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v7a3| Itinerários do Medo: novos tempos de cólera

Por Luiz Antonio de Castro Santos é professor aposentado do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é professor visitante da Universidade Estadual do Maranhão.


Policiais com máscaras, em Seattle, no Estado de Washington, durante a Pandemia da Gripe Espanhola, em 1918-1919


Experiências passadas nos levam de volta à terrível Black Death, no século 14, uma pandemia de peste bubônica que afetou sobretudo a Europa, durou vários anos e exterminou 60 por cento de toda a população europeia. A transmissão foi causada por uma bactéria, Yersinia pestis, que infectava gravemente seres humanos e é transmitida por pulgas em roedores e mesmo em pessoas vivendo sob condições higiênicas muito precárias. Tal foi o que se deu, em plena Idade Média, tempo de inúmeras pestilências.

Não causada por bactérias, mas por vírus, a expansão mundial do SARS-CoV-2, ou COVID-19, tem um precedente na Gripe supostamente “Espanhola” de 1918 a 1920. A Espanha não havia imposto censura à imprensa, diferentemente de outros países, após a Primeira Guerra de 1914. Dos possíveis países de propagação do vírus, a Espanha ficou marcada como a região originária. Cerca de 500 milhões de pessoas foram infectadas, cerca de um quarto da população de todo o mundo. 50 milhões de mortes.

A forma com que a epidemia é tratada por alguns governantes, hoje, parece mirar o que se passou com a Espanhola. Em 1918, a Diretoria Geral de Saúde Pública, no Rio, Capital Federal, não tomou as medidas necessárias de suspensão do desembarque de passageiros de um navio que partiu da Inglaterra para o Brasil, com passageiros infectados pelo vírus da influenza. Tornava-se patente a “desterritorialização” da epidemia. O perigo de contaminação foi minimizado, como se viu na fala do atual presidente da República, que desconhece a experiência científica acumulada desde então. Quando se traz à tona o despreparo da Saúde Pública naquela época, esse cenário difere hoje da atuação mais segura e mais alicerçada de profissionais da saúde pelo mundo e também no Brasil.

Quando nos defrontamos com o temível COVID-19, há políticas de saúde e práticas defensivas necessárias, hoje, e que resultam de alguns séculos de experiências clínicas, de campo ou no interior da “laboratory life” discutida por Latour e Woolgar. Assim, a própria adoção do isolamento e da quarentena, em áreas afetadas, já se disseminara desde a pandemia da “Peste Negra”, na Idade Média. Na Idade Moderna, há hipóteses, por assim dizer robustas, sobre as origens e propagação de outras doenças devastadoras, como o flagelo da cólera, na década de 1830, e da Gripe “Espanhola”, quase cem anos depois. A Epidemia de Cólera seguiu as rotas de deslocamentos populacionais da Ásia à Europa e à América, entre 1832 e 1866, em três surtos. (Esse é o tema de meu artigo, “Um século de cólera: itinerário do medo”, Physis – Revista de Saúde Coletiva (4) 1 1994, p. 79-110). As medidas que se adotaram diante da Gripe Espanhola, em 1918, incluíam restrições ao ajuntamento e o uso de máscaras protetoras. A virulência do micro-organismo derrubou restrições e avançou por espaços geográficos e nações até então indenes.

O quadro trágico da relação entre sociedade, território & vírus foi reproduzido em obras da importância de Plagues and Peoples, publicada há mais de 40 anos pelo historiador canadense William McNeill. Recebemos um legado que, nos tempos atuais, permanece em boa parte desconhecido. Todas as grandes epidemias constituem rupturas epidemiológicas – rompimentos no equilíbrio biológico entre micro-organismos e hospedeiros humanos. Somos forçados hoje, no início do século 21, a acompanhar nova “ruptura”, responsável por novos episódios de um itinerário do medo.

Em nossos dias, “1918” é um episódio central para a historiografia do contágio durante as epidemias e pandemias da era moderna. Pouco se sabia, nos anos seguintes, além da geografia da propagação e de seus condicionantes imediatos. Questões que haviam afrontado os cientistas por conta da Grande Gripe de 1918 permaneciam sem respostas convincentes. Em 1951, Johan Hultin, um jovem microbiologista sueco, durante seu doutorado na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, envolveu-se no tema com profundo interesse. Havia a possibilidade, segundo os cientistas, de que o vírus estivesse conservado nos corpos de vítimas enterradas no solo ártico, permanentemente congelado. Hultin aventurou-se até uma aldeia no Alasca, onde a gripe havia praticamente dizimado os habitantes. (Jordan, Douglas; Tumpey, Terrence; Jester, Barbara. (s.d.). “The Deadliest Flu: The Complete Story of the Discovery and Reconstruction of the 1918 Pandemic Virus”. Washington: Center for Disease Control)1. Mas foi apenas bem mais tarde que a “aventura” epidemiológica do pesquisador sueco foi vivida pela segunda vez. Em 1997, com 72 anos de idade, Hultin retornou ao Alasca. Já então se sabia que o vírus era do tipo A (H1N1), de um subgrupo originado em humanos e suínos. Desta feita, a pequena equipe do hoje respeitado virologista recuperou o corpo de uma jovem Inuit, cujos pulmões estavam conservados pelo permafrost. Hultin os extirpou, conservou-os adequadamente e enviou o material a pesquisadores de instituições científicas, que confirmaram terem obtido, do tecido pulmonar, material genético positivo do vírus da Gripe de 1918. Esse “achado” de 1997 representou um momento histórico marcante para a recuperação do vírus. Além disso, fez brotar na comunidade científica internacional o interesse em resgatar, comemorar ou celebrar os esforços de pesquisadores em tempos passados.

Em 2018, cem anos depois da “Espanhola”, organizou-se um simpósio na Emory University, em Atlanta, nos Estados Unidos, sobre a pandemia. Os cientistas não poderiam antecipar que, em apenas dois anos, o mundo estaria frente a frente com o coronavírus. Contudo, o simpósio levou-os a admitir que o mundo deveria preparar-se para enfrentar nova pandemia. Não era mera elucubração: em 1918 a população mundial não chegara a 2 bilhões. Em 2018, 7 bilhões e meio. O número crescente de animais hospedeiros, assinalavam os pesquisadores, proporcionaria o surgimento de novos vírus. O movimento de mercadorias em “cargo planes” e o deslocamento internacional de pessoas permitem hoje que a ameaça de transmissão de doenças esteja a algumas horas de qualquer região ou país: “an international plane flight away”.

Se a História nos ensina algo sobre o enfrentamento de catástrofes ambientais e humanas, é tempo de enfrentarmos uma nova ameaça, como preconizou William McNeill. As mutações de organismos infecciosos, afirmava o grande historiador, permanecem entre nós e expõem a população mundial a experiências talvez previsíveis de mortalidade.


Nota:

O documento citado (Jordan, Tumpey e Jester (s.d.). “The Deadliest Flu: The Complete Story of the Discovery and Reconstruction of the 1918 Pandemic Virus”. Washington: Center for Disease Control), tem o caráter de uma nota técnica oficial e não traz, infelizmente, a data de publicação nem a necessária paginação.



Texto originalmente publicado em 02 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.


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