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v8a12| Reflexão antropológica sobre viver e conviver em família no isolamento social

Por

Denise Machado Cardoso. Antropóloga e professora na Universidade Federal do Pará.

Felipe Bandeira Netto. Antropólogo visual e mestrando na Universidade Federal do Pará.


Imagem 01 – Registro de família. Autor: Felipe Bandeira Netto. Arquivo pessoal.



Exercitando o olhar

As Ciências Sociais, de modo geral, “não nos permitem” descanso, pois estamos exercitando incessantemente um olhar crítico e analítico sobre a sociedade. E em isolamento social adotado devido à pandemia global do Sars-Cov-2 (coronavírus) ou em outros momentos, onde passamos a conviver todas as horas do dia ao lado das mesmas pessoas, observamos sem cessar, de maneira crítica e analítica, nosso viver e/ou conviver com nossos respectivos grupos domésticos.

Como antropólogos e produtos de uma história, costumamos exercitar nosso olhar a partir de estudos comparativos sobre as mais diversas coisas, fatos e situações que acontecem no mundo1, e com a vida em isolamento social não é diferente. Passamos a encarar todo esse processo como um campo vasto de pesquisa para alguns e reflexões para outros.

As diferenças nos detalhes passam a ser percebidas de modo mais acentuado com a convivência diária. E como diríamos, conforme o dito popular, “para se conhecer uma pessoa é preciso morar com ela”. Essa máxima é aplicada na pesquisa antropológica, pois somente com o convívio rotineiro permitimos que as chamadas máscaras sociais, e não apenas aquelas cirúrgicas, sejam trocadas diante de um público restrito, como é o caso do grupo familiar.

Os dias

Observar espontaneamente a vida das pessoas com quem vivemos é diferente e uma armadilha para olhos e ouvidos desatentos. Daí a importância de procedimentos éticos e metodológicos da pesquisa antropológica2. Se estes não forem utilizados com responsabilidades, podemos facilmente nos deixar enganar pelo “eu o conheço, eu sei o que eles fazem ou vão fazer”, e este terreno fértil pode se tornar um campo minado de premissas falsas e equivocadas. Constata-se que compreender que estas pessoas têm valores culturais individuais, mesmo que sejam semelhantes socialmente, é uma tarefa primordial.

Como antropólogos, aprendemos que devemos observar, ouvir e relatar3, e sob suas diferenças construímos nossos dados, e em suas semelhanças compreendemos o que buscamos4. Em isolamento social, a rotina do dia a dia tende a se repetir na maioria dos lares, foi o que observamos em nossas próprias casas e nos relatos das pessoas com quem conversamos, desde as pessoas que moram em bairros elitizados às que moram nos bairros periféricos, respeitando suas diferenças, valores, crenças, hábitos, referências, rituais, classe social, cor e outros.

Voltando os olhos para a saturação e os detalhes presentes na convivência que este momento muito particular vem causando, e que é intensificado por notícias que envolvem o aumento do número de casos de contaminação em escala global pelo Sars-Cov-2 e problemas como a ansiedade, ocasionados pelo isolamento, chegamos a estas reflexões sobre as diferenças que existem entre viver e conviver com as pessoas da nossa família a partir de um olhar antropológico.

Viver e/ou conviver

No atual estado de isolamento temos a sensação de que os dias são mais lentos e longos. Estamos habituados a uma correria diária, a manter relações próximas com diversas pessoas e, de repente, tudo isso cessa quase que instantaneamente, causando-nos a sensação de desestabilidade. O pretenso controle sobre nossas vidas desaparece e o que sempre acreditamos controlar se esvai, causando sensações de desconforto diante dessa frustração. Além disso, o tempo evidencia-se como algo culturalmente construído, na medida em que sua percepção varia conforme as circunstâncias e os modos de apropriação que dele fazemos. Há tempos e não somente um tempo uno e absoluto. Eis que chega o momento de refletir sobre as rotinas que até então eram planejadas conforme o tempo cronológico, deixando à parte o tempo ecológico ou outras variações.

O passar dos dias, as notícias e o avanço global da pandemia do coronavírus mostram que estar em casa com a família ou pessoas próximas pode ser um exercício de campo vasto e complexo, pois as relações se saturam ou são transmutadas para algo mais agradável e fraterno. Como Cientistas Sociais (Antropólogos), aprendemos a conviver com as diferenças fora de casa e, na maioria das vezes, desaprendemos a conviver com nossas próprias diferenças.

