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v8a11| Pandemia, necropolítica e purificação simbólica dos cuidadores da morte

Por Welliton Caixeta Maciel. Doutorando em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB). Pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança da Universidade de Brasília (NEViS/UnB), do Grupo Candango de Criminologia (GCCrim/FD/UnB) e do Laboratório de Estudos da Cidadania, Administração de Conflitos e Justiça (CAJU/DAN/UnB). E-mail: wellitonmaciel@gmail.com


Adão Souza | PBH | Fotos Públicas, disponível também em: https://tododia.com.br/brasilemundo/pandemia-altera-rotina-de-cemiterios-no-pais/



Nas últimas semanas, as vítimas fatais da pandemia têm saído dos números (sub)notificados/subestimados e dos gráficos em curva crescente noticiados pelas pesquisas e pela imprensa, e se tornado mais próximas de nós. Estão ganhando corpos com identidades, epitáfios sob o formato de imagens e narrativas apresentados na televisão e nos jornais, redes de afetos (não que já não as tivessem antes do óbito, obviamente). Mas, também, acondicionamento em sacos (quando não em câmaras frigoríficas ou deixados em casa à espera de lugar em cemitérios ou crematórios), urnas lacradas, sepultamentos atípicos e desumanos (em túmulos, valas, covas, buracos abertos e tapados por retroescavadeiras), sem direito a velório, deixando histórias de sofrimento e luto, sentimentos de dor e saudades em quem fica.

A Covid-19 é tão visceralmente devastadora que atinge não apenas o pleno exercício da cidadania e dos direitos públicos (individuais e coletivos), dentre eles o direito universal à respiração, tão ricamente problematizado por Achille Mbembe1, como também crenças e rituais de passagem entre vida e morte, tão bem descritos por Philippe Ariès2, operando ainda enquanto dispositivo de segurança, controle3 e necropolítica4, desmascarando efeitos nefastos do culto exacerbado aos valores do neoliberalismo, em uma sociedade que está desaprendendo a velar e chorar, sofrer e enterrar dignamente seus mortos.

Nesse contexto, maior visibilidade tem sido dada ao métier funerário e seus diferentes papéis sociais, o que não é acompanhado de proporcional e justa retribuição financeira, reconhecimento público e/ou prestígio social, evidentemente. Ao contrário de antes, ser “cuidador da morte” dentro e fora dos cemitérios5, sobretudo dedicar-se ao ofício de coveiro neste contexto, deixa de ser social e simbolicamente (não fisicamente)6 uma atividade naturalizada como “impura”, “estigmatizada” e/ou um “trabalho sujo”, remetendo à conotação de proteção direta da sociedade por meio da purificação pelo descarte dos cadáveres, pela cremação ou sepultamento, eliminando, em última instância, toda e qualquer possibilidade de contaminação pelo vírus letal e sua disseminação. Não à toa, as imagens de cemitérios e seus funcionários em trajes de Equipamentos de Proteção Individual – geralmente, análogos aos dos profissionais da saúde, higiene e limpeza (tais como: máscara, capote, luvas, proteção ocular, botas) – têm sido amplamente divulgadas pelos veículos de mídia e imprensa, não apenas alimentando pânicos sociais e morais, mas também depurando a consciência coletiva do perigo do coronavírus.

Em um ambiente realmente democrático, com lideranças políticas civilmente empáticas e responsáveis com o bem-estar de seus concidadãos, ironicamente e sem eufemismo, qualquer metáfora e/ou metonímia com o trabalho funerário e seus funcionários deveria ser capaz de produzir efeito simbólico no imaginário coletivo e/ou nas representações sociais7 neste momento, amenizando medos, ansiedades e angústias, ainda que usadas em memes robotizados propalados em redes sociais.

Tão eficaz quanto o significado de limpeza e esterilização do capote e/ou do jaleco branco dos provedores da vida, os profissionais de saúde, aos quais sempre se vinculou algum status de importância e reconhecimento social. A esses, agora juntamente aos coveiros e aos demais profissionais considerados essenciais no contexto de pandemia, atribuiu-se e/ou intensificou-se a conotação de heroísmo ao desenvolvimento ordinário de suas atribuições, mesmo que apenas aos profissionais de saúde sejam dedicados algum tempo, palmas e homenagem nas janelas.

Em contrassenso, percebemos também a ausência de altruísmo, a falta de sensibilização, a indiferença de parte da população brasileira com relação à gravidade da situação. Enquanto alguns tentam manter o isolamento social recomendado pelas autoridades internacionais e nacionais de saúde e vigilância sanitária, outros se aglomeram nas ruas e em protestos convocados sem qualquer escrúpulo por políticos que, se valendo desse momento de crise, colocam em prática, à surdina ou explicitamente, seus planos espúrios.

