única forma de vida a habitar o planeta. Essa é apenas a nossa ilusão antropocêntrica de que temos a capacidade de controlar a natureza. O pavor causado por essa pandemia não está somente no número de mortos, mas sim no fato de que o COVID-19 está revelando as profundas rachaduras do nosso sistema político, econômico e social. O mundo que habitávamos meses atrás não existe mais e agora nos resta renascer. Não é possível voltar ao normal, porque esse retorno seria a insistência naquilo que há décadas vem dando errado. Não há mais volta, daqui para a frente é tudo novo e incerto.

Notas:

1 https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/mar/18/boris-johnson-covid-19-response

2 https://www.theatlantic.com/international/archive/2020/03/france-paris-emmanuel-macron-coronavirus-covid19/608200/

3 https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-vice-president-pence-members-coronavirus-task-force-press-briefing-5/

4 https://www.voanews.com/science-health/coronavirus-outbreak/chinas-xi-declares-peoples-war-coronavirus

5 https://www.theguardian.com/world/2020/mar/17/enemy-deadly-boris-johnson-invokes-wartime-language-coronavirus

6 https://www.narendramodi.in/text-of-pm-s-address-to-the-nation-549264

7 https://www.france24.com/en/20200313-hungary-s-pm-orban-blames-foreign-students-migration-for-coronavirus-spread

8 https://www.indiaspend.com/use-of-war-metaphors-for-covid-divides-people-spreads-fear/

9 Kornbluh, Felicia; Mink, Gwendolyn. Ensuring Poverty: Welfare Reform in Feminist Perspective. University of Pennsylvania Press, 2018.

10 Lusane, Clarence; Desmond, Dennis. Pipe dream blues: Racism and the war on drugs. South End Press, 1991.

11 Dimaggio, Anthony R. Selling war, selling hope: Presidential rhetoric, the news media, and US foreign policy since 9/11. Suny Press, 2015. Veja também Abrahamian, Ervand. The US media, Huntington and September 11. Third world quarterly, v. 24, n. 3, p. 529-544, 2003.

12 https://foreignpolicy.com/2020/03/19/china-us-eu-coronavirus-great-power-competition/

13 https://www.independent.co.uk/voices/trump-china-coronavirus-election-biden-a9471106.html

14 Herrick, James A. The history and theory of rhetoric: An introduction. Routledge, 2017.

15 Flusberg, Stephen J.; Matlock, Teenie; Thibodeau, Paul H. War metaphors in public discourse. Metaphor and Symbol, v. 33, n. 1, p. 1-18, 2018.

16 https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52317263

17 https://www.dw.com/en/hungary-passes-law-allowing-viktor-orban-to-rule-by-decree/a-52956243

18 https://www.theguardian.com/world/2020/apr/03/hungarian-journalists-fear-coronavirus-law-may-be-used-to-jail-them

19 https://abcnews.go.com/International/wireStory/13-year-shot-dead-kenyan-police-enforcing-curfew-69895736

20 https://www.amnesty.org/en/latest/news/2020/04/philippines-president-duterte-shoot-to-kill-order-pandemic/

21 https://www.nytimes.com/2020/04/18/us/politics/trump-china-virus.html

22 https://abcnews.go.com/US/fbi-warns-potential-surge-hate-crimes-asian-americans/story?id=69831920

23 https://indianexpress.com/article/explained/coronavirus-india-lockdown-what-is-being-sprayed-on-migrants-is-it-safe-6339277/

24 https://www.ndtv.com/india-news/coronavirus-lockdown-india-squats-rolls-lathis-cops-enforce-social-distancing-amid-coronavirus-lockd-2200469

25 https://www.ispionline.it/en/pubblicazione/covid-19-and-discrimination-medical-personnel-philippines-25725


Texto originalmente publicado em 12 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.

39 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES