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v7a9| “Drama Social” e “Liminaridade” em tempos de Covid-19

Por Hélder Pires Amâncio. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro do Núcleo de Estudos de Populações Indígenas (NEPI). Agradeço à Vera Gasparetto e Emídio Gune pelas sugestões e revisões.


Foto: obra de Frida Baranek. Disponível aqui


A Covid-19 expõe de forma dramática situações sociais que estavam mais ou menos latentes no cotidiano da interacção social em diversos cantos do planeta. Revela o encadeamento de ações que ocorreriam imperceptivelmente no fluxo do dia-a-dia (CAVALCANTI, 2007): as vidas precárias, a vida nua, as políticas da morte.

Vivemos, no atual contexto pandêmico, um “drama social” e um momento “liminar”. O “drama social” entendido como: “uma sucessão encadeada de eventos (...) que conformam a estrutura de um campo social” (TURNER, 1968, p. xxi), mais precisamente, enquanto “uma complexa interação entre padrões normativos estabelecidos (...) e as aspirações imediatas, ambições (...), objetivos e lutas conscientes de grupos ou indivíduos no aqui e no agora” (TURNER, 1968, p. xxii). As disputas em torno dos modelos de intervenção frente à pandemia e da suspensão ou não das atividades econômicas evidenciam a complexidade da vida social e os interesses envolvidos.

Trata-se, pois, de um momento de vida “liminar”, de um “Não a todas as asserções estruturais» que, simultaneamente, constitui «a fonte de todas elas, (...) donde surgem novas configurações de ideias e novas relações” (TURNER, 1967, p. 97). As anteriores asserções estruturais (econômicas, políticas, sociais e jurídicas) foram suspensas, evidenciadas pelas declarações de Estados de emergência em quase todo o mundo.

O conceito de «drama social» permite-nos pensar o funcionamento da estrutura social “como um encadeamento dinâmico de conflito” (PINA-CABRAL, 2000, p. 870). Do ponto de vista sociológico, a noção “percebe e integra o conflito como um mecanismo produtor da dinâmica e da unidade da vida social” (CAVALCANTI, 2013, p. 415). Este quadro conceitual de leitura parece fazer todo o sentido para o momento atual em que vivemos, de «margem», de posição transitória, onde nos encontramos destituídos das anteriores posições, ocupando um lugar indefinido na estrutura social, de impossível categorização plena.

Como drama social, o contexto pandêmico pode ser lido com base no modelo das quatro fases inter-relacionadas entre si: i) crise ii) ampliação da crise iii) regeneração e iv) rearranjo ou cisão (CAVALCANTI, 2013). A crise consistiu numa mudança brusca no curso da nossa vida, no reconhecimento da sua existência (a declaração da Covid-19 como pandemia pela OMS e a tomada de medidas de intervenção pelos diferentes países é um exemplo). A Covid-19 irrompeu no nosso cotidiano e expôs à superfície, de forma exacerbada, as tensões latentes em vários contextos sociais: as desigualdades econômicas, de classe e gênero, raciais, geracionais entre outras.

A crise se instalou, a ampliação da crise também. Nesta fase, os sujeitos atingidos pela crise acionam suas diversas redes (parentela, vizinhança, parentesco, instituições) e a crise gradualmente alcança novas esferas e sujeitos/atores sociais. Foi isso que vimos e continuamos a ver nos vários países.

Teoricamente, estamos agora na fase da regeneração, envolvidos e mobilizados na busca de soluções e esforços de conciliação que implicam a realização de ações e rituais coletivos (quarentenas, isolamento ou distanciamento “social”), força tarefa envolvendo investigadores multidisciplinares, médicos, governos, empresários, pessoas comuns e suas redes, na busca de soluções para a crise instalada pela Covid-19. Se realizadas com “sucesso”, nossas ações ou esforços implicarão num rearranjo ou reposição de relações, caso contrário, levarão a um rompimento de grupos sociais, cisões observando os mesmos princípios estruturais.

A pandemia tornou-se um “fenômeno social total”, para usar o conceito do antropólogo francês Marcel Mauss, que se refere a uma atividade que tem implicações em todas as esferas da sociedade (jurídica, política, econômica, religiosa, psicológica, educacional e outras) (MAUSS, 2003, p. 187). A Covid-19 é, hoje, o assunto central, o tema dominante de nossas vidas, em todos os meios de comunicação e publicações. Conferências, palestras, rodas de conversa, cursos virtuais nas suas mais variadas modalidades são realizados à volta da pandemia, buscando alternativas conjuntas para a saída da crise.

Apesar da aparente distribuição democrática da Covid-19, dados disponíveis permitem observar a sua variabilidade contextual. Isso obriga-nos a considerar, na análise dos efeitos da pandemia, as distintas condições de vida e marcadores sociais como classe social, gênero, raça, geração entre outros, no seu enfrentamento.

A casa cumpre hoje o local para diferentes funções: aulas, trabalho, exercícios físicos, lazer. Higienizar as mãos constantemente com água e sabão, álcool gel ou cinza; usar máscaras ao sair de casa em caso estritamente necessário e outras medidas associadas de prevenção à Covid-19 tornaram-se práticas cotidianas.

Essa nova rotina é por tempo indeterminado, até que a situação retorne à “normalidade” dizem-nos os epidemiologistas. A incerteza e o medo tornaram-se regra no nosso cotidiano. Ninguém sabe o que virá como nova estrutura pós-pandemia. As perguntas que se colocam e cujas respostas estamos ansiosos em aceder são: Haverá novas configurações? Se sim, quais serão? Uma ruptura total ou transformações continuadas?


Referências:

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Drama social: notas sobre um tema de Victor Turner. Cadernos de campo, São Paulo, n. 16, p. 1-304, 2007 CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Drama, Ritual e performance em Victor Turner. Sociologia & Antropologia, Rio de Janeiro, v.03.06: 411–440, novembro, 2013 MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify,183-294, 2003 PINA-CABRAL, João. A difusão do limiar: margens, hegemonias e contradições. Análise Social, vol. XXXIV (153), 865-892, 2000

TURNER, Victor. Betwixt and between: the liminal period in Rites of Passage. TURNER, Victor. The Forest of Symbols: Aspects of Ndembu Ritual. Ithaca: Cornell University Press. 93-111, 1967 [1964]



Texto originalmente publicado em 04 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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