Os vivos parecem mais mórbidos que muitos doentes e moribundos que agonizam solitários nos hospitais ou em suas casas8. Vivos, porém fétidos, para eles tanto faz cadáveres contaminados, impuros e perigosos serem descartados em covas e valas coletivas. Rendidos pela perversidade da lógica liberal-econômica, esses indivíduos reproduzem a mesquinhez, a ganância e a obstinação pelo fetiche da mercadoria e da servidão ao trabalho como fonte de acumulação de capital e lucro, consequências do neocapitalismo9 cujos ovos são chocados não apenas nas mentes burguesas e neoliberais.

Não são de se estranhar, portanto, cenas protagonizadas recentemente por antagonistas verde-amarelos, acríticos e/ou perversamente mal intencionados que, em nome de uma (suposta) “nova política” e da manutenção de seus privilégios, digladiaram publicamente com os “heróis”, enfermeiros e demais profissionais da saúde, ou congestionaram com carreatas as vias de acesso aos hospitais, impedindo o trânsito de veículos e ambulâncias e o salvamento de vidas em prontos-socorros.

Por mais que esses indivíduos, insuflados pelo atual inquilino do Palácio do Planalto e ocupante do cargo de Presidente da República, persistam em levar a necropolítica adiante, não podemos compactuar com essa hierarquização social entre vidas desejáveis e vidas indesejáveis, nesta explícita racionalização burocrática diante da escassez de meios e recursos10, ditando quem vive e quem deve morrer, diante da inércia criminosa de outras autoridades.

Torna-se cada dia mais evidente a influência de uma moralidade pseudo cristã, compartilhada não apenas pelos/as representantes do bolsonarismo enquanto “milícia religiosa”, e da ética sanitária na subsunção da inumação urgente, porém procedendo a uma verdadeira exumação ôntica (o ente e sua existência concreta) e ontológica (o sujeito em si e toda sua complexidade) dos corpos abjetos da pandemia, no sentido mesmo de retirada dos despojos de todo e qualquer sentido de humanidade que um dia lhes tenha sido atribuído desde o Renascimento, com o antropocentrismo/humanismo.

Nesse contexto de pandemia, diante de tantas perdas irreparáveis e do descarte frio e calculista dos defuntos contaminados, não existe lado bom, assim como não existem vencedores, senão a ilusória soberania dos vivos que um dia serão os próximos mortos, capitalizando prestígio social ao ofício dos provedores da vida mas também dos cuidadores da morte.

Identificar e atuar politicamente sobre os mecanismos de (re)produção da ignorância e da indiferença com relação à doença e seus efeitos avassaladores é uma maneira de romper com o persistente estado de letargia moral e política, bem como de agir contra a apropriação deturpada da tecnologia, da arte e da estética enquanto recursos pedagógicos utilizados por uma legião de estúpidos que bradam a favor da ditadura e banalizam a morte.

Para isto, a ação social e política deve caminhar em múltiplas direções: por meio da retomada da arena pública (física e virtual) pela sociedade civil organizada e pelos movimentos sociais, pelo empoderamento e protagonismo das mulheres e da juventude, pela preservação da pluralidade e transversalidade de valores (tais como: educação, família, religiosidade, trabalho, sexualidade, origens étnicas, cidadania etc.) em defesa da dignidade da pessoa humana, seja em vida ou diante/depois da morte.


Notas:

1 MBEMBE, Achille. Le droit universel à la respiration. Abril de 2020. Disponível em: https://aoc.media/opinion/2020/04/05/le-droit-universel-a-la-respiration/ .

2 ARIÈS, Philippe. História da morte no ocidente. Tradução de Priscila Viana de Siqueira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

3 FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: Curso no Collège de France (1975-1976). Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

4 MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

5 BATISTA, Analía Soria e CODO, Wanderley. Trabalho sujo e estigma. Cuidadores da morte nos cemitérios. Revista de Estudios Sociales [online], nº 63, Janeiro 2018. Disponível em: http://journals.openedition.org/revestudsoc/1270 .

6 CARDOSO DE OLIVEIRA, Luís Roberto. Desvendando evidências simbólicas: compreensão e conteúdo emancipatório da antropologia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2018.

7 PORTO, Maria Stela Grossi. Sociologia da Violência: Do conceito às representações sociais. Brasília: Verbena Editora, 2010.

8 NORBERT, Elias. “A solidão dos moribundos”, seguido de “Envelhecer e morrer: alguns problemas sociológicos”. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

9 DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Tradução de Anamaria Skinner. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

10 WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5ª Edição. Organização e Introdução: H.H. Gerth e C. Wright Mills. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1982.




Texto originalmente publicado em 19 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.




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