Ao nos depararmos com a saturação das relações em família, começamos a pensar etnograficamente e construir uma etnografia nossa, passamos a estar dentro e fora do campo5. Assim, os atritos das relações familiares mostram que viver é diferente de conviver com alguém, compartilhar pensamentos, posturas, agires, crenças e outros. Pessoas são constituídas e formadas por diferenças, e isto interfere no modo como se relacionam e lidam com os dias no confinamento. O maior problema se encontra nas diferenças quase imperceptíveis, pois as semelhanças são mais evidentes6.

Esse exercício de conviver e aceitar o outro para melhor conhecê-lo se apresenta em dias de pandemia, pois pela prática que adotamos de maneira quase incessante, o que estes dias em família tem mostrado é que conviver não é somente aceitar o outro, mas é, também, abandonar nosso individualismo, sem deixar de lado nossa individualidade. A saturação da convivência tem sido um proveitoso e interessante exercício de campo.

Pensar sobre família e parentesco, práticas de sociabilidade presencial e via Internet, hábitos da comensalidade, papéis sociais de gênero nas tarefas domésticas e no cuidado com o outro são alguns temas que emergem sem que se tenha tido intenção de desenvolvimento de pesquisa científica. E o que temos nas casas na qual estamos em isolamento é uma possível amostra de que nosso conhecimento requer um olhar acurado, um ouvir atencioso e interessado, uma observação participante, uma "troca de lugar”. O convívio por longos dias em um ambiente que não nos permite fuga evidencia a diversidade do humano e o universo que somos cada um de nós. Conviver com os semelhantes, com as pessoas próximas, nos ensina bem mais que livros, filmes, faculdade e outros. A experiência de conviver tão de perto com quem julgamos conhecer é algo único e singular.

O “normal” de ontem não mais será o “normal” de amanhã. As vidas, compreensões, entendimentos e relações sobre a sociedade e nós mesmos, família, amigos e tudo o que nos cerca está mudando. O viver e conviver estão para além do nosso grupo doméstico, estamos em transmutação social e (re)aprendendo a viver e conviver, pois a jornada de percepções não se encerra da porta de casa para a rua. A antropologia nos possibilita pensar a forma de estar, viver, ver e se conectar com o mundo. Ouvir e observar atento às vidas, ao viver e conviver com a família e/ou pessoas próximas a partir do pensar antropológico nos ajuda a compreender as singularidades e ter empatia diante das diversidades múltiplas e singulares que formam cada pessoa. Desta forma, a antropologia se mostra disposta a ser uma aliada valiosa para nossas reflexões sobre nós e o mundo em dias tão difíceis.



Notas:

1 FIORI, Ana, L. SERTÃ, Ana, L. FERRARI, Florência. DULLEY, Iracema. DIAS, Jamille, P. FERRITE, Kiko. VALENTINI, Luísa. SZTUTMAN, Renato. NASCIMENTO, Silvana. MARRAS, Stelio. Sobre modos de se pensar e fazer antropologia: entrevista com Marilyn Strathern », Ponto Urbe [Online], 17 | 2015, posto online no dia 15 dezembro 2015, Disponível em <https://journals.openedition.org/pontourbe/2969>. Acesso em 02 maio 2020.

2 MUGHAL, Muhammad A. Z. Being and becoming native: a methodological enquiry into doing anthropology at home. ANTHROPOLOGICAL NOTEBOOKS 21 (1): 121–132. Disponível em<https://www.researchgate.net/publication/279977933_Being_and_Becoming_Native_A_Methodological_Enquiry_into_Doing_Anthropology_at_Home>. Acesso em 27 abril 2020.

3 CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O Trabalho do Antropólogo: Olhar, Ouvir, Escrever. 1996. Disponível em <http://www2.fct.unesp.br/docentes/geo/necio_turra/MINI%20CURSO%20RAFAEL%20ESTRADA/TrabalhodoAntropologo.pdf>. Acesso em 03 maio 2020.

4 CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O Trabalho do Antropólogo. Brasília/ São Paulo: Paralelo Quinze/Editora da Unesp. 1998. 220 pp.

5 Op. Cit. MUGHAL, Muhammad A. Z.

6 Op. Cit. CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto (1996).



Texto originalmente publicado em 22 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.

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