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v7a7| Da Gripe Espanhola ao Coronavírus: notas etnográficas de uma visitante em Sevilha, Andaluzia

Por Violeta Maria de Siqueira Holanda. Doutora em Ciências Sociais (UFRN) e docente da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia UFC/UNILAB. Realiza estágio pós-doutoral no Departamento de Antropologia da Universidad de Sevilla (Espanha, de Fev 2020 a Fev 2021).


No dia 19 de abril de 2020, o Diário de Sevilha publica a matéria intitulada “El precedente del coronavirus: todo lo que pudimos aprender de la gripe española”1, cuja autora, Encarna Maldonado, chama ali a atenção para as semelhanças de duas pandemias, ambas caracterizadas pelo alto grau de letalidade de um vírus, que aparece repentinamente e se espalha com grande velocidade por todo o mundo, sendo a pneumonia a sua expressão mais séria. Com início em 1918, estima-se que a gripe espanhola matou de 40 a 50 milhões de pessoas em todo o mundo, cerca de 250 mil na Espanha e 28 mil em Andaluzia. Nessa região, a gripe espanhola se manifestou em três ondas. A primeira foi antes do verão daquele ano, afetando sobretudo a população urbana; entretanto, com o calor, o vírus praticamente desapareceu, mas voltou em sua segunda onda, com extrema violência, a partir de setembro, durante o outono, afetando, então, mais a população da zona rural. A terceira onda veio no inverno seguinte, de forma menos letal e com impacto limitado (Diário de Sevilha, 2020).

Após um século, a Espanha se encontra novamente diante de um grande desafio. Até meados de maio de 2020, já figura como o terceiro país no mundo em número de casos de Covid-19, totalizando mais de duzentas e vinte mil pessoas infectadas, sendo mais de vinte e cinco mil o número de mortos. Em todo o planeta, já são mais de quatro milhões de casos de contágio pelo coronavírus (WHO COVID-19)2. Essa pandemia representa uma das crises de saúde mais mortais da história contemporânea, impactando trajetórias familiares e o cotidiano de milhões de pessoas em todos os continentes. Neste artigo, pretendo tecer breves notas etnográficas a partir de minha experiência diante da crise do coronavírus na cidade de Sevilha, região de Andaluzia, Espanha.

Cheguei à Espanha no início de fevereiro de 2020, para um estágio pós-doutoral na Universidade de Sevilha. A região de Andaluzia sempre me chamou a atenção por sua proximidade com a África e devido à sua herança histórica intercultural. Tal proximidade territorial, em especial com o deserto africano do Sahara, talvez explique uma de suas características mais marcantes: a variação climática. Ora frio, ora chuva, ora calor ou, simplesmente, para mim, tudo junto e muito perturbador. No entanto, este inverno também já não era o mesmo, a mudança climática no planeta trouxe consequências nunca vistas pelos moradores daqui: temperaturas bem mais elevadas no inverno europeu. Em Sevilha, a variação climática foi de 7º a 27º. Muitos turistas transitaram pela cidade neste período, sobretudo, outros europeus, de países cujo inverno se mostra mais rigoroso.

Sevilha é a capital de Andaluzia e possui, aproximadamente, 700 mil habitantes. De início, percebo um cenário singular. Uma parte da Espanha mais latina, com periferia e sociabilidades distintas. Tomo consciência, aos poucos, dos problemas sociais: população em situação de rua, usuários de drogas em situação precária de existência, idosos de situação social distinta - ora solitários em residências individuais, ora residentes em domicílios coletivos -, mulheres agredidas e assassinadas por seus maridos em números alarmantes, imigrantes na clandestinidade, em busca de empregos formais ou informais. Essa configuração vai refletir de modo decisivo nas incidências epidemiológicas em populações vulneráveis, notadamente em tempos de coronavírus. No entanto, mais especificamente, duas situações chamam a atenção neste período: o número de mortes entre idosos e o aumento da violência doméstica contra as mulheres.


Sevilla, patio de una casa de vecinos. Hacia 1920.

