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v8a14| Quando a Covid-19 chega aos CAPSad: usuários de drogas, saúde mental e SUS no Rio de Janeiro

Por Beatriz Brandão. Pós-doutoranda em Sociologia pela USP, doutora em Ciências Sociais pela PUC-RIO, mestre em Ciências Sociais pela UERJ e pesquisadora do IPEA na pesquisa nacional sobre metodologias de cuidado a usuários problemáticos de drogas.


Após sete meses de trabalho de campo em quatro Centros de Atenção Psicossocial para usuários de álcool e drogas (CAPSad) do Rio de Janeiro, comecei a escrever o relatório. A pesquisa revelava a importância da presença dos serviços do SUS nos territórios cariocas, como também as dificuldades de acessos dos usuários, da continuidade do tratamento e das rotinas profissionais. Embora muitos espaços contassem com a presença de uma rede de atenção e cuidado psicossocial, muitas lacunas eram vistas, principalmente no sentido da expansão de equipamentos e dispositivos para a atuação. Durante o tempo que me distanciava da última ida ao campo e a redação do relatório de pesquisa, chegou ao Brasil uma pandemia devido ao contágio pela Covid-19.

A chegada do coronavírus agravou todos esses problemas do SUS, ou melhor, deixou ainda mais exposta uma crise endêmica. Houve uma notória exposição da exclusão dos usuários de drogas, mais uma vez, do sistema de saúde pública, moradia, saneamento. A pandemia acarretou muitas mudanças, pois todo o cenário que descrevia sobre funcionamentos e rotinas já era, irremediavelmente, outro. Durante a pesquisa, presenciei cotidianos esgarçados pela crise da saúde em 2019, que os atores do campo nomearam como a pior crise na saúde nos últimos 10 anos1. Porém, o momento presente (com a pandemia) era diferente de todos os conflitos que estavam habituados a vivenciar.

Em 17/03/2020 o Rio de Janeiro entrava, oficialmente, em estado de emergência por meio do decreto do governo do estado2. Os sistemas de saúde do mundo inteiro se tornaram os principais alvos e soluções para conter a epidemia alastrante. No Brasil, o SUS serve como braço principal de estratégia e ação; entretanto, encontra um sistema já em crise3. Contudo, as conhecidas crises políticas num cenário visível por sua precariedade não conheciam ainda uma crise sanitária como a da Covid-19.



Ação de ‘Educação em Saúde” com a população em situação de rua.

Foto: Rodrigo Pereira.



Não havia como continuar meu fluxo de escrita da mesma forma com as notícias diárias que recebia por mensagens de celular sobre o novo cotidiano de trabalho nos CAPSad. A falta de informações precisas levava pacientes a dizer que a indicação de saúde era a de tomar banho com álcool e trocar o shampoo por álcool em gel. Em um dia pacientes usaram todos os litros reservados para a semana devido ao desespero de se verem tão vulneráveis frente à doença. Diariamente me chegavam notícias de contágio e algumas mortes de usuários das cenas de uso de crack e de profissionais, o que aumentava a demanda dos que estavam em situação de rua ao disputarem acolhimento nos CAPSad.

Entre os serviços e dispositivos do SUS, a população atendida pelos CAPSad é uma das mais vulneráveis diante de uma pandemia que pede isolamento, distanciamento social, água, sabão e álcool em gel como principais formas de evitar o contágio. Para onde se encaminha um usuário do serviço, em situação de rua e que sofra contágio por Covid-19 e não seja indicado à internação, mas ao isolamento? No caso, se os sintomas estiverem agravados, poderá recorrer ao hospital. Mas, e em situações preventivas, como se dá o chamado isolamento? Para essa população não está sendo oferecida a possibilidade de se prevenir; assim, não são reconhecidos num dos pilares do SUS, o da prevenção como modelo de cuidado. Em entrevista, o diretor de um CAPSad na zona norte do Rio de Janeiro afirma que:

Essa epidemia mostra o fato de que não é ofertado o SUS, enquanto prevenção, para esses usuários. Isso, obviamente, não está numa suposta deficiência do SUS. Mas porque a essas populações não são ofertadas políticas sociais, como moradia. É aí, numa situação como essa de pandemia, o SUS - com seu nível de assistência, como a prevenção - não consegue ser para todos. Porque há aqueles que não chegam a ter condições mínimas de cidadania para acessar a prevenção. É por isso que precisa urgentemente estabelecer uma política intersetorial com essa população, que envolva habitação, geração de renda, etc. Porque será sempre assim, se não mudarmos a forma de fazer política.

Mesmo diante da tensão do momento, pouca coisa foi produzida e divulgada sobre a situação da saúde mental e o cuidado com usuários de drogas no Rio de Janeiro. Ou mesmo de que modo, quais as apostas políticas, como os CAPSad estavam manejando o tratamento e a atenção com os usuários de substâncias psicoativas e pessoas em situação de rua. A divulgação não veio, também, devido à necessidade de se domesticar o caos instaurado em toda uma rede que inflava desde a atenção básica em saúde, até a atenção psicossocial estratégica. A escrita do relatório de pesquisa foi marcada pelas minhas conversas com gestores dos CAPSad, que me traziam uma preocupação nova com o número cada vez menor de profissionais nas unidades e o aumento dos infectados; inclusive eles se punham em dúvida com suas respectivas saúde todos os dias.

No entanto, a crise trouxe, também, perspectivas para se pôr em prática uma das diretrizes da Política de Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas4: a autonomia do usuário. Durante um mês, os profissionais trabalharam educação em saúde no interior dos CAPSad, onde sequer alguns pacientes sabiam o que era álcool em gel e sua função. Após esse tempo, os usuários chamaram os funcionários para uma conversa em grupo. Disseram que não fazia mais sentido eles serem cuidados enquanto seus companheiros morreriam nas ruas. Pediram que, ao invés de jantar no CAPSad, remanejassem o jantar e com o excedente de refeições iriam para a rua, junto com a equipe, distribuí-lo aos que não conseguem chegar ao serviço de saúde. “Quando apostamos em conversar sobre o que é álcool em gel, se produziu mais do que a gente esperava. Acho que transformou algo para sempre no CAPS”, comentou o diretor do CAPSad.

A crise do coronavírus chegou impossibilitando o SUS e visibilizando ainda mais crises estruturais, ao passo que a autonomia e o cuidado em liberdade, tão buscados no cotidiano do cuidado do CAPSad, veio na viabilidade apresentada pelos usuários do serviço. Ao se depararem com a radicalização de seus dramas, se colocaram como agentes de ação em suas condições no território que ocupam, mostrando que “ocupar é tornar o lugar capaz”5.

Notas:

1 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/12/17/entenda-a-crise-da-saude-no-rio-e-a-suspensao-dos-pagamentos.ghtml /

2 Decreto nº 46.973/2020.

3 https://www.ims.uerj.br/2020/03/25/reinaldo-guimaraes-ressalta-importancia-atuacao-do-sus-na-epidemia-da-covid-19/

4 Política do Ministério da Saúde para a atenção integral a usuários de álcool e outras drogas (BRASIL, 2003). Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pns_alcool_drogas.pdf.

5 Autoria desconhecida.


Texto originalmente publicado em 23 de junho de 2020 na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

Agradecemos a ANPOCS pela parceria.



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