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/386887424214297327/



De fato, um dos públicos mais afetados pela pandemia na Espanha é o dos idosos. São mais de 119 mil casos confirmados de contágio por coronavírus entre pessoas acima de 60 anos e, aproximadamente, 17 mil falecidos até meados de maio. Entre todos os falecidos, 80% são maiores de 70 anos, tanto homens como mulheres3. As “residencias de mayores” foram os espaços com maior incidência, onde vários corpos foram encontrados abandonados. Uma das primeiras proibições do governo foi a visitação a familiares, que, em meio às queixas sobre o isolamento dos idosos, denunciaram/denunciam a falta de protocolos de saúde adequados nos espaços destinados ao cuidado com os mais velhos. Em toda a Espanha são contabilizadas mais de 6 mil “residencias de mayores”, sendo 75% delas privadas. Há déficit quanto ao número de vagas em residências públicas e também quanto à quantidade de cuidadores por idoso. Sem o direito ao ritual fúnebre, os cadáveres de muitos desses idosos, infectados em asilos, foram alojados por militares em pistas de gelo, utilizadas como necrotério improvisado.

O agravamento da violência doméstica contra as mulheres, em circunstância do confinamento, foi outra grave problemática verificada em meio à pandemia. Diante das severas restrições de circulação de pessoas, sendo permitidas saídas apenas para comprar mantimentos, ir à farmácia e, em alguns casos, para o desempenho de serviços essenciais, o número de consultas ao site de atendimento a mulheres em situação de violência na Espanha disparou 270%, e os casos de denúncias tiveram um incremento de 12,4%, em comparação ao mesmo período do ano passado4. O governo espanhol lançou um plano de contingência para atender as vítimas, disponibilizando 400 agentes integrados de atendimento, além de ofertar estadia em hotéis para mulheres e crianças em situação de violência doméstica, nos casos de indisponibilidade dos abrigos de emergência. Outra campanha inovadora foi a denominada “Mascarilla-19”, por meio da qual mulheres puderam solicitar ajuda na farmácia mais próxima, verbalizando o código citado, autorizando o pessoal farmacêutico a acionar os serviços disponíveis de emergência.

Após semanas seguidas de números recordes de mortes e pessoas infectadas por coronavírus, nestes últimos dias de maio, a escala começa a baixar, apontando perspectivas mais otimistas na Espanha. Pela primeira vez, o número de pessoas curadas mostra-se maior do que de infectadas, e o número de óbitos foi o menor ao longo de todos os meses5. Aos poucos, o governo começa a planejar o processo gradual de desconfinamento. A primeira medida foi a de atenção à infância, permitindo que crianças de até 14 anos pudessem sair acompanhadas de seus pais, durante 1 hora por dia. As crianças então tomaram as ruas, com enorme alívio e alegria.

O calor do verão agora se aproxima timidamente em terras andaluzas. As memórias de um inverno inconstante e de uma primavera angustiante parecem, aos poucos, remontar ao passado, ou a dois passados passados: um que parecia remoto e a outro nada distante: da gripe espanhola à Covid-19. Situações, memórias e experiências emergem nos cenários distintos. Agora, me inspiro no alívio e na alegria das crianças fruindo de sua liberdade - “liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”6.

Notas:

1 https://www.diariodesevilla.es/andalucia/Precedente-coronavirus-aprender-gripe-espanola_0_1456354864.html

2 WHO COVID-19 Dashboard

3 https://www.mscbs.gob.es/profesionales/saludPublica/ccayes/alertasActual/nCov-China/documentos/Actualizacion_101_COVID-19.pdf

4 https://noticias.r7.com/internacional/violencia-de-genero-dispara-na-espanha-durante-quarentena-01042020

5 https://www.dn.pt/mundo/estamos-a-dobrar-a-curva-espanha-regista-288-mortos-por-covid-em-24-horas-12118571.html

6 Trecho retirado do documentário “Ilha das Flores”, Direção Jorge Furtado. ver em: https://www.youtube.com/watch?v=KAzhAXjUG28



Texto originalmente publicado em 29 de maio de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.


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